Universidade e barbárie!

Por em 11/11/2009


Aluna da UnibanAcima, aluna sendo ajudada a sair das instalações da Uniban, em São Paulo.

Escrevo este artigo, ainda sob o impacto dos fatos lamentáveis que tiveram vez no campus de uma Universidade da Capital, a Uniban. Para refrescar a memória do leitor, resumo-os aqui: uma aluna de um dos cursos, tendo comparecido com trajes considerados sumários e inadequados às aulas, foi perseguida por uma multidão de estudantes que, com palavras de baixo-calão e até mesmo ameaças físicas, a acuaram, obrigando-a a se refugiar numa das salas. Ao que parece o incidente foi tão grave que exigiu até a intervenção da polícia. Caso alguém queira mais detalhes do caso, basta acessar o “youtube”, onde encontrará fartas imagens sobre tudo o que aconteceu. Inclusive, poderá ver que os tais de “trajes sumários”, conforme os relatos de alunos e alunas exaltados, resumem-se apenas a uma curtíssima mini-saia cor de rosa. Se a vestimenta da moça esteticamente não é de bom gosto, não apresenta nada de mais, em relação ao que se vê hoje por aí.

Mal comparando, começo por lembrar um fato que ocorreu na Universidade da Califórnia, em Berkeley, onde passei alguns meses, por conta de uma pesquisa sobre a poesia de Poe e Baudelaire. Numa de minhas idas ao campus, deparei com uma cena inusitada: um aluno, nu em pêlo, desfilava pelas aléias da Universidade. Num determinado momento, foi entrevistado por um repórter de um canal de televisão, que desejava saber os motivos de sua atitude. O jovem então explicou que andava despido porque, tendo o homem nascido nu, era um contra-senso a sociedade exigir que andasse vestido. Sendo assim, protestava contra a sociedade iníqua, castradora, etc., etc. Depois, vim a descobrir que ele fazia parte de um grupo, cujos membros, sempre nus em pêlo, faziam performances à entrada do campus. As performances resumiam-se ao seguinte: estendendo uma lona no chão, homens e mulheres retorciam-se, esfregam-se uns nos outros, aos olhos da platéia, formada geralmente de estudantes da Universidade e de curiosos, entre os quais, acabei por me incluir. Não me lembro de ninguém apupar, insultar os homens e mulheres com palavras de baixo calão e muito menos ameaçá-los de estupro. O máximo que se ouvia eram risos e comentários estéticos sobre o físico dos nudistas, que não era lá dessas coisas.

Quanto à polícia, talvez acostumada às excentricidades dos estudantes de Berkeley, não interveio, de maneira que o espetáculo terminou com um pequeno discurso inflamado de um dos exibicionistas, protestando contra a sociedade repressora, capitalista, etc. e tal e um convite para que os presentes também se despissem. Até que um incidente mais “grave” veio a acontecer com o líder do grupo, quando ele decidiu que tinha o direito de assistir às aulas nu em pêlo. Como era de se esperar, foi proibido de entrar pelado (apenas pelado, faço questão de frisar) nos prédios da Universidade. Mas isso aconteceu sem escândalo, sem alarde, sem que uma multidão o acuasse e lhe fizesse ameaças de qualquer tipo. Como não tive oportunidade de assistir ao ao da proibição, julgo que esta se deveu simplesmente ao seguinte: ficando nú, por convicção, o tal do estudante invadia o espaço dos outros estudantes, que não comungavam da mesma convicção e que, por isso mesmo, se sentiam constrangidos em assistir às aulas com um praticante do nudismo a seu lado.

Voltando aos fatos da Uniban e considerando o comportamento da massa que acuou a jovem no campus da Universidade, digo que, sob todos os pontos de vista, ele é inaceitável, absurdo. Esse comportamento só reforça a idéia de que as pessoas, quando se juntam – seja em algumas assembléias políticas, seja em alguns atos religiosos, seja em alguns jogos de futebol e seja agora, como novidade, no campus de uma Universidade –, e as emoções se exacerbam, comportam-se como animais, deixando de refletir e respondendo tão somente a palavras de ordem, mesmo que estas sejam descabidas e atentem contra os mais elementares direitos humanos. É a barbárie instituída. E o incrível é se pensar que tudo se passou dentro de uma instituição universitária, que teoricamente deveria ser o espaço da harmonia, da confraternização, da tolerância.

