Por que o cristianismo?

Por em 01/11/2011


Desde o século dezenove as pesquisa sobre a origem do cristianismo ganharam corpo, especialmente na Alemanha com os jovens hegelianos, alunos do filósofo Hegel, entre os quais dois nomes em especial obtiveram notoriedade: Karl Marx e Friedrich Engels. O primeiro foi fundador da doutrina do socialismo científico e o segundo o seu principal colaborador. Porém havia um terceiro personagem chamado Bruno Bauer, filósofo, historiador e teólogo alemão que foi amigo dos dois. A honestidade intelectual deste teólogo levou-o a conclusões estarrecedoras na época. Estudando profundamente o Novo testamento, Bauer concluiu que o cristianismo surgiu mesmo no segundo século; não provinha diretamente do judaísmo; Jesus Cristo era um mito; o conteúdo do NT era mais grego do que judeu e, portanto, a versão oficial do cristianismo palestino no século um era uma história inventada.

No século vinte, historiadores marxistas da antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas se debruçaram sobre o assunto. No entanto, o desejo de Engels de identificar de alguma maneira o nascente socialismo científico com um cristianismo supostamente oriundo das classes sofredoras, influenciou ideologicamente aqueles historiadores. Eles criticavam outros que pensavam diferente, isto é, que tendiam às conclusões de Bauer e consideravam o cristianismo como procedente das classes altas e não como uma reação do povo escravo.

O acadêmico Viper publicou após a guerra dois livros; O Nascimento da literatura Cristã, em 1946, e Roma e o cristianismo primitivo, em 1956. [...] No segundo, R. Viper, desenvolvendo idéias de Bruno Bauer sobre a estreita ligação entre o cristianismo e a ideologia do antigo mundo grego-romano e partindo da data da composição de alguns escritos cristãos que ele mesmo, considera estes últimos condicionados à ideologia e ao estado de espírito dos meios dominantes no Império Romano, que conhecemos através das obras dos escritores latinos e gregos da Antiguidade.

[...] Este historiador não aceita a idéia de que o cristianismo nos seus começos fosse a religião dos oprimidos; considera que ele refletia, desde o nascimento, os interesses das classes possuidoras, sem poder explicar de que maneira a ideologia cristã pode aparecer de repente, quase que inteiramente elaborada. (LENTSMAN, 1963, p. 28 e 29)

Em resposta a Lentsman, eu diria que havia um volume de insatisfações particulares e antigas a que viria desembocar no cristianismo. Os sistemas de ataque e defesa são preparados antes. Por isso, aparentemente, a ideologia cristã surgiu, na história que contam dela, quase que inteiramente elaborada, como diz o historiador. Aqui no Brasil permanecemos um longo tempo sem acesso aos autores soviéticos porque eram considerados subversivos. Algumas dessas obras foram traduzidas para o francês e depois para o português e publicadas em Portugal. A contingência de uma circulação clandestina no meio acadêmico deixou o assunto fechado ou restrito a um grupo ideológico. Certa vez, conversando com uma vizinha de poltrona durante uma viagem, me declarei ateu. Ela olhou-me do alto da sua sabedoria com as sombra celhas crispadas e desferiu: eu também já fui marxista! Foi difícil esconder meu sorriso de sarcasmo. Eu nunca fui marxista ou outra coisa que seja, jamais permiti que pensassem por mim. Admito simpatias, nunca conversões, para mim, claro. É o meu temperamento. Minhas pesquisas já haviam se iniciado na ocasião, mas resolvi mudar de assunto. Nem me lembro como aquela conversa começou.

Congratulo-me com o bom trabalho dos historiadores soviéticos que em muito ultrapassaram, neste sentido, os historiadores do mundo capitalista. Todavia, dou-me ao luxo de observar de camarote as posturas ideológicas por não abrir mão da minha admiração pela história, porque ideologia alguma vale o que ela representa. Quando a gente sabe o que procura, os livros acabam contando.

[...] Apresentando o balanço das pesquisas procedidas nesse domínio pelos sábios soviéticos, e propondo a título preliminar novas soluções, Covalev sustenta que a questão da realidade histórica de Jesus não deve de modo algum figurar no primeiro plano da historiografia do cristianismo, e apela que todos os esforços sejam orientados em função do esclarecimento das causas materiais, sociais e econômicas da aparição da religião cristã. [...] (LENTSMAN, p. 29)

Concordo com S. Covalev (nome relevante da historiografia soviética), além do que a questão do Jesus “histórico”, para muitos de nós, já está resolvida. Aliás, há muito, Bruno Bauer havia colocado uma pá de cal sobre este Jesus. Infelizmente, as conclusões deste teólogo incomum acabaram esquecidas pelo antagonismo das duas correntes ideológicas: a proletária marxista e a capitalista cristã. É evidente que o cristianismo não surgiu de motivações filosóficas ou religiosas, é a economia quem manda no mundo. Outros fatores agregados ou decorrentes dela precisam ser iluminados adequadamente. Portanto, me propus averiguar esses fatores que trouxeram o cristianismo ao mundo real. Devo dizer que a minha percepção da realidade me aproximou intuitivamente mais das conclusões de Bauer do que das conclusões de Engels, mesmo antes de tomar conhecimento da existência dele. Ficou-me parecendo que a lenda cristã acabou ganhando sobrevida involuntariamente com o marxismo, que viu nesta lenda uma oportuna, mas enganosa, referência histórica.

