Xangô

Por em 06/07/2010


Xangô1Segundo a mitologia de Iemanjá, Xangô era o mais importante dos seus filhos. Originalmente Orixá dos raios e meteoritos, é viril, alegre e justiceiro, castigando os ladrões, corruptos e mentirosos, até mesmo usando a violência. Traz em suas mãos um machado de duas lâminas, neolítico, que lança pedras de raio e estiliza um personagem carregando o fogo sobre a cabeça. Essas pedras é que contém o Axé do Orixá (VERGER, 2002, p.134-135). Segundo a lenda,

Xangô era filho de Oranian, valoroso guerreiro, cujo corpo era branco à esquerda e preto à direita.

Xangô tinha um oxé – machado de duas lâminas; tinha também um saco de couro, pendurado no seu ombro esquerdo. Nele estavam os elementos do seu axé: aquilo que ele engolia para cuspir fogo e amedrontar seus adversários, e as pedras de raio com as quais ele destruia as casas de seus inimigos.

Assim que ficou adulto, Xangô partiu em busca de aventuras gloriosas. O primeiro lugar que Xangô visitou chamava-se Kossô. Ali chegando, todos de Kossô vieram lhe pedir clemência, gritando: “Kabiyesi Xangô, Kawo Kabiyesi Xangô Obá Kossô!” (vamos todos ver e saudar Xangô, o Rei de Kossô!). Assim ele pôs-se à obra; realizava trabalhos úteis à comunidade e fazia as coisas com alma e dignidade. Mas esta vida calma não convinha à Xangô. Ele adorava as viagens e as aventuras. Assim, partiu novamente e chegou à cidade de Irê, onde morava Ogum.Ogum o terrível guerreiro; Ogum o poderoso ferreiro. Ogum estava casado com Iansã, senhora dos ventos e tempestades. Ela ajudava Ogum na forja, carregando suas ferramentas e atiçando o fogo com os sopradores. Xangô gostava de ver Ogum trabalhar; vez por outra, ele olhava para Iansã. Iansã também olhava para Xangô. Xangô era vaidoso e cuidava muito de sua aparência, a ponto de trançar seus cabelos e furar suas orelhas, onde pendurava grandes argolas de ouro. Usava braceletes e colares de contas vermelhas e brancas. Muito impressionada pela distinção e pelo brilho de Xangô, Iansã foi-se embora com ele tornando-se sua primeira mulher (http://www.umbandaquerida.kit.net/xango.htm, acessado em 23/07/2009)

O Orixá Xangô tem como símbolos mais expressivos o livro e a pedra atingida por um raio. Representando o conhecimento e a sua transmissão, o livro é associado à lei, à justiça, regida por mãos de pilão, este sendo o que transforma a matéria em alimento. O raio, por sua vez, ao atingir a pedra, tem o poder de transformar o mineral, assim como o de transformar o homem. É importante lembrar que a rocha e o livro também estão presentes na imagem de São Jerônimo, um dos santos católicos sincretizados com o Orixá. Lembremo-nos aqui do machado de duas lâminas, que nos remete à ideia de equilíbrio e união dos opostos, interagindo o mundo superior com o inferior (SCIPIONI E CORREA, 2008, p. 77-83).

O poder sobre os raios aproximaram, inicialmente, Xangô de Santa Bárbara, invocada pelos cristãos contra raios e tempestades. No entanto, não foi esse o sincretismo realizado pela Umbanda, que liga sua característica de justiceiro com São Jerônimo, santo católico que, sentado numa rocha (referência a solidão do deserto de Calcis, onde foi torturado), com o dorso nu, bate com a pedra em uma das mãos contra o peito (símbolo de sua conversão de uma vida repleta de pecados), enquanto um livro é segurado pela outra. Esse livro, que poderia corresponder ao Código Penal de hoje, foi inicialmente associado às Tábuas da Lei, através da qual Moisés fez justiça para o povo de Israel. Finalmente, aos pés do Santo dorme um leão, que simboliza os animais que lhe fizeram companhia. No entanto, os símbolos mais expressivos são a pedra em uma das mãos e a rocha onde se sentava, transformando Xangô em São Jerônimo, o Senhor da Justiça, cujos elementos são as pedreiras e as cachoeiras (COSTA, 1983, 249-262).

Também é comum, no caso do Rio de Janeiro, a associação de Xangô com São João Batista. Ao batizar o Cristo com água, anunciava que Ele batizaria a todos com o fogo, elemento que simboliza, em muitas culturas, a inteligência, a criatividade e a ação. Daí nasce o sincretismo com o Orixá, que lança fogo a partir de sua cabeça e rege as pedras da cachoeira, numa alusão ao batismo de Jesus com água. O domínio da Lei também gerou a representação de Xangô através da imagem de São Pedro, pois este é quem herda as chaves do céu (Orum) e a Igreja do Cristo na Terra (TRINDADE, LINARES e COSTA, 2008, p.253-254).

Figs. 1, 2, 3 e 4: Xangô, na mitologia africana e nas suas representações sincréticas: São Pedro , São João Batista e São Jerônimo.

XangôFigura 1

São PedroFigura 2

São João BatistaFigura 3

São JerônimoFigura 4

*Marcelo Alonso Morais é professor de Geografia do Colégio Santo Inácio, no Rio de Janeiro, e tem mestrado em Geografia das Religiões.

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Por Marcelo Alonso Morais, em 06/07/2010 - 00:03. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.

1 resposta to “Xangô”

  1. patricia

    ola marcelo como faço para adquirir o livro de Xangô das pedras São Jerônimo ….desde ja agredeço

    #1663

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