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Ronald Reagan e a queda do comunismo

Livro mostra que Ronald Reagan foi fundamental para a queda do comunismo.

A Editora Record publicou, no fim do ano passado, o livro “Ronald Reagan — O Atentado, os Basti­dores e as Polêmicas de um dos Pre­sidentes Mais Populares dos EUA”, de autoria do jornalista americano Bill O’Reilly e do escritor, também americano, Martin Dugard. A discrição com que a imprensa tratou a publicação é explicável: o biografado, Ronald Reagan (1911-2004) foi um dos presidentes mais importantes dos EUA, que tem em seu ativo a façanha de ter vencido a” Guerra Fria” sem confronto físico, bombardeios, disparos ou mortes.

A única máquina que moveu, para derrotar a União Soviética, foi a pujança da economia americana, desvendando a falácia do vigor econômico soviético. Ao disparar a corrida tecnológica espacial que ficou com o nome de “Guerra nas Estrelas”, Reagan levou a URSS à falência, o muro de Berlim à queda — com toda sua simbologia —- e o comunismo à derrocada, em todo o mundo, embora seus seguidores nunca aceitassem essa verdade, como nunca aceitam os fatos que lhe são contrários.

Não é de se estranhar que marxistas e simpatizantes tenham ódio de Reagan, e que boicotem o livro. Não os culpemos. Tenhamos apenas pena deles. E deixemos claro que tentativas de ressureição da doutrina marxista, com novas roupagens (vide bolivarianismo) são tão somente novas experiências fadadas ao fracasso, capazes apenas de gerar mais sofrimento, perseguições, ditadura, corrupção e pobreza.

O livro não é propriamente uma biografia, mas um relato dos fatos principais da vida de Ronald Reagan, como artista de cinema com uma atuação apenas mediana, sua passagem pelo governo da Califórnia (dois mandatos) e o exercício da Presidência americana (também dois mandatos). Tem um foco, a meu ver um tanto destacado demais, para a tentativa de assassinato de Reagan pelo desequilibrado John Hinckley Junior, em 30 de março de 1981. Hinckley baleou gravemente Reagan na saída de um evento, em Washington. Queria chamar a atenção da atriz Jodie Foster, por quem estava doentiamente apaixonado.

Ronald Reagan chegou a Hollywood em 1937, disposto a se tornar ator de cinema. Vinha do interior dos EUA (Illinois), mas não era um caipira. Havia estudado economia e sociologia. Trabalhou no cinema por quase trinta anos, e, embora não se tornasse um astro de primeira grandeza, foi um intérprete razoável, que fez mais de cinquenta filmes, pelo menos três deles tidos como muito bons pela crítica e pela bilheteria (“Vitória Amarga”, de 1939; “Em Cada Coração um Pecado”, de 1942; “Os Assassinos”, de 1964, este baseado num conto de Hemingway). Nos três foi ótimo ator coadjuvante, mas ofuscado, respectivamente por Humphrey Bogart, Robert Cummings e Lee Marvin.

Em 1940, casou-se pela primeira vez, com a atriz Jane Wyman (ela, sim, estrela de primeira grandeza, detentora de um Oscar), de quem se divorciou em 1948. Casou-se em 1952 com Nancy Davis, que foi companheira inseparável até a morte. Reagan teve uma filha com Jane Wyman (Maureen, em 1941) e adotou Michael (em 1945). Com Nancy teve Patrícia, em 1952, uma rebelde que deu bastante trabalho aos pais (chegou a posar nua para a revista “Playboy”) e Ronald, em 1958.

Reagan tinha uma deficiência visual que inviabilizou sua mobilização para a Segunda Guerra Mundial, mas alistou-se para o serviço de retaguarda. Em 1946, finda a guerra, ainda não era claro que o comunismo não significava uma ascensão econômica e social para os trabalhadores nem que era na realidade a máscara para uma inevitável tirania, equivalente ao nazismo. Os comunistas pululavam nos EUA, e se apossavam dos sindicatos. Reagan, que nunca foi comunista, e mais e mais tomava conhecimento do que se passava na União Soviética, passou a combater os comunistas alojados no Sindicato de Atores e acabou por ser eleito seu presidente, em 1947. Foi sua iniciação política.

Na década de 1960, ele se convenceria de que sua carreira em Hollywood tinha pouco ou nenhum futuro, e se sentia atraído pela política. Era filiado ao Partido Republicano desde 1962, e vinha participando dos movimentos eleitorais, com entusiasmo. Esse sucesso levou-o a se eleger governador da Califórnia em 1966 e se reeleger em 1970. Tentou a candidatura presidencial em 1968 e em 1976, mas não foi vencedor das convenções.

