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Prisão é o pesadelo de Renan Calheiros

Enquanto o senador peemedebista ataca o governo como estratégia política, pensando em sua situação complicada em Alagoas, onde sua reeleição está ameaçada, Michel Temer pensa no Brasil e luta para fazer as reformas necessárias.

José Renan Vasconcelos Calheiros é o pior que o Estado de Alagoas mandou para o Brasil. Trata-se do senador Renan Calheiros, uma das figuras mais nefastas da política brasileira, um homem enrolado em muitos casos de irregularidades, des­vio de recursos públicos, malversação de dinheiro do erário.

Se o articulista não perdeu a conta, Calheiros é alvo de nove inquéritos na Operação Lava Jato, por suspeita de ter recebido dinheiro desviado da Petrobrás, no monumental esquema que o PT montou para assaltar os cofres da petroleira, em benefício próprio e dos aliados, especialmente o PMDB e o PP.

O senador alagoano se tornou réu no final do ano passado, quando o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu abrir uma ação penal contra ele, pelo crime de peculato (desvio de dinheiro público). O terror de Renan é cair nas mãos do juiz Sergio Moro, se ficar sem mandato, o que pode ocorrer (informações mais abaixo).

Pois eis que esse “impoluto” homem público, que já presidiu o Congresso, atual líder do PMDB no Senado, aliado de todos os governos desde que se meteu na política, de repente se volta contra a administração de Michel Temer.

Não deixa de fazer sentido a prédica de que o nível de um contendor pode ser aquilatado também pelo valor de seus detratores. Se Renan Calheiros está atacando o governo de Michel Temer, é sinal de que este governo é bom para o Brasil, mesmo com todos os percalços políticos e alguns auxiliares pouco recomendáveis.

Será interessante saber as razões por que o senador alagoano está “batendo” no governo. Lembremos um pouco dessa briga.

No início da semana passada, em conversa com jornalistas, Calheiros disse que se continuar como está, “o governo vai cair para um lado e o PMDB para o outro”. Segundo ele, “o governo é temporário”, diferentemente da legenda, “que já prestou relevantes serviços para o país e vai continuar prestando”.

Renan quis ironizar ao dizer que com o governo do deputado cassado Eduardo Cunha ele já rompeu: “Vou aguardar o próximo”, fazendo referência a críticas anteriores a Temer, quando acusou o ex-presidente da Câmara, também do PMDB, hoje preso em Curitiba pela Operação Lava Jato, de mandar no governo.

O senador dos nove inquéritos voltou a criticar as principais medidas econômicas defendidas pelo governo. “O PMDB vai ter de patrocinar as reformas vindas do Planalto sem discutir? Se continuar assim, vai cair o governo para um lado e o PMDB para o outro. É uma questão política, não é pessoal.”

Ele considera que a votação da reforma da Previdência no Senado só deve ocorrer no segundo semestre. “Se chegar”, ponderou, considerando que a matéria não seja nem sequer aprovada na Câmara.

Renan imitou o estilo boboca de Lula, comparando a atual gestão com o período em que a seleção brasileira era treinada por Dunga. “O Brasil está cobrando que o governo parece mal escalado. O governo como está parece a seleção do Dunga. Queremos a seleção do Tite para dar a escalação do país”, comentou, referindo-se ao atual técnico.

Na terça-feira, 4, Renan organizou um jantar com a bancada do PMDB na casa da senadora Kátia Abreu (PMDB-TO – que foi aliada de Dilma Rousseff (PT) e votou contra o impeachment – em busca de apoio no embate que trava com o Palácio do Planalto. Segundo o “Estadão”, no jantar, Ca­lheiros afirmou: “Diziam que a [ex-presidente] Dil­ma [Rousseff] não tinha para onde ir, e o [presidente Michel] Temer não tem para onde ir”, disse aos aliados.

Pouco mais da metade da bancada peemedebista compareceu ao jantar. Alguns senadores teriam reclamado da pressão feita pelo Palácio do Planalto pela aprovação da reforma da Previdência. A avaliação é de que a cúpula do governo, o presidente Michel Temer e os ministros Eliseu Padilha (Casa Civil) e Moreira Franco (Secretaria-Geral) não “entende” a situação dos congressistas porque não “depende” do voto popular.

“Nenhum deles é candidato a nada e nas últimas eleições que disputaram perderam. Agora querem cobrar dos parlamentares. Estão pedindo o que não vão ganhar”, disse um peemedebista. “É terrível o que querem impor ao Congresso. O povo não quer [as reformas], e os congressistas vivem de voto. Estão propondo suicídio político”, avaliou o senador Roberto Requião (PMDB-PR), crítico do governo Temer.

O ex-senador José Sarney — um finório político da mesma estirpe do alagoano, só que bem mais velho, e, portanto, mais tinhoso ainda — teria reforçado o discurso de Renan, de que o governo tem que “dialogar mais”. Um típico ataque sarneyzista, melífluo, dissimulado: o que Sarney disse com is­so é que Temer deveria sa­tisfazer todas as necessidades dos mandarins peemedebistas.

Refrescando a memória: há quase um ano, o ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, disse em delação premiada que repassou pelo menos R$ 70 milhões em propina ao então presidente do Senado Federal, Renan Calheiros, ao ex-presidente José Sarney e ao senador Romero Jucá (PMDB-RR).

De volta. O tom crítico de Renan e Requião no jantar não foi unânime. Raimundo Lira (PMDB-PB) disse que esta é uma posição pessoal de Renan. “Não vejo nenhum grupo dentro do PMDB pensar dessa forma. Até porque a reforma [da Previdência] está cada dia mais tendo possibilidade de ser amenizada”, considerou.

