“Viagem Literária”

Entre os dias 21 e 23 de setembro, juntamente com outros escritores, participei do evento Viagem Literária, promovido pela Secretaria de Estado da Cultura e Bibliotecas Públicas de cidades do interior paulista. A fórmula desse evento é sempre a mesma: a Secretaria envia autores para as Bibliotecas Públicas interessadas, que, por sua vez, disponibilizam o espaço, para que crianças e adolescentes das escolas municipais e estaduais possam ouvir palestras sobre Literatura. No meu caso particular, fui visitar quatro cidades do Vale do Paraíba: Guaratinguetá, São José dos Campos, Pindamonhangaba e São Francisco Xavier. Fiz todo o périplo, de enfiada, dormindo em algumas cidades e, noutras, apenas fazendo as palestras.
Não sou noviço nesse tipo de trabalho, pois há muitos anos, venho pondo o pé na estrada, por conta de minha produção literária, para falar com jovens de diversas regiões do Brasil. Todos os anos, tenho viagens programadas para a capital e o interior de São Paulo, para o Rio Grande do Sul, Paraná, Goiás, Sergipe, etc. Contudo, nessas viagens, costumo falar mais especificamente em escolas, onde meus livros costumam ser adotados. Esses encontros são muito positivos, no sentido de eu poder avaliar o alcance de minha obra literária, de entender o mecanismo das adoções por parte dos professores e de ver também qual é a expectativa dos jovens leitores em relação à leitura, sobretudo numa época em que se lê muito pouco e em que o livro constitui um objeto de luxo. Nessas viagens também é interessante poder discutir com os professores diferentes questões: para que serve a leitura, sobretudo se se pensar na concorrência da internet; como despertar o interesse pela leitura; que tipo de trabalho realizar com a leitura dos livros, ou seja, deve se cobrar ou não pela leitura; como tornar acessível uma publicação que, via de regra, não é lá muito barata e está longe do poder aquisitivo de grande parte da população brasileira; que políticas públicas há para fazer que o livro chegue, sem muito ônus, às mãos do consumidor, etc.
Essas viagens de divulgação de livros que costumo fazer, contudo, é ligeiramente diferente das que a Viagem Literária propõe, embora a base seja a mesma: pôr em contato o autor vivo e os leitores. É diferente, em primeiro lugar, porque o evento se realiza somente nas Bibliotecas Públicas e não nas escolas; em segundo lugar, o evento não é promovido pelas editoras, em convênio com escolas, mas, sim, pelo Estado e, em terceiro lugar, não leva em consideração a adoção de livros, como premissa básica para que o escritor seja apresentado aos leitores. E essas diferenças são fundamentais, pois, de um lado, este programa cultural do Estado serve para dar valor a um espaço nem sempre contemplado pelo poder público, que é o das Bibliotecas Municipais e, por outro lado, serve para fazer que o autor, independentemente de ter uma obra lida em sua visita, consiga despertar nos leitores o gosto pela leitura somente com sua palestra.
Quanto à primeira questão, que desenvolverei mais adiante, com alguns exemplos, no mínimo curiosos, o cuidado com as bibliotecas pela municipalidade varia de município para município, o que se reflete, evidentemente, no acervo, na indexação dos livros, na informatização, na presença de pessoal qualificado e, por conseguinte, no número de frequentadores e no aumento da leitura. Quanto à segunda questão, que diz respeito ao corpo-a-corpo entre autor e leitores, verifica-se a necessidade por parte do escritor de adotar uma retórica adequada, para prender a atenção dos ouvintes por algumas horas, sem ter a base essencial que á leitura dos textos. Como um ficcionista ou um poeta, via de regra, não é um artista de tevê e/ou cinema, um atleta, não vale por sua persona e, sim, por aquilo que produz: obras de ficção ou poesia. Neste sentido, talvez o programa pudesse ser aperfeiçoado, de modo a conseguir que as escolas, ou as bibliotecas promovessem a leitura dos livros dos autores bem antes das palestras serem dadas.
