Vias da insensatez
O prefeito Eduardo Paes tem dito que o maior legado das Olimpíadas será na área de transportes. Tem dito, também, que quebrou a lógica perversa de privilegiar o desenvolvimento da Barra da Tijuca em detrimento da Zona Norte e do Centro, esvaziados e com sua boa infraestrutura se deteriorando há décadas. Diz, ainda, seguir o Plano Diretor, que condiciona o crescimento da Barra e de Jacarepaguá a contrapartidas do setor privado. Os fatos o desmentem.
Os grandes investimentos da Prefeitura estão direcionados à Barra. É a Transoeste (Santa Cruz/Campo Grande/Barra), a Transcarioca (Galeão/Barra) e a Transolímpica (Deodoro/Barra). Juntando as três e a expansão do metrô – para onde? -, tocada pelo Estado, dá R$ 12 bilhões de dinheiro público aplicados integralmente na região.
No entanto, existe o consenso de que é preciso recuperar a Avenida Brasil, por onde passam 900 mil pessoas por dia – o que reforça a importância de construir a Transbrasil, que revitalizaria 27 bairros. Previsto para custar R$ 1,3 bilhão, este corredor beneficiaria quatro vezes mais pessoas do que a Transolímpica, que custará quase o dobro (R$ 2,4 bilhões) e ainda exigirá recursos públicos no valor de 70% da obra. E que terá pedágio, para remunerar os 30% dos recursos privados.
Paes, reconheça-se, incluiu a Transbrasil nos planos, no penúltimo ano do mandato. E está de pires na mão atrás de verba. A prioridade óbvia do transporte não integra o legado olímpico.
Quanto ao metrô, a decisão de levá-lo à Barra cumpre a exigência de ligar a Zona Sul à sede dos jogos. Falava-se em corredor de BRT. Mas, quando o Estado anunciou o metrô, foi animador. Logo, a realidade chegou aos otimistas. A ligação original Centro-Barra, chamada Linha Quatro, que seria através de estações na Gávea, no Jardim Botânico, no Humaitá e em Botafogo, foi abandonada. Será esticada a atual Linha Um, da Praça General Osório, em Ipanema, ao Leblon, São Conrado e Jardim Oceânico. Daí, até o terminal Alvorada, haverá um BRT. A esse mesmo terminal Alvorada chegarão os usuários das outras três “trans”.
O improviso se agrava porque a Linha Um já está sobrecarregada. Compartilha os mesmos trilhos com a Linha Dois em parte do trajeto. O resultado desse absurdo político-administrativo sofremos diariamente, nas estações hiperlotadas. É fácil prever: vai piorar. E a linha remendada continua a produzir surpresas. A última é a informação de que as estações General Osório e Cantagalo ficarão fechadas, no mínimo, por seis meses, simplesmente porque a primeira foi construída sem a profundidade necessária para o prolongamento. Nesses movimentos erráticos, o Estado chegou a desistir da Gávea, optando por um bypass entre São Conrado e Leblon. O governador se viu obrigado a intervir, mas até hoje as plantas da estação Gávea não existem. O prefeito consente, ao se omitir.
Em paralelo, as imobiliárias aguçam a legítima aspiração dos cariocas de desfrutar a brisa do mar e são a prova de que os recursos públicos continuam promovendo a riqueza do setor privado, sem que se exija contrapartida alguma desses grandes beneficiários.
E não são apenas residências. É clara a intenção de transformar a Barra no novo centro de negócios, apesar do discurso oficial sobre a recuperação do Centro e da Zona Norte.
Jacarepaguá, que será cortada por duas “trans”, já enriqueceu especuladores imobiliários da noite para o dia, sob o olhar complacente de Paes, embora haja instrumentos, no Plano Diretor, para conter a festa da especulação.
As novas vias irão, ainda, viabilizar a ocupação predatória de áreas de preservação ambiental e de bairros sem adequada infraestrutura , como a região das Vargens, Curicica, parte da Taquara e outros trechos de Jacarepaguá. Vendida como a redenção, promove-se a destruição da Barra.
A Barra da Tijuca como sede olímpica não foi escolha do prefeito. Ele até conseguiu levar alguma coisa para a área do Porto. Mas a escolha equivocada – apenas 50% das competições serão lá – não implica aprofundar os equívocos, e dois deles são gritantes: a Transolímpica e o traçado do metrô.
Seria mais sensato decretar 20 dias de feriado na cidade e deixar livres para o trânsito olímpico as vias existentes.
Barcelona, cidade que se reinventou com a Olimpíada, segue executando ações planejadas muitos anos antes do evento. No Rio, as intervenções contrariam o próprio Plano Diretor, bússola do crescimento da cidade.
Daí, não me sai da cabeça a frase que um colega vereador não se cansa de repetir: “Para ficar ruim, tem que melhorar muito.”
*Andrea Gouvêa Vieira é jornalista, casada, mãe três filhos, três enteados e três netos. Foi eleita vereadora pelo município do Rio de Janeiro ao concorrer pela primeira vez em 2004. É filiada ao PSDB.
Por Andrea Gouvêa Vieira, em 19/09/2011 - 00:01. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.


























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