Mas cabe aqui outro raciocínio: na realidade, o que aconteceu reflete uma triste realidade (ou é mesmo o epifenômeno de uma triste realidade), se se considerar que os fatos tiveram vez no Brasil. Isto serve para desmentir mais uma vez a imagem do “brasileiro cordial”, generoso, tolerante e libertino, apregoada nas canções de música popular, num determinado tipo de ficção populista e nos discursos de certos políticos. A verdade é que o brasileiro, em algumas circunstâncias, é tão preconceituoso e mesquinho quanto outro povo qualquer, ainda mais quando levado por uma moralidade rastaquera ou movido pela mentalidade de rebanho. E isso, com toda certeza, é que provocou o lamentável episódio, o que me leva a concluir que os estudantes, devido à mesquinhez moral, à intransigência, à estupidez, não merecem, de maneira alguma frequentar uma Universidade.

Mas falando em Universidade, não poderia deixar de comentar o epílogo de tudo: depois que escrevi o artigo, li no jornal que a Uniban, num processo sumário, decidiu pela expulsão da aluna e pela simples advertência e/ou suspensão dos estudantes que a acuaram. Ou seja: a corda estourou do lado do mais fraco, e a Universidade – se é que a instituição merece mesmo este nome – perdeu a grande oportunidade de mostrar que é um centro de saber, de pesquisa e, acima de tudo, um espaço de socialização e convivência fraterna entre seus alunos. Talvez, por isso tudo, eu aconselharia que seus mantenedores fizessem uma pequena excursão até a Universidade da California, para, quem sabe, aprenderem o que é discrição e tolerância.

*Álvaro Cardoso Gomes é professor titular da USP e escritor. Publicou, entre outras obras, Os rios inumeráveis, A divina paródia, Concerto amazônico, A boneca platinada, O comando negro (romances); A hora do amor, A colina sagrada (romances juvenis), além de diversos livros de ensaios.




Por Alvaro Cardoso Gomes, em 11/11/2009 - 00:03. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.

2 respostas to “Universidade e barbárie!”

  1. É interessante notar como num átimo a perspectiva de qualquer evolução da humanidade se esvaece completamente.
    O que aconteceu na UNIBAN é inaceitável, não obstante o comportamento prévio da aluna – tido como justificador para sua expulsão, temporariamente revogada.
    O fato é, se os trajes não eram condizentes com o ambiente acadêmico, por que não barraram a entrada da aluna no campus? Se sua postura era inadequada durante as aulas, por qual motivo não providenciaram reprimendas de qualquer natureza? Por escrito. Advertências de facto (em itálico, consigne-se).
    Punir o ofendido com pena inquestionavelmente maior daquela aplicada ao seu ofensor demonstra a falta de tino e senso de justiça daqueles que têm sob sua batuta a regência desta universidade.
    Outra coisa que me preocupa é a repercussão dessas mazelas nos alunos que estudam nessa Universidade(ou em qualquer outra que não se enquadre nas mais tradicionais) mas que são igualmente capazes. A conclusão equivocada dos reitores desta universidade redundará em decisões não menos equivocadas que geram a generalização (outro grande problema a ser discutido).
    Fico feliz que tenha compartilhado suas experiências internacionais para que possamos vislumbrar um pouco do que deveria ser o ambiente acadêmico, sem esquecer que os americanos são bons exemplos para muitas coisas, mas não raro pecam também no quesito tolerância e bom senso.
    A verdade é que logo esqueceremos tudo isso, a garota voltará a ser mais uma, as pessoas serão as pessoas e a Uniban continuará sendo a Uniban. Disso tudo restará apenas ecos.
    Deixo um grande abraço.
    André

    #207
  2. Parabéns pelo artigo, acho que todos nós estamos estupefatos com esse caso absurdo de machismo, intolerância e falso moralismo.
    Gostei também do exemplo da universidade da califórnia, nunca aqui no Brasil algo de tamanha civilidade seria realizado.

    #209

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