Procura-se
Inda ontem fiz faxina em minha vida.
A rolha de um tão guardado cabernet chileno foi quebrada pelo sacarrolha. Brindei a mim, foi-se o primeiro gole. Abri o armário dos anos e busquei, em cada prateleira, os planos não concretizados. Alguns amores não resolvidos saltaram da quina da gaveta. Novamente o amargo das lágrimas subiu pela garganta. Fiz um nó bem bolado com cada um deles, abri o saco plástico de cem litros e joguei dentro, bem ao fundo.
Foi quando meu braço esbarrou na caixa de fotografias. Infância, parentes, valores e descobertas se confundiram com adolescência. Em meio a amigos de escola, desaparecidos pelo traço da vida, momentos de desencontro comigo mesma desfilaram pelas sombras de versos amassados desprezados no auge dos hormônios. Destilando imagens, filtrei poucas gravuras, rasguei algumas paisagens e ateei fogo nos rostos indefinidos. Mais um tanto pro saco de cem litros.
Avistei os cabides com meus dias positivos e de glória, meus desejos irreais personificados perpetuando no espaço de um imenso rolo compressor de histórias, mentiras e verdades estudadas. Hoje, a maioria não me é mais necessária. Outros tantos valores escolhi e me esqueci de abrir espaço nessa caixa. Outros nós e mais calor das labaredas a consumir o que conquistei. Tornado pó, engolido pelo saco de cem litros.
Prateleiras de vidro vazias. Armei fogueira com meu conhecimento das artes, literatura, cinema, esporte e tudo o mais que com orgulho organizei e adquiri; nela vomitei a bílis de minhas noites de boemia e minhas solitárias manhãs de ressaca cultural. Minha mente ferveu e fedeu a soberba da hipocrisia social. Tudo pro saco.
Horas passadas, o cabernet está quase no fim. Ainda falta o pior: o hoje.
Cores cítricas para os amigos; tom pastel para família (ou o que restou dela); os de tom terra acolhem-se nas barreiras, dificuldades e projetos frustrados. Vista e viva, a magenta toma toda a forma de minha mente: restou-me somente o verbo amar. Sons, odores, sabores e cores. Banhei-me na fuccia dos orgasmos escondidos, aspirei todo o ar aparente, bati as portas do armário da minha vida. Deslizei as costas e sentei-me no chão, enquanto o cabernet era sorvido até a última gota. Então chorei toda minha infância pobre.
Mês passado fiz faxina em minha vida. Ao trancar o armário, esqueci a chave da memória dentro. Inda olho o saco de cem litros e recordo o quanto eu respiro pra me manter só.
(1º lugar 4º Concurso Literário Internacional Mulheres Escritoras – Casca/ RS – 2009)
*Fátima Venutti é paulista de Osasco (1965). Reside em Blumenau desde dezembro de 2002. Formada em Letras, escreve desde os 11 anos e possui textos premiados em diversos Concursos literários; co-autora e organizadora de antologias da Sociedade Escritores de Blumenau-SEB (presidente em 2007); membro da Academia Catarinense de Letras e Artes (ACLASC), ocupando a cadeira nº 11, cujo patrono é o poeta Lindolf Bell. Publicou Último Beijo – poesias (Ed. THS Arantes, 2007) e Terceiro Apito -contos e crônicas (Ed. Nova Letra, 2008), ambas as obras bilíngue (português/espanhol). No prelo: Estação Catarina: O Trem Passou Por Aqui (contos e crônicas) – Ed. Nova letra – Blumenau/ SC. Lançamento em março/2010.
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Por Fátima Venutti, em 25/10/2009 - 11:00. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.


























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Parabéns… Lindo texto, no qual você expressa de maneira sábia o passar do tempo, o embebedar do vinho da vida, que passa ligeira, nos arrastando, jogando para os cantos, nos empurrando para a ribalta.
Eta vida danada, meu Deus! Quem guenta? Viver é ser forçado a ser o que não se é e a não ser o que se é…
Parabéns!
Valdeck Almeida de Jesus
Escritor, Poeta e Jornalista
http://www.galinhapulando.com
Parabéns pelo belo texto, me identifiquei muito com o assunto e estou também passando por esta faxina no meu escritório que depois de muito anos de material acumulado de minha vida profissional, descobri uma veia artística na minha vida e que não havia tido tempo de expressá-la e nem consciência, embora convivesse desde a infância com uma mãe totalmente artística. O interessante foi que em toda a minha trajetória profissional longe do lado artístico, a única forma de respeitá-la era arquivando material. A faxina para mim, foi uma descoberta e talvez no momento certo!!
Maria Salete Graf
Assistente Social Aposentada.