As muitas faces da história

Seria ótimo se a história estivesse isenta de manipulações e interesses ocultos, mas infelizmente não está. Desde o século quatro a história vem sendo pressionada para testemunhar o que ela nunca viu – o advento de Jesus de Nazaré com a sua filosofia de salvação.

A humanidade teria então uma história comum e uma direção única: a vitória romana e a salvação cristã. A história da salvação romano-cristã reúne tempo e eternidade, história e Cristo. Foi uma idéia absolutamente nova, que nem os judeus haviam chegado a formular, obcecados com a idéia de “um povo eleito”. [...] Os eventos históricos eram manifestação de Deus, cuja vontade devia ser decifrada. O destino das nações, as lutas políticas se submetiam à vontade divina. Essa idéia nova criou uma história nova – a história universal. (REIS, 2003, p. 19)

A vitória do cristianismo continua sendo absurdamente tratada como um mistério, até para respaldar a pretensão sobrenatural, e muitos historiadores aceitam isso. Aqui vão alguns exemplos nos quais o favorecimento ideológico pretende intimidar os mais ingênuos e menos experimentados no assunto.

1. E eu próprio, numa polêmica contra um desses amadores que contestam, com uma certa facilidade, a existência de Jesus, me tinha proposto demonstrar que Descartes era também um mito todo ele criado pelos jesuítas de La Flèche, preocupados em fazer reclamo do seu colégio. (MARROU, s/d, 2a edição, p. 124)

2. Como o dedicado rei mártir espartano Agis, e o aristocrata mártir romano Tibério Graco, Jesus dedicara sua vida ao povo sem recorrer à força, nem mesmo para sua autodefesa. Mas ao contrário desses dois grandes espíritos representativos da ascendência helênica, Jesus era filho do proletariado – filho de um carpinteiro da aldeia do distrito da Galiléia, na Celessíria – e seu povo era a humanidade toda. (TOYNBEE, 1983, p. 200)

3. O principal alicerce da nova cultura foi a religião cristã, cujo fundador, Jesus de Nazaré, nasceu numa cidadezinha da Judéia por volta do começo da era cristã e foi executado cerca de trinta anos depois, no reinado de Tibério [...] Enquanto grande parte das outras religiões giravam em torno de figuras imaginárias, criaturas de lendas grotescas, o cristianismo possuía como fundador um indivíduo histórico, de personalidade bem definida. (BURNS, 1979, 1° volume, p. 256 e 259)

4. Jesus, cuja religião deveria revolucionar o mundo, viveu ignorado de quase todos os seus contemporâneos. A sua história é apenas conhecida através da segunda parte da Bíblia, o Novo Testamento, isto é, a “Nova Aliança”; nele se encontram, em particular, quatro narrações da vida de Jesus, chamadas Evangelhos: segundo São Mateus, São Marcos, São Lucas e São João. (ALBA, 1964, p.186)

5. [...] Contudo, há poucos historiadores modernos que discordam da afirmação de que Jesus de fato existiu. Histórias que foram escritas após a morte de Jesus (como as do historiador judeu Flávio Josefo, e dos historiadores romanos Tácito e Suetônio) contêm breves comentários sobre ele. Jesus não é um personagem de ficção. (GAARDER; HELLERN; NOTAKER, 2000, p. 153 e 154)

Como outros colegas já se dedicaram a demonstrar a falsidade destas afirmações, me satisfaço em dizer que o Jesus narrado pelos evangelhos não poderia ser apagado tão completamente da memória afetiva do próprio povo. Isto não existe! Enganar é possível pela repetição no ensino, pela eliminação de documentos etc., mas é impossível se eliminar as evidências históricas completamente. Os textos destes mesmos historiadores estão repletos de informações que facultaram e facultam outro entendimento.

A mentira é uma anomalia para a psique humana, tanto que possibilitou a invenção do polígrafo, o popular detector de mentiras. A luta interior não permite a perfeição no ato de se enganar com totalidade, do mesmo modo que as lembranças populares do “Jesus histórico” não poderiam ser apagadas pelos judeus contrários. Eles não teriam o poder de entrar de casa em casa numa vasta região, fazer busca e apreensão de escritos relacionados, proibirem as pessoas de se lembrarem dele e manifestarem tais recordações, e, principalmente, manter uma fiscalização eficiente para que as ordens fossem cumpridas. Que segredo não escapou da língua do povo? É ridículo demais.

