Relaxe e seja gentil!
“Relaxe e seja gentil”, disse o Grão-Mestre Moy Yat, líder máximo da linhagem Moy, de Ving Tsun Kuen (Punhos da Canção em Louvor à Primavera), a uma platéia atônita, em um congresso de artes marciais, no ano de 1990, em São Paulo.
O espanto dos congressistas explica-se facilmente. O Ving Tsun Kuen é um sistema extremamente sofisticado de boxe chinês. Considerado uma das melhores formas de aplicação das artes marciais aos combates reais, é conhecido, em Hong Kong e na comunidade chinesa de Nova Iorque, como uma arte poderosa e rápida, boa para lutar e matar. Moy Yat, hoje falecido, via com desgosto essas definições. Para ele, o sistema pode ser realmente letal, mas é muito mais do que isto. “Ele é simples, gentil e tranqüilo”, dizia Moy.
A aparente contradição das palavras de Moy Yat pode nos esclarecer alguma coisa sobre este refinamento do espírito, que conhecemos e exercemos tão pouco: a gentileza. Normalmente compreendida como mero reflexo de educação esmerada, e freqüentemente confundida com fraqueza, ela é, em sua vocação mais profunda, manifestação de grandeza interior e maturidade consciencial. Na lógica do Ving Tsun, a violência é inversamente proporcional à eficácia. É gentilmente, portanto, que o boxeador do Ving Tsun resolve os conflitos. A verdadeira gentileza é aquela que existe no indivíduo como uma segunda natureza. Portanto, não é apenas nos momentos de paz e facilidade que ela pode dar o ar de sua graça. Aí pode prosperar também a falsa gentileza. Aquela letra morta, nascida como reles regra social, até certo ponto válida, mas, em essência, fria, vazia e sem vida.
Da mesma forma que o praticante do Ving Tsun resolve os conflitos com serenidade e combate relaxado e gentil — sua melhor vitória sendo quando ele não tem de lutar — nós mesmos, em nossa vida diária, podemos desenvolver mais a gentileza nos momentos difíceis, que é quando ela é realmente testada e pode demonstrar a sua autenticidade e sua real natureza. Ser gentil quando não apenas queremos agradar, ou conquistar, proteger, ou mesmo impressionar, mas nos momentos em que discordamos do outro, ou, de alguma outra forma, estamos em oposição e até em conflito em relação a ele, pode ser um sinal de que já conseguimos não apenas estar gentis, mas, sobretudo, ser gentis de coração.
Ser gentil, então — se considerarmos as sábias palavras de Moy Yat — é estar relaxado, descontraído e deixar o coração agir em direção ao outro, sob a égide da inteligência. Ser gentil, portanto, é ser inteligente, amoroso, mas, ao mesmo tempo, forte, determinado e, em algum nível, sábio. A gentileza é mais do que mera formalidade. É o amor verdadeiro que fala. Sem comiseração, sem frágil sentimentalismo. Mas com o sopro de espírito, autêntico e transformador, que fala de alma a alma, diretamente, numa promessa, ou, pelo menos, no anúncio da possibilidade de um dia chegarmos a ser realmente humanos por inteiro.
*Marco Antonio Coutinho é escritor, mora no Rio de Janeiro e anima o blog “E por falar nisto…” (http://eporfalarnisto.blogspot.com). Suas crônicas são publicadas aqui com autorização expressa do autor..
Por Marco Antonio Coutinho, em 26/12/2009 - 00:03. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.


























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Marco Antonio !
Que prazer te reencontrar depois de tantos anos, desde que cheguei à Moy Yat Ving Tsun.
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Bons momentos de vida-kung fu nos aguardam!
Um forte abraço,
Julio Camacho