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Um merecido puxão de orelha

Dia nove deste mês foi meu aniversário, mas foi no dia sete que ganhei os melhores presentes, afinal, ser campeã duas vezes, no mesmo dia, não é para qualquer um.

De manhã, enlouquecida, comemorei o pentacampeonato na Superliga masculina de vôlei do meu Sada Cruzeiro. Seis horas depois, saí pulando pela casa, comemorando e gritando sozinha (para o espanto dos meus cachorros) o título de campeão mineiro do meu Atlético querido, carinhosamente chamado de “Galão da Massa”.

Minha alegria só diminuiu ao ver mensagens postadas por atleticanos nas redes sociais, de maneira preconceituosa, referindo-se ao meu outro time campeão. “Maria joga vôlei…”, cantavam durante comemorações futebolísticas, “Marias gostam de vôlei”, e coisas do tipo.

Sim, concordo que as Marias, as Lauras, as Terezas, os Pedros, os Antônios, os Elias e os Alexandres também gostam. Aliás, foi justamente o time de vôlei do Atlético que me despertou para esse esporte. Lembro-me de que pegava dois ônibus na Pampulha só para vê-lo jogar no Ginástico, no alto da Afonso Pena. Isso mesmo: o time de vôlei do Clube Atlético Mineiro, sob a gestão do saudoso Elias Kalil e direção do seu filho Alexandre, na época com 25 anos.

Em 1980, quando a equipe foi criada, Alexandre armou um time de estrelas (sem trocadilhos), que bombou nas quadras mineiras, com nada mais nada menos que sete títulos em três anos. Desde então, ele veio se destacando como um dos mais competentes dirigentes de equipes esportivas do país.

Os titulares naquela época eram Pelé, Helder, Badalhoca, Zé Eduardo e Fernandão, que despertavam “tietices” entre as mulheres, oscilando entre os atletas dos gramados e os das quadras. E eu lá, claro!!! Não perdia um jogo: nem os de futebol, nem os de vôlei. E me apaixonava por todos. Bons e velhos tempos…

Recentemente, no dia do meu aniversário, recebi uma notícia chata. Queimaram o nosso bandeirão e ainda filmaram a cena. Explico: o bandeirão era aquele do Atlético, lindo e quilométrico, sob o qual, por tantas vezes, eu e milhares de torcedores ficávamos no momento de comemorar os gols.

Um fato desses pode parecer banal, mas não é, pois existe toda uma história por trás daquelas cinzas que ficaram. E o pior: um perigoso despertar de ódios com a vontade insana de represálias por parte de quem se sentiu lesado.

Assim, possivelmente, teremos mais um capítulo triste entre torcidas rivais que já estavam se apaziguando, mas agora, depois do bandeirão queimado, sei não…

Minha vontade, como torcedora, é dar um puxão de orelha nos dois: em um pelo atrevimento e no outro pelo preconceito. Roubar uma bandeira gigante e pôr fogo não é coisa que se faça. Cantar bobagens a plenos pulmões, também não.

Desse jeito vou virar americana.

Fonte: Jornal O TEMPO

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