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Quero de volta!

Houve um tempo de sonho em nossas vidas? Sim, houve. Por mais jovem alguém seja sempre terá algo a recordar, mesmo da recente infância, das brincadeiras que não se brincam mais, porque o celular roubou todas as imagens, todas as conversas ao vivo, toda a ventura, todo o… Paremos por aqui.

Para que criticar o celular, se dependemos tanto dele? Estamos aprisionados a um sistema irreversível. Algumas coisas ficariam totalmente esquisitas no contexto atual. Ah, senhora dona Sancha, coberta de ouro e prata! Se essa rua fosse minha, eu mandava ladrilhar. Para o meu amor passar.

Quero de volta a minha Piracicaba de antigamente, de pouco trânsito e muita beleza, um convívio maravilhoso entre as pessoas. Tudo evolui, as coisas mudam. Mas, hoje a Noiva aniversaria e celebro a cidade que amo de todo o meu coração.

Quero de volta, se possível, a barraquinha de doces que ficava parada na porta do Grupo Barão. O “baião” de coco queimado, que incendiava nossa alma e nossa alegria. O amendoim torrado, os bijus. Posso ver a face serena do vendedor, “seu” Guido, que povoa a saudade e a memória.

Era um tempo de realejos e serenatas, de pular corda e jogar bola na rua com os primos, até a lua nos mostrar a face primitiva de Deus. “Entra, menina e, antes de dormir, vai lavar o pé”. São dois, mas a ordem era “lavar o pé”. Para pular da cama na manhã seguinte, na ânsia bela de viver.

Minhas irmãs mais velhas ganhavam serenatas. Acordava achando que estava no céu de todos os céus, uma sensação sublime. A ganhadora da seresta acendendo a luz do terraço, meu pai apagando, e a briga deliciosa entre os dois. “Pai, é de bom tom acender a luz”. E as cordas plangentes do violão ressoavam pela noite infinita.

Os filmes bobinhos com Rock Hudson e Doris Day, a beleza de se arrumar para ir ao cinema! A expectativa do sábado e toda a sua magia encantadora. Os rapazes esperando a saída da sessão, as moças na paquera, o começo dos namoros.

Recordo o terraço florido da casa da infância. Os dois bancos de madeira, com pés de ferro, cavalos bem firmes, suportando o peso das ripas nas extremidades. Ali nos reuníamos para conversar, para pegar as florinhas cor-de-rosa da trepadeira que fazia sombra na leitura. Passava um conhecido do meu pai e a pessoa fazia menção de tirar levemente o chapéu da cabeça. “Tarde!”.

Aqui nasci, cresci e jamais saí desta pequena cidade maravilhosa. Piracicaba que eu adoro tanto!

(Primeiro de agosto, aniversário de Piracicaba – 250 anos)

*Marisa Bueloni mora em Piracicaba, SP. Formada em Pedagogia e Orientação Educacional. É membro da Academia Piracicabana de Letras – marisabueloni@ig.com.br

Comentários

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Comentários

  1. João Guilherme disse:

    Hoje nós vivemos em outro Brasil. Hoje você sai e não sabe se vai voltar vivo para casa. Eu também tenho muita saudades da minha juventude, quando chegava o domingo, eu ia para as domingueira no clube do bairro, dançava a manhã toda sem problema nenhum, hoje infelizmente você não pode fazer mais isto.

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