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Vendendo o rim para encher o tanque

A primeira semana de 2017 termina com o anúncio da Petrobrás de que o diesel, nas refinarias, será reajustado em 6,1% a partir desta sexta-feira, 06 de janeiro. Estima-se que o litro será vendido nos postos de combustível com um acréscimo de R$ 0,12. Como o modal de transporte no Brasil é majoritária e ignobilmente rodoviário, o aumento do diesel terá impacto direto nos mais diversos setores da economia, especialmente nos alimentos. Ou seja, começamos o ano com a inflação fermentada. Cumpre destacar: é o terceiro reajuste em menos 60 dias.

Em comunicado oficial divulgado na noite de quinta-feira (05), a Petrobrás informou aos investidores e ao (ir)respeitável público que “a decisão é explicada principalmente pelo efeito da continuada, embora mais discreta, elevação dos preços do petróleo nos mercados internacionais”. Por fim, reafirma a “nova política de revisão de preços pelo menos a cada trinta dias” adotada pelo atual presidente da estatal, Pedro Parente, em consonância com os ditames do presidente da República, Michel Temer.

Noutras palavras, de agora em diante, o céu é o limite para o preço dos combustíveis no Brasil e, muito em breve, seremos obrigados a vender um rim para encher o tanque do carro.

Essa tal “nova política de preços” pode até ser facilmente compreendida por economistas e profissionais do setor, mas é desconjurada pela expressiva maioria do povo brasileiro. Na cabeça do cidadão comum — o famoso trouxa nacional pagador de impostos para governos corruptos —, quando o valor do barril de petróleo despenca no mercado internacional, o preço dos combustíveis no Brasil misteriosamente sobe; e quando o petróleo sobe lá fora, os combustíveis por aqui também ficam mais caros. Ou seja, a matemática bizarra dos preços controlados pelo governo brasileiro é sempre aumentar o preço para o consumidor, seja qual for o cenário.

Um bom exemplo aconteceu no último mês de dezembro. O Palácio do Planalto festejou o anúncio da redução do preço da gasolina nas refinarias. Parecia uma auspiciosa notícia, mas não era. No dia seguinte, os postos de combustível de todos os Estados brasileiros aumentaram o preço por litro de gasolina alegando que o etanol havia encarecido muito, impactando na “mistura”, o famigerado “batismo legalizado”. Na semana seguinte, a Petrobrás anunciou novo reajuste, desta vez para cima, e novamente a gasolina disparou. É uma excrescência. Uma vergonha!

Para o cidadão comum, a explicação oficial não se sustenta à luz dos números reais. Senão, vejamos: nos últimos cinco anos, a queda brutal do preço do petróleo no mercado internacional serviu como justificativa para a falência de Estados, para a retração na arrecadação e para a violenta crise financeira que acomete o Brasil. No entanto, em momento algum a queda no valor do barril foi transformada em redução nos preços dos combustíveis vendidos aos consumidores. Foi exatamente o contrário.

Considerando os dados oficiais da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), entre 2011 e 2016 o preço da gasolina aumentou 40%, o diesel saltou 52% e o etanol foi reajustado em 57%. No mesmo período, especialmente entre 2014 e 2015, o valor do barril de petróleo despencou vertiginosamente. E nem estamos falando da escandalosa carga tributária. Segundo cálculos do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT), apenas no preço do litro de gasolina o consumidor paga mais de 56% em impostos.

Como explicar essa bizarrice brasileira aos cidadãos? É algo semelhante aos juros extorsivos do cartão de crédito, que alcançaram 482% e ninguém, nem o mais renomado dos economistas, consegue aclarar tal conta.

Cereja desse bolo de tolos, nunca é demais lembrar que a Operação Lava-Jato revelou o maior esquema de corrupção já registrado na História do planeta e estima-se que a roubalheira tenha provocado um prejuízo superior a R$ 50 bilhões no cofre da Petrobrás. Resumindo a ópera dos malandros, aumentar sistematicamente o preço dos combustíveis também é uma forma de cobrir o rombo estratosférico deixado pela corrupção.

No fundo, tudo isso é uma grande bobagem neste país que não consegue reagir feroz e dramaticamente contra suas piores pragas. Como a maioria de nós temos dois rins, em tempos de grave crise econômica, reitero, podemos vender um deles para encher o tanque do carro nos próximos meses. Se bobear — e dependendo da roda de amigos que você frequenta —, ainda poderá ouvir um sonoro “vá de bicicleta!” ou “passe a andar a pé!”, como manda a nauseabunda cartilha politicamente correta daqueles que ajudaram a saquear a República.

Afinal, o Brasil é o país do futuro… do pretérito!

*Helder Caldeira é escritor, jornalista político, palestrante e conferencista, diretor de jornalismo da TV Mutum SBT e editor-chefe da revista Capa. Autor dos livros ‘ÁGUAS TURVAS’ e ‘A 1ª PRESIDENTA’.

www.heldercaldeira.com.br – helder@heldercaldeira.com.br

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