Tempos de violência

Por em 17/02/2009


A violência é multissecular. A cada ano que passa o ser humano parece estar mais tenso, intolerante e proporcionalmente mais violento. Antes, os homens criavam as suas diversas guerras e em nome do patriotismo ou dos brasões de seus reinos e religiões, se destruíam em constantes e sangrentos combates. Veraz, que hoje as guerras são menos freqüentes e de menor duração em decorrência do avanço tecnológico da macabra e nefanda indústria bélica mundial. Mas, a contextura do instinto perverso e cruel do gênero humano, alastra-se em maquinações capciosas e persistentes em negação ao bem agir e sentir, só que agora, mais burilado e individualizado, no entanto, não menos bárbaro e doentio.

A pessoa sai de casa e nunca tem a certeza se irá retornar. Hoje, não tememos mais só os bandidos, pois também, o homem comum e integrado socialmente, assassina e agride por qualquer futilidade, e quando ele próprio não mata, garantido na impunidade quase generalizada, paga a um pistoleiro para matar e fazer “justiça” em seu lugar. A morte de um cara comum como eu, pode ser contratada por três salários mínimos. Pode uma coisa dessas?

É uma discussão no trânsito, um esbarrão, uma transação comercial mal sucedida, um bate boca entre vizinhos, a perda de uma mulher para o outro, preconceito e, etc. A tolerância das pessoas está em seu limiar, pois que, parecemos sempre aptos a mostrar aos outros, que somos muito mais “machos” que eles.

Os códigos penais vigentes, elaborados, direcionados e congregados a protegerem os privilegiados pelo poder, em suas mais diversas instâncias, mostram-se absolutamente ineficazes a coibirem os excessos. Os maus e mercenários advogados, a cada dia mais habilidosos e usando com mais eficácia as brechas e omissões existentes nas leis, a fim, de livrarem da justiça todos aqueles, que possam lhes pagar os melhores honorários, independente de sua culpabilidade, são os mais enfáticos corroboradores e incentivadores da irresponsabilidade e conseqüente avanço da violência. Assim como também, as instituições públicas, de maneira especial o aparelho policial e o poder judiciário, representados por suas chamadas “bandas podres”, cada vez mais corrompidas e corruptoras.

Felizmente e providencialmente, os engenhos de corregedorias das polícias e da justiça, estão cada dia mais zelosos, atentos e atuantes, contra essas minorias de maus serventuários de seus respectivos quadros.
Em resumo, não há ainda nesse nosso país, sempre tão saqueado e aviltado por seus colonizadores antigos e modernos, um sentimento de moralidade e de direitos individuais da pessoa, daí essa anarquia pluralizada e consubstanciada, muito bem retratada naquela frase do ex-jogador de futebol Gérson, em um comercial de TV bastante antigo: “Eu gosto de levar vantagem em tudo”.

Hoje em dia, já não existem “malandros”, pois o crime organizado (narcotráfico) tomou conta de todo o espaço da marginalidade, apelidada por raia pequena. A navalha e o calibre 38 usados pela malandragem antiga saíram de cena. Atualmente, são os fuzis, as metralhadoras, granadas e as pistolas automáticas, que imperam nesse atual império do medo. Eles matam qualquer um: Dos seus colaboradores e adversários aos comuns, não livram a cara nem mesmo das autoridades constituídas.
Seriam eles corajosos… Destemidos?

Qual nada. Simplesmente, quando partem para suas empreitadas delituosas, esses desalmados já vão totalmente “cheirados” (drogados), e com isso, insensibilizados a qualquer sentimento de bom senso ou censura. Corajosos e destemidos são os policiais, que encaram esses bandidos de cara limpa e geralmente no território deles. Bandido só dá uma de corajoso e troca tiro com a polícia quando está de cabeça feita, se tiverem careta, não resistem à investida policial e quase sempre são presos em baixo das camas (mijados e cagados).

Fundamentado no exposto em tela, o cidadão comum e pacífico se arma para se sentir mais seguro, e aí passa ele a engrossar as fileiras dos chamados machões, se tornando em verdade, apenas mais um agente de insegurança para o todo social.

Eu particularmente, já fui um desses covardes que para se sentir mais homem precisava estar armado. Por longos anos eu trabalhei como segurança particular, sendo, que com isso, introjetei que a arma de fogo para mim, era apenas uma ferramenta de trabalho, porém, mesmo fora do trabalho eu a mantinha sempre comigo em fúnebre parceria.
O negócio era tão latente, digo, essa execrável dependência e falsa segurança propiciada pela arma, que eu não conseguia ir a padaria a 100 metros de minha casa sem colocar uma pistola na cintura.
Há dezessete anos passados (1991), eu conheci um Ser muito legal e Ele começou a tocar o meu coração, através da Doutrina Espírita Cristã (também chamada por Kardecismo), e a partir daí, eu comecei a me desmascarar e a vislumbrar em mim, o estupendo bobalhão e covarde que eu sempre fora.

Com apenas algumas semanas em contato com o Evangelho de Amor do Cristo de Deus, e iniciando a tarefa de me amansar (reformar), decidi não mais me manter cativo ao medo e ao acobardamento. Fui até o terreno nos fundos de minha casa e lá cavei uma sepultura estreita e bem funda, depositando na mesma as duas pistolas 9 mm. que eu possuía, ficando com o prejuízo do dinheiro gasto para adquiri-las, mas com a paz de que elas nunca mais iriam ameaçar ou destruir um semelhante meu. Várias vezes nos dias posteriores a esse “funeral dos despojos de meu medo e inconseqüência”, voltava ao local daquela catacumba e com um regador pulverizava água em abundância sobre a mesma, para que o desgaste dos tais “engenhos do desatino” fosse o mais precipitado possível. Naquela época o estado não pagava (remunerava) para desarmar o cidadão.
O trabalho (profissão) que eu exercia, continuava a me obrigar ao contato com as armas, entretanto, a partir daí, somente com as armas de serviço e no desempenho deste. Resumindo, e baseado em mim, corroboro:
Quem anda armado, não tem munição de fé!

É muito difícil se manter ovelha, quando se vive num mundo, onde o homem insiste em ser lobo do próprio homem… Mas, com fé em Deus se consegue.

Em verdade, e definitivamente, o que nos falta e sempre faltou aos nossos antepassados, é o sentimento de Deus em nossos corações, e coragem, muita coragem, para não possuir uma arma, e com isso, se transformar em um forte aliado da fraqueza e do litígio. Por fim, o que nos falta também, e sobretudo, é a brandura e a candura das mulheres.

Entre ser um valentão armado e sair por aí dando tiro e porrada nos outros como no passado, ou ser apontado como uma mulherzinha, opto hoje, pelo segundo rótulo… aliás, alguém viu por aí a minha sainha?




Por Antônio Poeta, em 17/02/2009 - 09:18. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.

Comente!

Busca

Colunistas



BannerFans.com