O íntimo das pessoas estremece quando elas tentam enganar a si mesmas. Observe, por exemplo, que um debatedor ou interlocutor crente nunca se sente à vontade no debate histórico, logo apela para a filosofia ou desiste mesmo. A própria história é a maior prova disso.

Em reação a uma interpretação demasiado óbvia e ingenuamente histórica da Sagrada Escritura, preferiu-se um outro conceito da Bíblia que equivale a uma espécie de emigração para dentro, isto é, uma aplicação da Bíblia à própria pessoa, à fé intima do homem. Depois que se difundiu por toda parte o ceticismo histórico, baseado nas conclusões do método histórico-formal, fechou-se por completo a porta de acesso ao Jesus histórico e pós-pascal. [...] Gerhard Ebeling vê precisamente na continuidade o articulus stantis et cadentis Ecclesiae, isto é, o artigo do qual depende a Igreja ou sem o qual ela desaparece, quando diz: Se Jesus não existiu ou se a fé n’Ele fosse um equivoco dos que acreditaram no Jesus histórico, destruir-se-ia toda a base da fé cristã. (LÄPPLE, 1973, p. 13 e 14)

Professor Alfred Läplle, padre católico, intelectual alemão e amigo do papa Bento XVI.

Aliás, como já havia advertido os futuros historiadores, um dos mais respeitados especialistas no assunto e um cristão ardoroso, ilustríssimo professor Henri Irénée Marrou (1904-1977), da Sorbonne: O historiador não avança sozinho ao encontro do passado. Aborda-o como representante do seu grupo. (MARROU, s/d, 2a edição, p. 256) Porém, quem não pertence a grupo religioso algum, não tem com o que se preocupar. É bom dizer que no meio destes historiadores existem teólogos travestidos e teólogos que se licenciaram em história, pois teologia não é ciência. No entanto, a totalidade dos renomados historiadores ocidentais era mesmo cristã e já percebemos o porquê. Uma realidade que para a sorte da boa informação aos poucos está mudando.

A verdade histórica é a mais ideológica de todas as verdades científicas [...] Os termos de subjetivo e de objetivo já não significam nada de preciso desde o triunfo da consciência aberta [...]. A verdade histórica não é uma verdade subjetiva, mas sim uma verdade ideológica, ligada a um conhecimento partidário. (ARON cit. por Marrou, s/ data, p. 269)

Raymond Aron (1905-1983), importante sociólogo francês de origem judaica, estava coberto de razão quando afirmou isso. Os gregos são considerados os pais da história e quem já teve a oportunidade de ler alguns dos seus antigos historiadores pode bem entender. Houve um momento em que a história serviu mais como instrumento de consagração ao próprio povo, dos seus heróis e dos seus grandes feitos. Os historiadores helenísticos não se embaraçavam com escrúpulos: havia entre eles perigosos retóricos e amantes do falso patético, que também causaram vítimas em Roma. (AYMARD; AUBOYER, 1974, Tomo II, 1° volume, p. 239) A função propagandística doméstica era uma prática antiga e nada havia de imoral nela. Moral significa costume um dos costumes daquela época era esse, entre muitos. Vale lembrar que as conquistas de Alexandre mudaram os mais antigos e austeros costumes helênicos. Apesar do discutido Heródoto, Tucídides (460-400 a.e.c), por exemplo, foi impecável em Guerra do Peloponeso, da qual participou. O historiador judeu Flavio Josefo, que igualmente participou da guerra que narra, nem sequer faz sombra ao brilhantismo deste consagrado historiador grego.

Estudar o passado é atribuição especial da história, que é parte literatura e parte ciência; não é preciso dizer que os historiadores dessa época interessavam-se vivamente pelo passado, imediato ou remoto, dos próprios gregos e dos chamados “bárbaros”; também não ignoravam a história da sua própria época. Inúmeros autores, alguns dos quais participaram dos incidentes que descreveram, redigiram a história do reino de Alexandre. As monarquias helenísticas e as cidades gregas, individualmente, também tiveram seus historiógrafos.

[...] os livros entraram nas casas particulares e nas famílias, o que promoveu o comércio de livros e lançou os alicerces para os empreendimentos editoriais. A ubiqüidade dos livros na vida dos gregos helenísticos é claramente provada pelas descobertas de livros ou folhas esparsas nas casas particulares e nos túmulos dos gregos que nas cidades ou mesmo nas aldeias do Egito. (ROSTOVTZEFF, 1977, p. 295)

O período helenístico se inicia com as conquistas alexandrinas (século IV) e se encerra, segundo a história oficial, com o domínio romano (século II a.e.c.). Digo isto porque, para mim, o cristianismo é a vitória parcial do ideal universal helenístico. Segundo Plutarco (46-119), historiador grego do período romano que viveu em Roma, era vontade de Alexandre tornar a terra habitável sujeita à mesma razão e todos os homens cidadãos do mesmo governo. Uma única lei e um único governo para o mundo. Segundo Toynbee, houve uma disputa entre as religiões do período helenístico para ver qual seria a religião oficial desse novo mundo, na qual a religião persa de Ahúra-Mazda despontava como forte candidata.

