Uma sociedade ou uma zorra?

Por em 15/08/2011


Sociedade ou zorraAchei brilhante um fato que li a poucos dias num livro de um dos maiores ministros que a França já teve no século XVIII, o grande Tayllerand. Perguntaram-lhe, certa feita, sobre o motivo de ele atrair tanta gente para as suas rodas de conversas, e o que tanto conversavam que fazia com que seus convidados ficassem no afã de voltar a sua casa para conversar. Ele respondeu que o segredo para alguém atrair outros para suas rodas é um só: quando quisermos que as pessoas se sintam bem em nossas rodas de conversa, falemos delas mesmas; quando quisermos que vão embora, falemos de nós. Ou seja, como, mais do que nunca, queremos mesmo é falar de nós, não encontramos quem nos ouça.

Compreendo que é difícil chegar em nossa casa e conversar ou mesmo desabafar com nossas companheiras ou companheiros pois a mídia tirou nossas oportunidades. A novela dialoga com a maioria das mulheres, e o jornal nacional dialoga com os homens. Quando termina uma “conversa” inicia outra. No frigir dos ovos, ficamos isolados, solitários, no meio de todo mundo.

Lembro que em minhas andanças por esse Brasil afora entrei certa vez num restaurante e me deparei com uma cena digna de nota e péssima para ser seguida: uma família – pai, mãe e filho – entram para almoçar e procuram uma mesa, se dirigem a um lugar bem barulhento e inapropriado para conversa, em frente à televisão. Os três olhando para um programa qualquer e sem qualquer dialogo familiar. Não havia propósito de aumentar seu relacionamento, sua união, missão maior de todo pai e toda mãe que se preze. Fiquei pensando: que futuro espera esses que se deixam dominar por big brothers da vida ou zorras totais, – programa este que há mais de quinze anos tem o mesmo enredo, a mesma que pobreza cultural – ou mesmo os sensacionalismos dos telejornais. Simplesmente vendo e engolindo idiotices com nome de “arte”.

Prefiro ficar com minha ignorância e meus platônicos a aristotélicos pensamentos. Alguns poderiam chamar-me de retrogrado, arcaico, antigo, medievalista ou coisa parecida, mas sou o que sou e não o que querem que eu seja. Admiro a coragem que meus colegas e amigos têm de escrever desafiando a ignorância reinante no século XXI – e olhe que estamos no início do século – cito alguns que li, leio e admiro muito: Plínio Correa meu mestre, Ulisses Guimarães, Paulo Queiroz, Viriato Moura, Confúcio Moura e muitos outros, que para mim são soldados em defesa do pensamento e da lógica. Um deles me disse certa vez que a maior gloria do homem consistia em tirar o semelhante da ignorância. Max Weber dizia que “a razão e a lógica é a liberdade do homem”. Mas, lamentavelmente, percebemos que dela o homem se distancia a passos largos.

É por isso que tentamos, com nossos pequenos e humildes textos, falar o óbvio, ou seja: o que todo mundo viu e poucos tiveram coragem de falar. Muito menos de seguir.

Napoleão dizia que “a repetição é a melhor figura de retórica”; ou, como dizemos por aqui: água mole em pedra dura tanto bate até fura.

Texto publicado no jornal eletrônico Gente de Opinião em 05/04/2010

*Agnaldo Ferreira dos Santos é filósofo, teólogo, professor universitário e secretário municipal de meio ambiente de Porto Velho (RO). Contato através do e-mail: agnaldo80yahoo.com.br




Por Agnaldo Ferreira dos Santos, em 15/08/2011 - 00:02. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.

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