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Sublime modelagem

A escultura, de todas as artes, é a que mais me fascina. Fico pasmo com o talento de determinadas pessoas de transformar pedra bruta, mármore, madeira, aço ou seja lá o material que for, em figuras. Algumas esculturas são tão perfeitas nos detalhes, que não me surpreenderia se saíssem andando e falando e acabassem por se transformar em gente como a gente.

Não acho nada exagerada, portanto, a exclamação de Michelangelo Buonarroti diante do Moisés, que acabara de esculpir. Gritou, no auge do entusiasmo, ciente de que havia produzido uma obra-prima: “Parla Moses!”. Eu teria feito o mesmo. Ou talvez teria sido, até mesmo, bem mais exagerado, diante de um feito artístico desse porte.

Notem a perfeição, por exemplo, do “O Pensador”, de Auguste Rodin. E não somente dele, mas de outras tantas esculturas, de milhares e milhares de artistas, desde a Grécia Antiga até os tempos atuais. Poderia passar horas citando escultores e mais escultores notáveis, do passado e do presente, e suas mágicas produções. Claro que se o fizesse, jamais deixaria de enfatizar o talento do nosso Aleijadinho, que trabalhou em condições físicas para lá de precárias e nos legou maravilhas, como os 12 profetas de Congonhas do Campo.

Conta a lenda (na verdade, a mitologia grega) que um desses artistas excepcionais esculpiu uma estátua tão perfeita, que esta findou por ganhar vida e ele se casou com tal criatura, que até lhe gerou um filho. Refiro-me, claro, a Pigmalião. Para quem não se lembra, ou não sabe (afinal, ninguém é obrigado a saber de tudo), esclareço que esse personagem lendário, além de exímio escultor, era rei: da ilha de Chipre.

Já havia produzido inúmeras obras, que se destacavam pela perfeição e riqueza de detalhes. Contudo, num certo dia, excedeu-se em perícia. Esculpiu a estátua do que considerava a “mulher ideal”, notadamente no aspecto estético. Era belíssima, toda simétrica, de beleza inigualável, como jamais fora vista naqueles tempos remotos. E ocorreu o que nem Pigmalião esperava: ele se apaixonou pela sua obra. Mas não se tratou de mera paixão de artista, mas de macho por uma fêmea ideal que na verdade não passava de mera imagem de pedra.

Esclareça-se que o rei de Chipre havia optado pelo celibato. Sua decisão, na verdade, era enfática crítica à atitude das mulheres da ilha, que o monarca considerava libertinas e malsãs e, portanto, condenáveis. A solidão, porém, começou a doer-lhe literalmente na carne. Ardia de desejos e não tinha como os saciar. Ademais, sem mulher, não tinha como gerar um herdeiro que lhe sucedesse no trono. Sua maior vontade, a que lhe tirava o sono e a alegria de viver, era a de que a figura que havia esculpido e que era, no seu parecer, o protótipo da companheira ideal, adquirisse vida.

Naqueles tempos, homens e deuses conviviam e não raro até se opunham uns aos outros, travando batalhas sem fim. Não foi o caso de Pigmalião. A deusa Afrodite, penalizada com a situação do monarca-escultor, resolveu fazer-lhe uma surpresa. E que surpresa! Deu vida à escultura, que recebeu o nome de Galatéia, com a qual ele se casou e que lhe gerou o tão sonhado herdeiro: Pafos. Em ficção é sempre assim. Invariavelmente, há um “happy end”. Todavia na vida…

O poeta romano Ovídio narrou, também, esse mito, que havia ouvido de um escravo grego, em versos marcantes, no livro “Metamorfoses”. O escritor e dramaturgo irlandês George Bernard Shaw, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1922, trouxe a história para os tempos modernos, com a peça “My Fair Lady”, adaptada como tema de vários musicais da Broadway, de Hollywood e de outros tantos centros teatrais mundo afora (inclusive, claro, no Brasil).

Em Psicologia, há, também, o chamado Efeito Pigmalião. Trata-se do ato de interpretar a realidade não como ela é, mas de acordo com as nossas expectativas e desejos. É, pois, uma forma, até bastante comum e corriqueira, de alienação.

Se admiro e invejo a maneira literal de esculpir objetos e seres, tenho maior admiração e inveja, ainda, da figurada. O escritor Victor Hugo – poeta notável e romancista de primeiríssima linha – expressa, com maior precisão, o que quero dizer. Escreveu, em certa ocasião: “Modelar uma estátua e dar-lhe vida é belo; modelar uma inteligência e dar-lhe verdade é sublime”. E não é?!

Prometo, oportunamente, voltar ao tema e tratar dessa fundamental modelagem. O educador, paciente e sábio, é, de fato, exímio escultor. Mais do que isso, é sublime. Esculpe não figuras de pedra, madeira ou aço, inanimadas e frias, mas molda personalidades, talentos e vidas. A ele, pois, rendo a minha admiração, meu agradecimento e minha eterna e humilde reverência.

*Pedro J. Bondaczuk é jornalista e escritor, autor dos livros “Por uma nova utopia”, “Cronos e Narciso” e “O país da luz”.

E-mail: pedrojbk@bestway.com.br

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