Na confrontação da Grécia com o Oriente, provocada pela conquista de Alexandre, é difícil medir o que o Oriente forneceu à civilização helenística, por assim dizer, nada na literatura e na ciência, um pouco mais na arte e na filosofia, e quase tudo na religião. (LÉVÊQUE, 1967, p.160).

Era este o propósito do ideal universal helenístico, unificar tudo. A conclusão é que a despeito da antiga seriedade helênica, plantar histórias no passado tornou-se algo trivial no período helenístico com reflexos no período sob o domínio romano, no qual se situa o cristianismo. Desde o final do último século, aqueles gregos escravizados e em desgraça em Roma, ainda se nutriam do orgulho e das lembranças de um distante e glorioso passado, enquanto experimentavam aquilo que sempre submeteram a outros. Em momento algum da história os gregos abriram mão do serviço dos escravos.

Claro que não existiu uma divisão tão marcante e generalizada de estilos na literatura histórica grega, entretanto, um ambiente literário impressionista existiu nos primeiros séculos da era comum, alimentado pela influência religiosa oriental e a necessidade de escapismo. Procurava-se um efeito dramático capaz de comover o leitor nessa literatura impressionista. Havia o interesse de se infundir conceitos filosófico-religiosos para sensibilizar o tradicionalismo romano e estimular um sentimento de congregação entre os próprios escravos. O antigo individualismo grego de nada os servia naquela humilhante situação, pelo contrário. Precisavam mais do que nunca caminhar no sentido oposto. A legislação romana que regulava os escravos ainda guardava certa dureza da época da república. Se um escravo assassinasse o seu senhor, todos os servidores da casa deveriam ser executados juntos, devida a uma pressuposta cumplicidade. Entenda-se que muitos senhores abastados de Roma possuíam centenas de escravos, entre homens, mulheres, idosos e crianças. Aqueles escravos anatolianos em risco haviam sido senhores de escravos na terra natal. Lá, haviam deixado parentes e amigos solidários com a dor que os dilacerava.

A eloqüência agonizava em favor da retórica, que reduzia a receitas teóricas, artificialmente aplicadas a temas fictícios, o que fora constituído por pesquisas e achados de uma arte a serviço das convicções apaixonadas. [...] Tal era o inevitável preço da generalização de uma cultura média, ministrada pelo ensino e mal armada contra os efeitos brilhantes e fictícios, aptos a comover e seduzir. A partir do século III surgiria a eloqüência “asiática”, uma vez cheia de ênfase, outras segmentada, sempre artificial, seguindo o ritmo monótono da escansão das “cláusulas métricas”. Voltou mais tarde, na época do Império, à imitação dos grandes modelos clássicos. Mas conquistara antes a admiração dos romanos [...] Efetivamente, é quase um romance a obra de Evêmero, que imaginava uma região fabulosa onde se manifestara a lembrança da vida humana e real dos deuses gregos. Quase romances, também, são estas Maravilhas incríveis que transportaram o leitor para uma região em que as palavras gelam no inverno, ou os Hiperbóreos ou os Egipcíacos, todas obras mal conhecidas, de autores de segunda ordem, cujos títulos bastam para nos fornecer uma idéia da tendência dominante. Desprovidas talvez de intriga romanesca, desambientavam o leitor, mesclando ficção à realidade; especulavam sobre seu cansaço cotidiano e sobre seu desejo de evasão. (AYMARD; AUBOYER, Tomo I, segundo livro, 1958, p. 341 e 342)

Foi nesse ambiente literário que foram escritos os evangelhos como se livros históricos fossem. Certamente a “história” de Jesus de Nazaré foi plantada antes da guerra romano-judaica de 66-70/3, porque no final do conflito Jerusalém foi destruída e incendiada. Sendo assim, ficaria difícil se afirmar ou negar a sua existência. Fosse eu seu criador teria o cuidado de afastar o ministério de Jesus em algumas décadas do conflito (como foi feito) porque toda aquela região, incluindo a Síria, esteve convulsionada e alguma notícia sobre Jesus, caso ele tivesse existido proximamente a guerra, deveria ter aparecido. Três décadas dariam uma boa margem de segurança para se inventar desculpas. Como o historiador judeu Flávio Josefo não fez qualquer menção a Jesus, elas foram providenciadas posteriormente com interpolações no texto original. Quem fez pensou que estava ajudando, mas o efeito foi contrário.

