Sou salgueirense sim, e daí?
A verdadeira história de uma carioca que provou a paixão à primeira vista
Desde menina, minha mãe providenciava uma bela fantasia, íamos a Avenida Presidente Vargas ver os blocos, as arrumações, decorações, mas nada passava das 19h, a pura brincadeira sem fim, de repente virava pra mim um verdadeiro horror por causa dos Bate bola com suas fantasias monstruosas sempre assustadoras, e o barulho daquela bexiga ao tocar o solo, era como um prédio desabando. Ah! Sejamos honestos(a) toda criança tinha medo.
Delicioso eram os bailes de matinê, fantástico, uma fantasia mais bela que a outra, e, eu sempre muito bem trajada. Valendo uma lembrança, para mim os momentos mais mágicos – Festa Junina e Carnaval – Natal era muito bom até os presentes, mas como sempre, meia noite eu já estava dormindo perdia o melhor da festa, ganhar o presente, sempre era no dia seguinte.
Carnaval de 1969 eu me lembro como se fosse hoje, com apenas 05 anos, vestida de melindrosa apoiada nos ombros de meu pai, ouvi duas músicas que adoro até hoje, a primeira de Zé Kéti em: “A voz do morro”
Eu sou o samba
Sou natural daqui do Rio de Janeiro
Sou eu que levo a alegria para milhões de corações brasileiros.
E a seguir:
“Negra baiana, tabuleiro de quindim, todo dia ela está na igreja do Bonfim. – na ladeira tem – tem capoiera – zum zum zum – zum zum zum – capoeira mata um” Era o SALGUEIRO DESFILANDO.
Como sempre nunca aceitei NÃO como resposta, ficava a espreita vendo o meu pai se arrumar para o que ele dizia refrescar a cabeça com amigos, e sempre saia de minha boca a mesma pergunta como é refrescar a cabeça, ele então sussurrava em meus ouvidos _ ouvir um bom samba_ e claro logo eu disparava a pergunta – Posso ir, e imediata resposta, quando você tiver a idade certa vou levá-la, e como toda criança contrariada, logo respondia com ar de rebeldia porquê não: por que você é muito nova e o samba tem regras próprias.
Copa do Mundo de 1970 – Brasil campeão – meu pai era pura alegria, as ruas tomadas com as cores de nossa bandeira, euforia total, do nada ele me diz: Vem hoje é um dia especial para todos os brasileiros. Minha mãe incrédula relutou: Você não vai levar a menina para suas farras, não mesmo. Eu já estava com total obediência sentada confortável dentro do magnífico Landau, e para minha eterna felicidade o meu pai não ouviu a minha mãe, entrou rapidamente no carro e rumo ao dia mais inesquecível de minha vida. Fui oficialmente apresentada ao Samba, a roda de Samba, e claro ao meu SALGUEIRO.
Passei uma semana ouvindo o repicar dos tamborins, dos chocalhos, do surdo, foi assim, o samba entrou em minhas veias misturando-se ao meu sangue.
A partir daquele dia, eu também acompanhava o meu pai para refrescar a cabeça, ele percorria muitas escolas de samba como se fosse um ritual religioso, a cada saída encontrávamos sempre com pessoas humildes de classes menos abastadas, bem humoradas e engraçadas.
Ah! E os barracões, nossa eu ficava horas a admirar, mas não tenho lembrança de ter acompanhado o meu pai a nenhuma igreja, mas minha mãe sim. Ai! Como eu odiava os dias de domingo às seis da manhã, eu sempre sonolenta ouvia a minha mãe reclamar com meu pai: Você a leva para o inferno e eu e que tenho que prestar contas com Deus. Na igreja eu nem me dava conta de que o banco era de madeira, precisa dormir, e como tudo tem um preço, fui obrigada a fazer catecismo, primeira comunhão, e……..
De lá pra cá minha admiração pelo samba só cresceu. Não toco nenhum instrumento. Não tenho a pretensão de ser uma pesquisadora no assunto, prefiro continuar sendo o que sempre fui amante do samba sem ter medo da quarta feira.
E sou como o meu SALGUEIRO – nem melhor, nem pior apenas diferente.
Com Carinho,
Denildes Palhano, Mulher, Carioca, Advogada, Escritora e claro, SALGUEIRENSE SIM E DAÍ???????
Por Denildes Palhano, em 29/12/2009 - 00:01. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.

























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