Vida longa à poesia

Por em 16/09/2009


Machado de AssisAcima, gravura retratando Machado de Assis.

Não sei se é impressão minha, mas acho que nunca ouvi falar tanto em poesia como ultimamente. Também nunca vi publicar tanto poema como de uns tempos para cá. Sempre torci o nariz para as modinhas, mas se esta pegar, creio que ficarei feliz. Nos concursos literários, tanto os que tenho concorrido como os que tenho julgado, o gênero poesias é sempre o mais disputado, e com larga vantagem sobre os demais. Todo mundo tem um pouco de poeta, já diz a sabedoria popular.

O problema é que poucos lêem poesia. O drama é que esses novos poetas são tão bons, mas tão bons, que escrevem maravilhosamente bem sem ler, sem aprender com ninguém, por puro instinto e talento nato. Aí a produção poética deles mesmos e dos outros fica encalhada nas livrarias, ou embaixo das camas de seus criadores.

De minha parte, posso garantir que quase um terço da minha biblioteca é composta de poesia, entre cânones e caxienses. Gosto de conferir o que é feito aqui e no mundo. Creio que li boa parte do que Caxias produziu em verso. No mundo já é mais complicado.

Também comecei escrevendo poesia. Minha curta produção literária iniciou através dos versos. Mas antes de escrever li muito, muito poema. E ironicamente, só fui publicar uma seleção de meus melhores versos há pouco, na obra “Do Útero do Mundo”, que em oito meses, inexplicavelmente, está quase esgotada. Acho que as pessoas gostaram da capa.

Olhando para trás, revendo a história dos grande escritores, vemos que vários deles iniciaram com a poesia. Até o maior de nossos prosadores, Joaquim Maria Machado de Assis, começou assim. Consagrado como exímio romancista e excelente contista, foi com o poema “Ela” que conseguiu sua primeira publicação, na então conhecida Marmota Fluminense, em 1855, quando contava apenas 16 anos de idade. Mais tarde, em 1864, publica seu primeiro livro “Crisálidas”, também de poemas. Além desta obra, ao longo de sua carreira escreveu e publicou mais três livros de poesias, a saber: “Falenas”, 1870; “Americanas”; 1875 e “Poesias Completas” (incluindo Ocidentais), 1901.

Assim, recomendo aos novos e velhos poetas que leiam poesia. É necessário e, além de tudo, agradável. Pode ser no mínimo interessante ver como outros sentem e expressam emoções semelhantes às nossas. Aquele verso, aquela frase contundente, redonda, perfeita, que pode tocar tão fundo. A poesia é a origem da palavra escrita, que juntamente com as orações aos deuses, eram pintadas ou talhadas nas paredes das cavernas.

Não vamos permitir que tão nobre expressão de arte seja banalizada e desdenhada. O poeta não é um deus, mas também não pode ser um mendigo. Aos poetas, que escrevam cada vez mais e melhor. Aos leitores, que degustem bons poemas.

Vida longa à poesia. À poesia escrita com embasamento. E à poesia lida.

*Uili Bergamin nasceu em Bento Gonçalves, RS, no dia 02 de fevereiro de 1979. Destaca-se por sua escrita concisa, e pela busca das palavras certas, que encaixam perfeitamente ao texto. Bergamin é também colunista em jornais e revistas de circulação em Caxias do Sul e região.

Obras publicadas

O Sino do Campanário (2005, contos, Editora Maneco) Coletânea de catorze contos e obra inaugural do autor. Apesar do título, não é propriamente um livro religioso. Talvez seja antes o contrário.

O conto que nomeia a obra, por exemplo, narra a história de um padre que, aos 70 anos, revê sua vida e relembra um grande amor do passado. A solidão do celibato, a angústia de estar teminando de viver, o fracasso de uma vida que não realizou seus sonhos nem o de seus pais, faz com que transfira suas dores ao sino de sua igreja, como única forma de redenção. Praticamente todos os contos têm como fio condutor a crença, o amor e a dúvida. Seus contos são independentes e escritos de maneira simples, porém, seu texto é polêmico e questionador, e incita à reflexão sobre crenças, verdades e dogmas.

Cela de Papel (2006, novela, Editora Maneco) é uma novela fragmentada, com nuance autobiográfica. É uma fantasiosa alegoria sobre a arte da leitura. Repleta de metalinguagens.

Do Útero do Mundo (2007, poesias, Editora Doravante) Impiedosos e intensos, luminosos e sombrios, a maioria dos poemas que compõem a obra já obteve alguma premiação literária. Do Útero do Mundo vem sendo muito elogiado pelos leitores e também pela crítica.




Por Uili Bergamin, em 16/09/2009 - 00:01. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.

Comente!

Busca

Colunistas



BannerFans.com