Sem filtro

Pía (Paz Bascuñán) está à beira de um colapso nervoso: Seu chefe a humilha, seu marido a ignora, seu enteado não a respeita, e seu melhor amigo não a ouve. Pía tem uma forte dor no peito e depois de tentar de tudo para curar ela decide se submeter a um tratamento de acupuntura. O médico chinês descobre que a dor de Pía é causada por sentimentos reprimidos e com uma técnica antiga que ele tira o filtro. A partir de agora, Pía não vai filtrar e perceber que a única maneira de curar é para dizer tudo o que ela pensa… que não vai trazer bons resultados.

O OLHAR DA PSICOLOGIA

A psicologia trabalha com o óbvio. Sim, aquilo que está bem na frente do nosso nariz, e que, por conta do nosso envolvimento emocional, não conseguimos enxergar. A comédia brinca com nosso cotidiano: as questões contemporâneas que nos assombram. SEM FILTRO é uma comédia irreverente que nos confronta com o ônus e bônus trazidos pelos avanços tecnológicos. Existe algo mais terapêutico do que a oportunidade de decortinar nosso ser? Quando o filme favorece a identificação do público, pode ser questionador, portanto, terapêutico.

Não falamos apenas das questões trazidas pela virtualidade de cada dia, pois o filme chileno também nos coloca na tela, quando inclui questões cotidianas comuns, como: os problemas de trânsito, de comportamento das operadoras de telemarketing, do funcionário “padrão”, da geração de adolescentes “sem noção”, da impessoalidade nas relações e das celebridades midiáticas. Tudo, sem esquecer da sedução de uma vida “perfeita”, idealizada, consumida e fácil de ser aceita como objetivo. Acomodar-se ao que é confortável, nos parece sinônimo de felicidade. Para quem não se satisfaz com a realização do sonho existe medicação. Estamos no século XXI! Tudo que está “bombando” na internet se torna prioridade.

O público se vê em cada conflito enfrentado por Pia, uma publicitária bem sucedida, que é responsável pelo marketing digital de uma agência. Seu trabalho sofre mudanças radicais, na tentativa de “acompanhar” os avanços da era digital. Como se não bastasse o ambiente profissional, que a elege a categoria de “ultrapassada”, Pia enfrenta diferentes problemas familiares e pessoais, que a levam a crises de ansiedade contínuas.

As relações sociais, familiares, afetivas são atravessadas por um universo virtual que contamina, paralisa, emburrece, sufoca. Pia é, literalmente, sufocada por cada acontecimento no decorrer da trama, que revela um dia “de cão” para a protagonista. Aos poucos, sua vida “perfeita” vai desmoronando, revelando sintomas que os medicamentos não dão conta de amenizar. Então, Pia recorre ao marketing “antiquado”, procurando um profissional indicado nos insistentes panfletos colocados em seu carro. Através de uma acupuntura, o profissional “orienta” revelando que seu problema é sufocar emoções (quem não?) e que sua intervenção irá favorecer sua liberdade de expressão. Assim sendo, Pia encontra incentivo para “vomitar” tudo que causava a dor em seu peito. Aí, começa a comédia, capaz de dar voz ao público, que encontra em algum momento realização dos seus desejos mais sombrios.

Difícil não se identificar com alguma questão apresentada no longa, que despretensiosamente nos convida a questionar diversos comportamentos sociais, aqueles que comprometem nossa qualidade de vida. É hilário, catártico, bem dosado, e, também “clichê”. Mas, a vida também não é? No final das contas, algo sobre a solidão acompanhada versus a solidão por opção se torna tema. Afinal, a crise existencial do ser humano não foca tal dilema? Fácil? Não. Mas viver não é “se equilibrar entre escolhas e consequências”, como diz Sartre? Não existe dose certa, mas se não arriscarmos, como descobrir a forma particular de ser? A comédia propõe diversão, certamente, mas não perde sua relevância quando evidencia o vazio das relações contemporâneas.

*Patrícia Simone de Araújo Santos é psicóloga e mora no Rio de Janeiro. Faz um excelente trabalho de terapia veiculada aos estereótipos do cinema. www.psicologiaecinema.com

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