Reflexos da Europa
A crise por que atravessa a Europa tem muito mais importância para o Brasil do que os simples aspectos econômicos, que, por si só, já justificariam sérias preocupações. A União Europeia é fundamental para nosso comércio exterior. É a sede de algumas das maiores empresas multinacionais que operam no Brasil e seus bancos têm um relacionamento estreito com nossa economia. E, politicamente, o que acontece em Portugal e na Espanha, principalmente, tem um efeito psicológico muito grande na América Latina toda.
Não podemos deixar de considerar que nossa cultura tem forte presença europeia, como a miscigenação exemplar de nossa gente, herança bendita dos portugueses e tão bem avaliada por Gilberto Freyre. Também as bases do cristianismo que professamos vieram da Europa.
A União Europeia vive um momento delicado, hoje com forte intolerância de parte organizada da população, engrossada por imigrantes de outras origens e culturas, que não aceitam a realidade de que o mundo mudou, a competição é uma realidade, o domínio das tecnologias deixou de ser de maia dúzia de países mais desenvolvidos. É o momento de se conformar com a necessidade de ajustes por alguns poucos anos, para a retomada do progresso com bem-estar social dentro de um quadro compatível com os recursos disponíveis.
Não podem os países de referência para as Américas – incluindo os EUA e Canadá, com influência da Inglaterra e da França na sua formação – se limitarem a um destino turístico de cultura, pelos acervos artísticos de que dispõe, de gastronomia, de história, de arquitetura e design. Não devem pela ação irresponsável de baderneiros, de um lado, e governos omissos, de outro, assistirem a destruição de indústrias com tecnologia de vanguarda na pesquisa e eficiência, que se tornarão inviáveis com a demora nos ajustes necessários. O sacrifício exigido é inevitável, podendo apenas ser por algum tempo ou, se assim o quiserem, por longo período. Não existe mágica na economia contemporânea.
A Europa de exemplar cultura já perdeu, ao longo da história, oportunidades pelas guerras, pelas questões geopolíticas equivocadas, pelos 70 anos de comunismo, oprimindo uma parte de seus povos e gerando crises políticas e muita agitação nas democracias. O seu colapso eventual afetará a paz mundial, retirará do centro de decisões nações com conhecimento da formação do mundo como ele é, fazendo com que outras culturas, fortalecidas pelos recursos financeiros, venham buscar certa hegemonia ao passar a influenciar outros países, a começar pela nossa América Latina.
O mau exemplo que nos é oferecido deve ser observado. Endividamento público irresponsável, inchaço da máquina burocrática, distribuição de benefícios onerosos à produção e ao comércio, políticas migratórias levianas – na Espanha, 10% da população são de imigrantes e estes ainda receberam direitos políticos – e, por fim, déficit acumulado em proporções explosivas que desembocaram na atual crise. O Plano Real, no governo Itamar Franco, com a Lei de Responsabilidade Fiscal e o PROER a seguir, de certa maneira, tem ajudado o Brasil a uma situação de mais conforto. Mas existem pontos fracos em nossa economia e o momento da correção é este.
A continuidade de uma política econômica responsável passa a depender de como o governo e o Judiciário vão enfrentar esta onda de greves que está em curso. Temos pela frente setores estratégicos como o de energia e serviços bancários.
Devemos acompanhar o que se passa no velho mundo. Não podemos ter a pretensão de que não sofreremos reflexos, sejam, eles econômicos, políticos ou mesmo no respeito aos nossos princípios éticos, morais e de liberdade com dignidade.
*Aristóteles Drummond, jornalista, é vice-presidente da Associação Comercial do Rio de Janeiro.
Por Aristóteles Drummond, em 26/09/2011 - 00:03. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.


























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