Em República, Platão, no seu governo idealizado, ofereceu sem imaginar um princípio orientador para um novo conceito religioso de governo e de história; conceito que foi oportunamente posto em prática pelos gregos “modernos”. O neo-platonismo foi o grande inspirador dos alicerces do cristianismo, com Fílon de Alexandria, segundo Bauer. Para um governo universal só mesmo uma história universal: o governo tem o direito de mentir se o interesse público assim o exigir. Em particular, inculcará a “mentira real” que apresenta este admirável mundo novo como uma dádiva divina. Em duas gerações, isto passaria a ser acreditado sem protestos, pelo menos pela plebe. Só que o interesse não era público, mas impublicável. Muito mais do que duas gerações se passaram e até hoje a “mentira real” balança na corda bamba e muitos já pularam dela quando caíram em si.

Estudando, do ponto de vista da ciência histórica, o alcance de modificações políticas e culturais que o Cristianismo ocasionou, é certo que o historiador moderno pode, a rigor, reconhecer como legítima esta afirmação: O surgimento de Jesus de Nazaré deve ser considerado como uma curva decisiva da História. Ora, a afirmação teológica que está na base do sistema cronológico cristão ultrapassa de muito a constatação segundo a qual o Cristianismo trouxe mudanças históricas consideráveis. O que vai mais além, é que a Teologia afirma que a História, em seu conjunto, deve ser compreendida e julgada a partir desse acontecimento central. Constitui ele o sentido último e o critério de toda a História, tanto a que precedeu como a que segue. Esta pretensão histórica levantada em favor de curta atividade de um profeta galileu, que terminou supliciado sob um governador romano, está em flagrante contradição com o princípio mesmo da História, segundo a concebe o historiador moderno.

O cristianismo primitivo interessa-se realmente por uma série de eventos de uma natureza toda especial, sobrenatural, anteriores e posteriores ao ano 1 e que forma “a história bíblica”. Este todo orgânico, relacionado com o referido acontecimento central, recebe dele seu sentido e, por extensão, o sentido de toda História é iluminado por ele. Os primeiros cristãos pretendem lançar um julgamento sem apelo sobre os dados da história geral e sobre a totalidade dos acontecimentos do presente. A história “profana” deixa pois de ser, para os cristãos, profana.

Assim vemos que o problema da história bíblica apresenta-se como um problema teológico. De fato, esta história só adquire sentido ao aproximar, interpretar e ligar os acontecimentos à realidade história de Jesus, quando Jesus de Nazaré, realidade central da História, é reconhecido como a revelação absoluta de Deus aos homens. Sem este ato de fé, não somente não se pode dar valor normativo à história bíblica, mas esta última deve parecer necessariamente destituída de sentido. Inversamente mediante este ato de fé, não pode haver norma fora da história bíblica, designada desde então como história da revelação e da salvação. É sobre este ponto que aparece a relação estreita que existe entre a revelação cristã e a História; é aqui que reside, em última análise, o “caráter escandaloso” que a concepção do tempo e da história do cristianismo primitivo assume não somente para o historiador, mas para todo pensamento “moderno”, incluso o pensamento teológico. Deus revela-se de um modo todo especial no seio de uma história estritamente limitada, mas contínua, e nela opera, de um modo definitivo, a “salvação”. O pensador profano julga a História em nome de um princípio, de uma idéia filosófica, fora da história. O pensador cristão o faz em nome de um acontecimento particular, específico, Jesus. A norma de julgamento da História é também histórica.

Parte da síntese de parte do livro de Oscar Cullmann, Christ et le Temps (De la chaux e Niestlé S.A., Paris) síntese esta feita pelo Rev. Claude Labrunie.

A astúcia da impotência

Um homem pequeno e muito magro pode vencer outro muito alto e muito forte? Numa luta corporal não, mas pela astúcia sim. Alexandre Magno era de pequena estatura e seus exércitos inferiores em número aos exércitos persas. De longa data os gregos enfrentavam seus adversários orientais com inferioridade numérica e quase sempre os venciam. Claro que estou usando este subtítulo no sentido figurado e logo você vai entender o porquê.

Em continuidade ao projeto do pai, Filipe II, Alexandre, conseguiu dar um ponto final a ameaça militar e cultural do Império Persa. Com isso, acabou revolucionando o antigo e austero modo de vida do período clássico. Oportunidades inimagináveis surgiram na administração e no comércio dos países conquistados. No Egito, por exemplo, aos nativos sobravam funções que os gregos rejeitavam, e foi assim que a sua cultura ganhou o mundo e consolidou posições por mérito próprio. Com a consumação da queda do Império Persa, em 325, depois que uma espantosa quantidade de riqueza acumulada naquele tesouro foi transformada em moeda corrente, a cultura grega nunca mais seria a mesma, de quando viviam com simplicidade pelo aprimoramento humano, pelas artes, pelo bem-estar comum, pela administração pública e pela guerra.