Em 1980, enfim candidato, enfrentou um Jimmy Carter fraco, que tentava a reeleição. Nos últimos cinquênta anos, nenhum presidente americano deixara de ser reeleito, por mais fraco que fosse, mas Jimmy Carter estava no fundo poço. Nos últimos dias de seu governo ainda enfrentava uma vergonhosa captura de reféns americanos em Teerã, cinquênta e poucos funcionários da embaixada americana no Irã, que ele não tivera habilidade diplomática nem coragem guerreira para libertar. Reagan ganhou as eleições. E se reelegeu em 1984, derrotando Walter Mondale.

Ao final de seus dois mandatos, Ronald Reagan ficaria conhecido como um dos principais presidentes americanos, com estatura comparável à de Theodore Roosevelt e Franklin Roosevelt. Sua política econômica, a “Reaganomics”, foi um sucesso, após os fracassos deixados por Jimmy Carter. Reagan cortou impostos, diminuiu gastos públicos, criou dezesseis milhões de empregos e conseguiu um crescimento médio de 8% no PNB americano. Substituiu a diplomacia titubeante do antecessor por uma atitude firme frente ao mundo comunista, leal com os aliados e corajosa com os inimigos. Deu vigorosa lição em Fidel Castro, que engoliu caladinho a derrota, quando Reagan derrotou as tropas cubanas que ocupavam a ilha de Granada. Bombardeou a Líbia em represália a um atentado terrorista contra soldados americanos em Berlim. Sua aliança com Margaret Thatcher, que tinha o mesmo perfil e conseguiu no Reino Unido sucesso paralelo ao de Reagan nos EUA, ficou famosa, e se transformou em admiração mútua e sólida amizade.

Uma terceira personalidade que teve papel importante na derrocada do comunismo, o papa João Paulo II, teve também o respeito e a consideração de Reagan. A suspeita — quase convicção — de que a KGB estava envolvida na tentativa de assassinato do papa em 1981, contribuiu para tornar Reagan desconfiado e de certa forma hesitante no trato com Brezhnev, Andropov, Chernenko e até — inicialmente — com Mikhail Gorbachev. E é indiscutível que a personalidade de Reagan foi o fator principal na queda do muro de Berlim, fato simbólico da demonstração do fracasso socialista.

Há 30 anos, em 12 de junho de 1987, Reagan fez a célebre provocação a Gorbachev: “Derrube esse muro, sr. Gorbachev. Abra essa porta”. O muro cairia dois anos depois. Gorbachev é uma figura enorme, no cenário mundial, e muito mais, em uma sociedade comunista. Lúcido, não arrastou metade do mundo para uma irrealidade, como faz a maioria dos marxistas. Em seu período de comando, quase coincidente com o segundo mandato Reagan, retirou as tropas russas do Afeganistão, derrubou o muro de Berlim e promoveu a abertura democrática na União Soviética. Ganhou um merecido Nobel da Paz em 1990.

Reagan teve seus pecados, como todos os mortais. Mas foi um dos presidentes americanos que menos pecou. Seus pecados foram veniais, como o revelado no caso Irã-Contras, dos recursos desviados para os Contras, que combatiam os comunistas – sandinistas da Nicarágua, ou como a tolerância com a astrologia de Nancy Reagan interferindo em sua agenda.

Quando eleito, Reagan teve da imprensa mundial o mesmo tratamento que teve Donald Trump: foi classificado como apenas um ator incompetente que chegava ao cargo mais importante do planeta. Que nada entendia de economia, que poria em risco a paz mundial. Que estava fadado ao fracasso. Era só esperar para ver.

As manchetes dos jornais brasileiros, lidas hoje, são risíveis. Claudio Abramo, na “Folha de S. Paulo”, por exemplo, dizia: “Não posso realmente imaginar o que serão os Estados Unidos com Ronald Reagan. Em todo caso a ascensão desse herói postiço de westerns de segunda classe só pode ser explicada depois da gestão de Jimmy Carter”.

O contrário do que aconteceu com Barack Obama, oito anos atrás, antes que demonstrasse sua monumental incompetência. Tudo o que fazia, para a imprensa mundial era “histórico”. Reagan teve um diagnóstico de Alzheimer em 1994. Conviveu com a doença até 2004, quando morreu de suas complicações.

Fonte: Jornal OPÇÂO

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