Uma visão finissecular de Pindorama: Concerto Amazônico, de Álvaro Cardoso Gomes.
Acima, retrato de Carlos Gomes.
Em Concerto Amazônico (Editorial Ateliê, São Paulo, 2009), Álvaro Cardoso Gomes nos apresenta um narrador personagem — ninguém menos que Pero Vaz de Caminha — que salta através de dimensões espaço-temporais supostamente incomunicáveis, encontrando-se com personagens históricos, pistoleiros do velho Oeste, pais-de-santo, o próprio Lúcifer e alguns de seus sequazes terrenos, como um inquisidor do Santo Ofício e um famigerado delegado do extinto DOPS. Nessa alegoria, Pedro Álvares Cabral, transformado em próspero comerciante, propõe-se construir em plena selva amazônica uma fantástica megalópolis chamada Cabrália. Seguindo uma lógica interna compatível com manipulações temporais usadas na ficção científica, a narrativa explora a desfamiliarização cronológica mediante a intrusão de vários personagens históricos falecidos, entre os quais se encontram, além de Caminha e Cabral, Gustave Eiffel, a cantora Maria Callas, Carlos Gomes, Getúlio Vargas, o rei D. Sebastião, e outros mais. Contra tal pano de fundo, urde-se um sistema significativo densamente estruturado, onde se misturam diálogos impossíveis entre Caminha e aqueles personagens. Recheadas de referências literárias, tais prestidigitações cronológicas não surpreenderão os leitores de Cardoso Gomes. Um dos seus melhores romances, O Sonho da Terra (1983), desenrola-se num espaço subterrâneo chamado “Rego Fundo”, onde o tempo vem assinalado, como em As Mil-e-uma Noites, por estórias que se desdobram dentro de outras estórias, caleidoscopicamente, até uma conclusão que, em teoria, poderia constituir o princípio de uma nova narrativa. Em um excelente romance posterior, Os Rios Inumeráveis (1997), as sucessivas reencarnações do protagonista definem uma perspectiva temporal que, como uma fita de Möbius, reata o final ao princípio, impondo-nos uma meditação sobre o que seja a passagem do tempo. Satírico como aqueles romances, Concerto Amazônico insiste em evocar o amargo riso chapliniano do homem que, prensado pelas engrenagens em Tempos Modernos, nos recorda, implacavelmente, que o rei está nú.
Acima, a capa do livro Concerto Amazônico.
Os diversos aspectos do projeto de Cabrália, que inclui uma gigantesca torre do engenheiro Eiffel, são facetas da mesma visão finissecular de uma sociedade à deriva. Conforme explica o autor na sua “Coda”, espécie de posfácio moderadamente verossímel, Concerto Amazônico é um livro formado à base de livros e de filmes, cuja essência nos chega filtrada através de uma narrativa que constitui “uma súmula, uma recolha de alguns materiais nobres (e outros não tanto) que vim coletando ao longo de minha vida” (195). Supondo certa familiaridade com obras que são parte da nossa tradição cultural, o romance, coerente em sua superficial incoerência, dirige-se especificamente a olhos argutos, apresentando-se como um memorial onde se esboça uma avaliação do que foram e no que resultaram os cinco séculos em que o Brasil “vem construindo sua história de um modo totalmente aleatório, desde seu descobrimento por Cabral” (191).
A mescla de fases históricas e personagens de diversas épocas apela à teoria antropofágica — em referência às idéias propagadas por Oswald de Andrade — de um devoramento de elementos culturais estrangeiros e sua incorporação a uma cultura sincrética que se plasma, não como um melting pot e sim como um mosaico, onde aqueles diversos elementos acabam justapostos e apenas parcialmente integrados num sistema coerente. Sobre o desfecho, diga-se apenas, para não arruinar o suspense, que inclui uma formidável operação bélica, seguida por uma transposição ao ambiente de Canudos. Pese ao tom satírico e à comicidade de algumas situações, Concerto Amazônico oferece uma crítica social séria, da qual não escapam nem o governo, marcado pela corrupção, nem a religião organizada, e nem mesmo a sociedade em seu conjunto.
É, sem dúvida, uma leitura que, apelando à nossa memória histórica e literária, nos convida a meditar sobre os cinco séculos que conduziram ao Brasil contemporâneo, com seus males e bens.
*Milton M. Azevedo é professor titular de linguística hispânica no Departamento de Espanhol e Português da Universidade da Califórnia em Berkeley e autor de vários livros, como Vozes em Branco e Preto. A Representação Literária da Fala Não-padrão (Edusp, 2003), Portuguese. A Linguistic Introduction (Cambridge University Press, 2005), e Introducción a la lingüística española, 3a edição (Pearson Prentice-Hall, 2009).