Obedecendo à sua natureza especifica, a cidade-estado criava a vida social própria. O governo podia passar da mão de um só homem para as mãos de vários, mas quando as condições eram fundamentalmente simples e homogenias as diferenças entre os modos de vida e entre os modos de ver é provável que tenham sido mais em quantidade do que em qualidade, consoante a extensão e o poder das classes mais abastadas. Nenhuma cidade abrigava monarcas divinizados num isolamento misterioso nem mantinha sacerdotes cheios de privilégios numa casta abastada. A maior parte dos homens tinha interesses e objetivos comuns. [...] Estes homens tinham tendência para se comportarem uns para com os outros como iguais, porque todos tinham interesses e passados idênticos e, apesar da diferença de nível de vida, viviam duma maneira muito semelhante. Criados sempre em contato com recíproco e conhecendo as fraquezas e as manias dos vizinhos, desenvolviam muito a lealdade nas suas relações sociais. (BOWRA, 1977, p. 23)

O surgimento de uma burguesia rica, culta, influenciada pelo requinte e pelo luxo da administração persa e profundamente sugestionada com a troca de conhecimento com o Oriente, mudaria o antigo modo de vida deles. O Império Persa era a mais bem organizada, a mais populosa, a mais rica e conciliada estrutura política jamais erigida, compreendia a Pérsia territorial, a Ásia Central, a Ásia Menor, a Mesopotâmia, a Síria, a Palestina e o Egito. Nesse império luxuosíssimo um cerimonial severo aterrorizava os súditos e tornava religioso o acatamento do rei. O seu domínio era quase sobrenatural. Na sala de audiências, a “apadana”, um quadrado de 43,50m de lado, teto construído de toras de cedro sustentado por colunas de 1,60m de diâmetro e 20,00m de altura, tudo ricamente trabalhado e decorado com muitas cores, o rei tomava assento no seu maravilhoso trono com o brilho e a distância dos simples mortais como aquela representação exigia. Dessa maneira recebia os sátrapas (a administração persa era dividida em satrapias onde esses vice-reis dispunham igualmente de cortes luxuosas) vestidos com seus elegantíssimos trajes regionais, que se prostravam diante do trono antes da prestação de contas.

O poder econômico impressiona, corrompe e destrói qualquer modelo de sociedade. Algo semelhante aconteceria dos gregos para os romanos. Escavações arqueológicas descobriram, principalmente na Ásia Menor, nas cidades de Mileto, Priene e Delos, inúmeras residências que se destacavam do tipo simples de moradia do período clássico. Ainda que as habitações modestas predominassem, ao lado delas a “casa helenística” se sobressaía como um novo estilo de vida de uma burguesia desejosa de bem-estar, conforto e luxo, dispondo de meios para alegrar sua existência cotidiana (AYMARD; AUBOYER. 1958, tomo I, 2° livro, p. 302). É só uma constatação histórica, eu também gosto de uma vida boa.

Rei por vontade divina, mandatário dos deuses de todos seus súditos, Dario I só era responsável perante eles. Retomou dos faraós do Egito e dos reis da Babilônia a noção do poder monárquico identificado com a justiça. Apresentou-se como defensor dos fracos, representante da ordem e guardião dos bens.

Associou todos os povos do império ao seu governo e à sua administração. O babilônio e o aramaico se tornaram, ao lado do iraniano, as línguas oficiais do império. Em todas as satrapias do reino, os atos reais foram bilíngües, redigidos ao mesmo tempo na língua do país e num dos idiomas oficias. O iraniano, que não se escrevia, foi adaptado pelos escribas babilônios da chancelaria à escrita cuneiforme. Criaram-se escolas de escribas nas três capitais, Susa, Babilônia e Ecbátana, e na sede do governo de cada uma das vinte e duas satrapias, em que se dividiu administrativamente. Em cada uma das satrapias se instalaram um sátrapa, um chanceler encarregado de dirigir a polícia e um general comandante do exército; os três independiam um dos outros e dependiam diretamente do rei. Agentes reais itinerantes eram incumbidos de controlar-lhes a gestão. (PIRENNE, 1973, p. 51)

