Uma vida fascinante
Acima, foto do jornalista Sebastião Nery.
Quem gosta de uma boa leitura, de conhecer a história dos homens que a fazem, deve aproveitar o carnaval e comprar o livro de Sebastião Nery, Nuvem (Objetiva). É a narrativa do baiano do interior que vai para Salvador, ao Seminário Diocesano, ingressa na política e no jornalismo, vira um comunista que nunca deixou de ser católico e consegue a proeza de ser vereador em Belo Horizonte, deputado estadual na Bahia e federal no Rio.
Nery é um talento como jornalista e escritor, uma presença fascinante na conversa, na narrativa, um temperamento marcado pelo bom humor. Tudo explicável pelo seu gosto pelo bom e belo, incluindo aí as bonitas mulheres que povoaram sua vida, até este encontro definitivo com a charmosa Beatriz. Homem que gosta de gente inteligente, dono de cultura cima da média. Seu livro é um passeio não apenas pela sua vida, mas pelo mundo que vivemos de 50 anos para cá.
Conviveu, na intimidade, com os grandes de nossa época – como José Aparecido de Oliveira, Fernando Collor, Tancredo Neves, Leonel Brizola, Darcy Ribeiro e sua evidente devoção Antonio Balbino. Há narrativas interessantes e singulares sobre cada personagem.
Apaixonado por viagens, que marcam sua vida inteira, com a chegada ao poder com a queda do regime militar – que critica sem ódios – é nomeado adido cultural em Madrid, Roma e Paris. E, ao contar suas viagens aos países da Cortina de Ferro, quando membro do Partido Comunista, desperta em todos a vontade de visitar cada um dos lugares, onde aspectos da vida cultural e histórica são por ele abordados na intimidade.
Velho amigo, leitor e admirador de Sebastião Nery, a leitura de seu livro não foi uma surpresa, mas um renovado prazer. A oportunidade de relembrar tempos idos e vividos, que conheci ou testemunhei nesta caminhada em parte comum, nem sempre do mesmo lado, nos reporta a gente que não pode nem deve ser esquecida. Mas tão longa e duradoura amizade, companheirismo, convívio, mostra que, pelo menos, somos efetivamente dois democratas.
A jovialidade demonstrada pelo autor, que vive intensamente nossa vida política e cultural, sem abandonar o hábito das frequentes e longas viagens ao primeiro mundo, tem base não apenas em sua alegria de viver e conviver, mas numa formação cristã que jamais abandonou. E agora parece ter mais tempo para se dedicar com reflexões enriquecedoras.
Ler Nery, comparar os muitos “brasis” e as muitas gerações com que conviveu, é um ganho de prazer e de conhecer. Não apenas comento a obra que li de uma jornada, mas arrisco a recomendar com entusiasmo ao caro leitor. Quem não gostar pode reclamar.
*Aristoteles Drummond, jornalista, é vice-presidente da Associação Comercial do Rio de Janeiro.
Por Aristóteles Drummond, em 19/02/2010 - 00:01. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.

























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