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Pouco com Deus

Pouco com DeusAristóteles acreditava que “O homem sábio não procura o prazer, mas a ausência de dor”, não se desgasta para ter, se satisfaz em ser. Não existem luxo, opulência e poder que valham a perda da serenidade, portanto, o sábio rejeita sonhos fantásticos, metas ambiciosas, complicações fúteis que, uma vez alcançadas, despertam mais ambição, apetite, mais orgulho do que paz. O filósofo grego ainda sentenciou: “A felicidade é de quem é suficiente a si mesmo”.

O esforço tem que se voltar para dominar nosso inquieto interior, e a “fome de vento”. As fontes externas de felicidade e prazer por natureza são extremamente frágeis, perecíveis, sujeitas ao acaso e podem, mesmo nas melhores circunstâncias, ressecar repentinamente. O que era pó, mais cedo ou mais tarde, a pó voltará.

Na velhice, os prazeres comuns aos jovens costumam naturalmente se apagar, e se isso não acontecer o indivíduo se desorienta como o ex-atleta que quer continuar a disputar com os jovens. De certa forma perde-se o afã do amor carnal, mas adquire-se o prazer de um amor mais intenso. Desaparece a vontade de viajar para longe, de dançar, de participar da vida mundana, de vestir a moda, de ter cabelo comprido.

Envelhecendo, o indivíduo se liberta de muitas escravidões, simplifica sua existência. O raio de manobra se encurta, perdem-se parentes, amigos, tirados pela morte. Deixa-se para trás a necessidade de exibir. Os mais sábios entendem que vive bem quem bem se esconde, especialmente dos olhares invejosos, as baixezas humanas que são terrivelmente míseras e sórdidas.

DENTRO DE SI

Mais que qualquer fator externo, passa a ser importante o que o indivíduo encontra dentro de si, a fórmula de dominar e enjaular a futilidade e a inutilidade, quase sempre motivo de desgastes. Controlando-se interiormente, aumenta a capacidade de se harmonizar com as circunstâncias. A qualidade dos relacionamentos adquire mais valor do que sua quantidade. A felicidade passa a ser um fenômeno quase estático, menos grandioso e efusivo. A felicidade não precisa ser contada, basta ser sentida.

O mundo em volta pouco importa, valem mais a serenidade, a capacidade de desfrutar o momento de paz, um jardim, um fruto, um pequeno animal de estimação, até o mosquitinho que desponta do nada em volta da fruta madura, uma boa música, enfim, uma infinidade de pequenas coisas pode dar uma satisfação mais intensa do que uma palpitante viagem a bordo de um Bugatti ou um banquete repleto de iguarias e vinhos caros.

Passou nesses dias nos jornais mais um caso de corrupção tupiniquim com fiscais de São Paulo. Poucas novidades na escalada da lamentável realidade brasileira, prevista nesta coluna em decorrência dos péssimos exemplos dos governantes nacionais. Perdulários, demagogos, omissos, cúmplices da corrupção que ocorre sistematicamente na sala, servem de exemplo para os mais fracos.

A PODRIDÃO

Se os valores perseguidos e os métodos usados por quem está no comando são podres, inevitavelmente a podridão se alastrará e contaminará as camadas inferiores. Disseminar exemplos perversos gerará perversidade. Gandhi deu um exemplo de austeridade, de moderação, de intransigente honestidade, jejuou inúmeras vezes, mesmo como chefe de Estado viajava para a Europa na terceira classe do navio de rota comum, e deu impulso para a superação das imensas dificuldades do povo indiano. E nossos governantes?

Além das fórmulas sôfregas usadas para roubar, é interessante reparar como o butim é empregado. Desde aquele juiz Lalau, com Ferrari e Lamborghini num esplêndido apartamento em Miami, joias e babaquices caras, não temos grandes novidades. Corruptos gastam com apartamentos de luxo, jantares que exibem vinhos selecionados, joias, frotas de motos e carros fantásticos. O corrupto sente uma perversa necessidade de “ter”. Ter coisas caras e raras – que certamente não fazem a felicidade –, até para esquecer que no quesito “ser” ele é uma falência total, pois se rebaixou a pilhar dinheiro que poderia ir para merendas escolares e remédios. É como ganhar um jogo se dopando ou trapaceando.

Parece que entre corruptos há uma absoluta descrença quando se diz que “pouco com Deus é melhor que muito com o diabo”.

Artigo publicado no site Tribuna da Internet

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