O expansionismo militar grego alargou as fronteiras trazendo consigo a própria cultura sem que alguma resistência cultural à altura os contivesse. Existiu uma Síria, um Egito, uma Babilônia, uma Índia grega e uma Pérsia grega. A rainha Cleópatra, cujo romance com o romano Júlio César ajudaria a mudar o mundo, era de origem grega e não egípcia. O sonho dela era transformar Cesário, fruto desse romance, no futuro Alexandre que governaria um mundo novo, com o apoio de romanos e egípcios. As conquistas alexandrinas propiciaram aos gregos um orgulho que eles ainda não haviam experimentado: ver a própria cultura mais vitoriosa ainda do que os próprios exércitos, vitoriosa sobre o mundo conhecido. A vitória do aprimoramento da mente indo além da vitória da estratégia, da coragem e da força do corpo. A vocação universalista da cultura helênica, que absorvia sem dificuldades o estrangeiro aclimatado, encontrou no período helenístico a possibilidade de expandir o ideal educacional da polis (cidade-estado) para o oikoumenê (as terras habitadas, origem do termo “ecumênico”). Não sem motivos, os gregos sentiram-se capacitados a liderar o progresso existencial da Humanidade. Todavia, grandes transformações se impunham nesse caminho.

Um aspecto contrastante entre a cultura dos gregos e a dos seus contemporâneos e eternos adversários persas se manifesta na atitude perante a lei. A autoridade do governante asiático se apoiava em leis consideradas divinas, entretanto os gregos sabiam que as leis eram feitas pelos homens e para os homens. Se uma lei estivesse em desacordo com a época, podia ser mudada por interesse e consenso comuns. No entanto, o verso dessa moeda era que diferentes cidades possuíam diferentes leis, e não existia um árbitro entre essas cidades que pudesse resolver legalmente e pacificamente as disputas. Não havia uma constituição que garantisse a estabilidade nacional nem um mecanismo para que fosse cumprida (RUSSEL, 1998, p. 54). Esse individualismo foi o grande entrave à unidade nacional dos Estados gregos, que facilitou sobremaneira os planos embrionários de unificação de Filipe II como o campeão do pan-helenismo. O modelo de governo persa impressionou ainda mais a Alexandre pela força do poder religioso, pois, reza a lenda que a sua mãe, Olímpia, para aborrecer o marido, Filipe II, dizia à criança que seu pai verdadeiro era Zeus. Dizem que o rapaz cresceu acreditando nisso.

A comparação entre o período clássico, o período helenístico e o período sob o domínio romano deixa pistas interessantes quanto à transformação gradativa na maneira de pensar e agir dos gregos ao longo da história. Existem comparações absolutamente inadequadas quando se referem ao pensamento grego sem situar o período. Geralmente, se toma o período clássico como exemplo na formulação de teorias que se aplicam a um período ou ações de gregos diferentes. Uma camuflagem à parte indesejável da história, para que nessa noite do conhecimento todos os gregos sejam pardos. Os atenienses eram diferentes dos gregos asiáticos e resistiram às transformações. O macedônio Alexandre deixou seus amigos inconformados com a sua capitulação à moda persa. Nem todo helenístico era grego e nem todo grego helenístico. Grosso modo, Atenas representava o conservadorismo helênico e as monarquias helenísticas o helenismo “moderno”. O historiador alemão Droysen, ao referir-se à cultura desenvolvida nas regiões conquistadas por Alexandre qualificou-as de helenísticas, para distingui-las da cultura original, ou helênica. A propósito, helenos era como os gregos se chamavam. Gregos, chamavam-nos os romanos.

Quando se compara a moral grega com a cristã verifica-se que há uma diferença radical entre ambas, mas que podem consagrar-se numa obra de plena realização humana. A moral grega baseia-se na noção de prépon, ou seja, um homem para ser um homem, e, portanto para viver como ser racional, tem o dever para consigo mesmo de ser belo aos próprios olhos e aos olhos dos outros, isto é, deve procurar alcançar um alto nível de vida moral que constitui a beleza por excelência.

A moral cristã baseia-se na noção de pecado, de ofensa ou falta contra Deus e que por Ele é punida, de modo que o temor de Deus, o temor do seu juízo e da sua punição, constitui a mola primordial dessa moral. Ora, podem conciliar-se perfeitamente os dois ideais, de forma que o objetivo natural e humano enaltecido pelos gregos seja coroado pela meta sobrenatural e pelo critério evangélico da moral cristã. (NUNES, 1978, p. 22)

Tudo isso para não dizer que a moral cristã também era grega. Constituída de elementos que faziam parte do volumoso acervo das antigas experiências helênicas, a dita moral cristã se distanciava da moral do período clássico apenas pelas implicações do tempo e dos rumos da história. Os gregos acumulavam conhecimentos que compunham o acervo moral da humanidade. A biblioteca de Alexandria foi o maior exemplo dessa vocação deles para a ciência, no sentido amplo do termo.