Entre os senadores presentes, além de Renan, Kátia, Requião e Raimundo, compareceram o líder do governo no Senado, Romero Jucá (RR), Jader Barbalho (PA), Rose de Freitas (ES), Valdir Raupp (RO), Marta Suplicy (SP), Elmano Férrer (PI), Hélio José (DF), Dário Berger (SC) e Garibaldi Alves (RN). O presidente do Senado, Eunício de Oliveira (CE), não compareceu.

Consta que os ministros Hélder Barbalho (Integração Nacional) e Dyogo Oliveira (Planejamento) entraram mudos e saíram calados do jantar. Enquanto os senadores presentes desancavam Michel Temer, Henrique Meirelles, Eilseu Padilha e Moreira Franco, Oliveira e Barbalho faziam cara de paisagem. Estavam lá como olhos e ouvidos do presidente da República.

Mas, o que está motivando as críticas de Renan Calheiros ao governo que até poucos dias ele apoiava? Ao ponto de ele tentar induzir outros peemedebistas a embarcar nessa canoa?

Duas notas publicadas na coluna Radar online (Veja) na semana passada confirmam. Uma analisa que são cada vez mais evidentes os sinais de que Renan Calheiros perdeu prestígio e força no Senado, Casa que até outro dia ele comandava soberanamente.

“No mais recente revés, o líder do PMDB viu seu candidato à presidência da Comissão de Meio Ambiente, Helio José (PMDB-DF), sair derrotado na disputa com Davi Alcolumbre (DEM-AP), patrocinado por Ronaldo Caiado.”

A outra, cujo título é “Senador espalha pesquisa em que Renan aparece derrotado”, informa que o senador Benedito de Lira, adversário de Renan em Alagoas, começou a espalhar entre os colegas uma pesquisa em que o líder do PMDB aparece em quarto lugar na corrida para o Senado em 2018, ou seja, sem chances de reeleição.

“O mesmo material expõe ainda um cenário preocupante para o herdeiro do ex-presidente do Senado. Renan Filho está empatado com o prefeito de Alagoas, o tucano Rui Palmeira, na disputa pelo governo de Alagoas.”

Por aí se percebe que a súbita revolta de Renan Calheiros nada mais é que ardis para ganhar mais espaço no governo, abrigando aliados em postos estratégicos. Em segundo lugar, desespero com a situação política em seu Estado. Calheiros quer tornar Michel Temer seu refém, fazendo suas vontades e despejando recursos em Alagoas, de forma a viabilizar a reeleição do filho ao governo e a própria ao Senado, ambas em perigo.

Se ver que a reeleição ao Senado será inviável, Calheiros pode disputar vaga na Câmara Federal. Ele depende do foro no Supremo Tribunal Federal (STF) para não cair nas garras do juiz Sergio Moro. O que causa pesadelo a Renan Calheiros é sofrer o mesmo destino de Eduardo Cunha: a prisão.

“Renan sempre agiu assim”

Na quinta-feira, 6, em referência às críticas que o líder do PMDB no Senado vem fazendo, o presidente Michel Temer disse que Renan Calheiros “sempre agiu dessa maneira”. “Ele vai e volta”, comentou em entrevista ao programa “90 Minutos”, da Rádio Bandeirantes. “Então, eu estou tratando politicamente com muito cuidado até porque não posso, a todo momento, ficar brigando com quem não é presidente da República”.

“Eu não me sinto abandonado. Nós já propusemos coisas dificílimas no Congresso que teve aprovasse expressiva”, disse Temer lembrando as votações, obtidas na Câmara e no Senado, sobre o teto de gastos públicos. “Eu tenho tido apoio tanto da Câmara quanto do Senado Federal.”

Temer tem toda razão quando diz que Calheiros sempre agiu assim. Aconteceu o mesmo em 2015, quando a queda de Dilma Rousseff já raiava no horizonte, e ele ensaiou um oposicionismo por algumas semanas. Era blefe, apenas uma ação para acuar ainda mais a petista e conseguir emplacar mais cargos no governo federal.

O presidente Michel Temer também relativizou sua baixa popularidade – na pesquisa mais recente, do Ibope, só 10% dos brasileiros consideram seu governo ótimo ou bom. “Eu não tomo medidas populistas. Medidas populistas são aquelas irresponsáveis. Eu tomo medidas populares, medidas que demandam reconhecimento posterior. Temos que continuar fazendo as coisas que serão reconhecidas adiante”.

As críticas de Renan Calheiros incomodam sim. Afinal, trata-se de um dos caciques do Congresso, com influência sobre boa parte dos parlamentares, e pode ser uma grande ajuda na votação das reformas, que geram desgastes.

Temer já iniciou movimento de aproximação ao senador alagoano. Segundo a “Folha”, o presidente escalou parlamentares mais próximos ao líder do PMDB, como Romero Jucá (PMDB-RR) e Aécio Neves (PSDB-MG), para retomar a interlocução com o peemedebista e evitar o aumento da tensão na relação entre ambos.

Michel Temer nunca foi e não será a partir de agora adepto de abrir confronto com aliados. Ele que passar o recado a Calheiros de que as “portas estão sempre abertas” caso ele queira discutir as medidas governistas, entre elas a reforma previdenciária, talvez o alvo maior das críticas do senador.

A partir de agora, Renan Calheiros será monitorado de perto, até o envio da reforma previdenciária à Câmara. “A partir de então, a intenção é aumentar a ofensiva com a realização de um encontro entre Temer e Renan”, registra o jornal.

Fonte: Jornal OPÇÃO

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