Que reforma é essa?

Por em 04/03/2009


Em vigor deste janeiro deste ano, o novo acordo ortográfico adotado por Brasil, Portugal, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste está longe de ser uma unanimidade. Enquanto o gramático e imortal Evanildo Bechara acredita que não há desvantagem na unificação do idioma, o filósofo e escritor Hélio Schwartsman e o escritor angolano Ndumduma Wé Lépi (em artigos publicados na Folha de São Paulo) criticam a iniciativa, que consideram estúpida e inútil. Aprovado em outubro de 1990 em Lisboa pela Academia Brasileira de Letras, pela Academia das Ciências de Lisboa e pelas delegações dos outros seis países da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), o novo acordo propunha a adoção de um vocabulário ortográfico comum da língua portuguesa, o que constituiria um passo importante para a defesa da unidade essencial da língua portuguesa e para o seu prestígio internacional.

Para Bechara, essas alterações no português não representam uma dificuldade para as pessoas cultas. Pelo contrário. Devem diminuir a distância entre os países e facilitar o intercâmbio cultural. Para exemplificar, ele cita que foram devolvidos 500 livros enviados a Angola em 2007, pois estavam com a grafia brasileira e dificultavam a compreensão das palavras a que eles estavam acostumados. Já Schwartsman classificou como estúpida a reforma e acrescentou que ela faz sentido apenas para alguns parlamentares e gramáticos.

O escritor angolano vai mais além e diz que é a favor de acordos, mas acordos que sejam voltados para um ponto crucial: invadir de livros mais baratos as estantes desses povos tão carentes de leitura. Surge, então, uma questão: será que o povo brasileiro será beneficiado com a reforma ortográfica? Será que tornar os livros mais baratos e mais acessíveis à população não deveria ser a meta número um de países em desenvolvimento como o nosso? É deste tipo de reforma que o povo brasileiro precisa? Ou, por outra, o novo acordo ortográfico resultará na formação de novos leitores ou na diminuição do analfabetismo?

Ao que tudo indica, abre-se uma brecha para que se pense na real condição do leitor brasileiro e da posição que almeja a língua portuguesa em um futuro não tão distante, levando-se em consideração que, segundo a ONU, é a quinta língua mais falada do mundo, atingindo cerca de 250 milhões de pessoas.


(*) Luciana Mendina é Bacharel em jornalismo pela PUC/RS. Passagem pelos jornais Jornal do Commercio (RJ), Jornal do Brasil (RJ), Folha de São Paulo (RJ) e TV Bandeirantes (SP). Atuou durante quatro anos como assessora de imprensa e fez especialização em Marketing na ESPM (RS). Mora atualmente em Porto Alegre, Rio Grande do Sul.




Por Luciana Mendina, em 04/03/2009 - 03:07. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.

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