Um adeus à televisão

A invenção de Gutenberg mataria os alfar­rábios e os copistas, que detinham o monopólio do conhecimento. Depois o rádio sepultaria jor­nais e livros. E a TV substituiria o rádio. Agora é a televisão que tende a desaparecer, diante do acelerado avanço do vídeo online. Anuncia-se que ele absorverá 80% da internet até 2020, que é amanhã! As novas gerações são nativas digitais e já não assistem TV. Preferem o streaming, fre­quentam o You Tube. É a constatação de quem se propõe a enxergar o que está acontecendo no mundo mutante das comunicações.

Todos os dias, um bilhão de horas são con­sumidas no You Tube. Isso representa que todos os 7,5 bilhões de habitantes do planeta assistis­sem ao menos oito minutos a cada dia de vídeos. Já que nem todos ainda são conectados, mas “ape­nas” 3,4 bilhões de pessoas, o índice de assistên­cia a vídeos dobra: são dezessete minutos por usuário. Os números são fornecidos pela União Interna­cional de Telecomunicações.

Os cinemas já registraram a queda de fre­quência. Tanto que se sofisticaram para uma classe que pode pagar para ter poltronas recliná­veis, assentos numerados, climatização a gosto do freguês e outros luxos. Mas a insegurança, o trânsito e até a economia torna mais sedutora a possibilidade de assistir aos filmes pelo serviço de streaming Netflix.

Dentro de vinte anos, 90% do que as pessoas vão assistir estará online. O fenômeno é crescen­te no mundo todo, mas escancarado nos Estados Unidos, onde se constatou o “cord cutter”, ou o “cortar o cabo”, tendência de o usuário deixar de pagar pela TV por assinatura para assistir a víde­os exclusivamente pela internet. A concorrência à TV já está sendo fortalecida por grupos como o próprio You Tube. A vantagem da internet é que não há necessidade de cabos, antenas, satélites ou de visitas de instalação. Para os responsáveis pelo You Tube, este substituiu a TV, ou oferece a TV reimaginada para a geração dos youtubers ou os millennials.

A nova realidade tem de ser observada com interesse não só pelos comunicadores, mas pelos educadores. A EAD – Educação à Distância, tida por modalidade inferior e merecedora do pre­conceito dos tradicionais, ganhará cada vez mais espaço, diante de seu poder sedutor e da autono­mia que concede ao educando. Ele escolhe o que assistir, quando e como. Para quem tem curiosi­dade, é o conhecimento cada vez mais presente e disponível. Quem viver verá. Ou melhor, assisti­rá se estiver plugado.

*José Renato Nalini é desembargador do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, secretário da Educação do Estado de São Paulo, imortal da Academia Paulista de Letras e membro da Academia Brasileira da Educação. Blog do Renato Nalini.

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