Mas, nesse caso, entram alguns complicadores, entre eles, o que diz respeito aos acervos das bibliotecas. Por melhores que sejam, os acervos sempre apresentam lacunas. Por exemplo: em algumas bibliotecas que visitei, não havia um único exemplar de livros meus, enquanto em outras, havia um número razoável de exemplares. O segundo complicador: nem sempre as escolas preparam seus alunos para o encontro. E isso se deve a vários fatores: falta de sintonia entre a biblioteca e a escola, de modo que haja tempo hábil para preparação dos alunos ou mesmo carência absoluta de meios. Muitas vezes, as escolas, como são públicas, não contam, em suas minguadas bibliotecas, com os livros necessários para os encontros. Devido a isso, os encontros acabam sendo realizados um tanto no vazio, na medida em que, como já dissemos, o escritor vale mais por aquilo que produz do que por sua pessoa propriamente dita. Mas, mesmo com essa precariedade, os resultados são positivos: em alguns casos, verifiquei que certas questões que discuti em meu périplo, como as que dizem respeito ao ofício do escritor, à prática da escrita, à importância dos livros e da leitura, à revelação de aspectos inusitados do mundo pela leitura, à diferença entre literatura de qualidade e a literatura de má qualidade, às políticas públicas governamentais para o livro, etc., podem ter tocado fundo nos jovens
Não poderia finalizar este artigo com algumas curiosas observações a respeito dos espaços que me foram dados visitar. Em Guaratinguetá, a Biblioteca Pública conta com um espaço excelente e com um acervo de 60.000 exemplares. Pelo que me contaram as responsáveis, a freqüência é bastante boa, tanto de jovens como adultos. Alguns livros, inclusive, têm que ser reservados com antecedência, tanto é o interesse do público. Há verbas para compras de livros e manutenção de pessoal especializado. Em Pindamonhangaba, verifica-se igualmente que as políticas públicas estão voltadas para a leitura, pois os espaços são bons, e o acervo é aumentado constantemente, sem contar que há uma diretora geral e bibliotecárias bem preparadas para o mister. A decepção ficou por conta da cidade de Campos do Jordão. Além de o espaço ser acanhadíssimo (a biblioteca divide o espaço de um velho casarão com a Academia de Letras da cidade…), o diretor confidenciou-me que não há verbas públicas para compra de livros! A biblioteca vive de doações, conseguidas junto a editoras e entidades governamentais, o que é um despropósito, ainda mais se se pensar que esse município é uma das estâncias turísticas mais ricas do Estado. Por isso mesmo, a biblioteca só funciona graças ao esforço, à abnegação do diretor e bibliotecárias.
E o caso mais curioso e emblemático de minha viagem fica para o fim. São Francisco Xavier, um encantador distrito de São José dos Campos, situado no meio da serra da Mantiqueira e contando tão só com 3.000 habitantes, foi o local que me provocou a maior surpresa. Isso por conta das condições bastante peculiares da Biblioteca Pública do lugar. No passado, pelo que fiquei sabendo, como não havia prédio próprio para onde acondicionar os livros, a subprefeitura os havia guardado provisoriamente no edifício onde funcionava a cadeia local! E, evidentemente, ninguém podia ter acesso aos pobres presidiários… Até que um abnegado da cidade, o professor Sidnei Pereira da Rosa, formado em biblioteconomia, arregaçou as mangas e criou uma biblioteca na garagem de sua própria casa que, depois, expandindo-se, acabou por ocupar a casa inteira.
Hoje, a Biblioteca Solidária é freqüentada por grande parte da população de São Francisco Xavier. Sidnei não só faz o papel de diretor, de bibliotecário, como também é ele quem busca doações e auxílio nas empresas para comprar estantes, computadores, móveis, etc. E o que clama aos céus, sem receber um só tostão! Faz tudo isso por amor aos livros, por amor à biblioteca, que conta com salas atulhadas de estantes, salas de consulta, uma sala para reuniões e palestras e, atrás, com um espaço coberto com um toldo, com um pequeno jardim, onde as oficinas literárias tem sua vez.
Sidnei, sempre sorridente e prestativo, é um exemplo a ser seguido, ainda mais num país que trata a educação como lixo e onde os políticos se comprazem em refocilar na podridão dos escândalos, pouco se lixando para livros, bibliotecas e para a cultura em geral.
*Álvaro Cardoso Gomes é professor titular da USP e escritor. Publicou, entre outras obras, Os rios inumeráveis, A divina paródia, Concerto amazônico, A boneca platinada, O comando negro (romances); A hora do amor, A colina sagrada (romances juvenis), além de diversos livros de ensaios.
Por Alvaro Cardoso Gomes, em 28/09/2009 - 00:01. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.


























Siga a Revista Debates Culturais pelo
Curta a Revista Debates Culturais no 


Parabéns pelo relato, mostra-nos a realidade das nossas Bibliotecas e o esforço dos profissionais da informação em manter este espaço tão democrático da sociedade.
Um abraço
Jorge