Durante o período clássico, depois que as tentativas de Dario I (521-486) e do seu sucessor Xerxes (486-465) falharam na intenção de estender o Império Persa até a Grécia continental, as relações entre persas e gregos conheceram um período amistoso. A influência persa sobre a política grega foi tão grande, que parecia serem os persas eram os vencedores. Muitos gregos sentiram-se atraídos pelas oportunidades de emprego naquele rico e fascinante império. Não foi pequeno o número de gregos que se engajaram no serviço militar e diplomático do Império Persa. Os gregos absorviam com facilidade conhecimentos novos por causa desse espírito aventureiro. Serviram de mercenários no Egito e absorveram muito de lá. A grega cidade de Tebas, que ousou testar o pulso de Alexandre, recebeu este nome da Tebas egípcia. Acumular experiências e conhecimentos era um hábito deles que se aprofundava por intermédio da tradição marinheira, papel importante nas suas colonizações. Vamos velejar um pouco.

Nos séculos VII e VI os gregos anatolianos não mostraram o mínimo constrangimento em aprender novos e mais requintados costumes com os seus vizinhos lídios. Nessa época, o papel principal da vida civilizada era desempenhado pelos gregos da Ásia Menor. As tradições do Império Hitita haviam sobrevivido nos reinos da Frígia, Lídia e Lícia, dos quais a Lídia estava mais próxima dos gregos. Foram os lídios os principais civilizadores dos helenos (ROSTOVTZEFF, 1977, p. 134, 135, 136). Foi na Ásia Menor, onde estavam em constante contato com o Oriente, que os gregos encontraram o caminho do progresso, remodelando o que recebiam e dando-lhe um caráter novo. Desconheciam tradições e regras inalteráveis, cada explicação não era mais do que o ponto de partida para novos questionamentos. (ROSTOVTZEFF, p. 121) Essa faceta do espírito grego os acompanha indefinidamente na História. O grego era poeta e artista, apto para imaginar fábulas e formas cheias de encanto, de graça e vida. Era sábio e filósofo, inclinado a levar até a extrema audácia a reflexão sobre o universo, sobre a natureza e sobre si mesmo. Repartia-se entre uma tendência racionalista, que o conduzia às mais ousadas negações, e uma tendência mística, que seu antigo e ininterrupto contato com o Oriente sempre alimentara, mas à qual a simbiose criada pela conquista de Alexandre atribuía vigor especial (AYMARD; AUBOYER, 1974, t. II, p.). Entendo este como um dos aspectos da maior importância na compreensão do perfil daquele povo extraordinário.

No inicio, os filósofos gregos não eram irreligiosos. Propuseram até versões novas de idéias tradicionais, pondo-as numa linguagem que todos pudessem compreender. Nisto foram absolutamente sinceros. Acreditavam que tinham alguma coisa a dizer, inspirada pelos deuses e que a sua missão era fazê-lo com a maior urgência e seriedade. Uma das exigências e uma das características desta missão era a procura da verdade através da investigação. A velha concepção que defendia serem os deuses os transmissores das verdades através de revelações, não foi totalmente banida, mas foi lentamente substituída pela convicção de que os homens podem chegar, por si só, à verdade. Não era necessário ser cientista para reconhecer que a verdade revelada nem sempre satisfaz em absoluto. (BOWRA, p. 256)

Entre os grupos gregos que colonizaram a Ásia Menor, predominavam os jônios. Sobre os demais grupos, tinham estes a vantagem de reunir as qualidades dos outros e uma notável variedade de aptidões, gostos e idéias, que tiveram no Oriente uma excelente oportunidade de florescimento. As cidades da Jônia, além de aprimorar a indústria e o comércio e estendê-los à Grécia continental e às demais colônias, produzia novas formas de arte e de pensamento (GIORDANI, 1972, p. 144). Mileto, como outras cidades da Jônia, passou por importante desenvolvimento econômico e político nos séculos VII e VI. Mantinha boas relações com a Lídia e o Egito, de onde também recebeu influências. A Lídia mantinha relações culturais com a Babilônia, que detinha conhecimentos avançados na matemática e na astronomia. Foi em Mileto, no século VI, que surgiram os primeiros filósofos, como Tales e Anaximandro. Anaximandro afirmava que todas as coisas provinham de uma única substância primária, que era infinita, eterna e sem idade. Havia um movimento eterno no qual se produziu a origem dos mundos. Estes foram evoluindo e constituindo a vida a partir da água. O homem e os outros animais provinham dos peixes. (PIRENNE, p. 51)

Na Ásia Menor entraram [os helenos] em contato com os descendentes de antigos colonos aqueanos e com populações indígenas. Uma fertilíssima fusão cultural e racial se processou então. Podemos avaliar a importância desse acontecimento pela frase de Glotz: Sem a Grécia da Ásia, terra de experiências fecundas, a Grécia da Europa não teria sido a Grécia. (GIORDANI, p. 104)

A influência religiosa e científica babilônica preocupava-se mais com a prosperidade neste mundo do que a felicidade no outro, se dedicava ao estudo das ciências dos deuses (verdadeiro significado do termo teologia), veio somar-se à influência egípcia de cunho místico e sapiencial. Sócrates e Platão foram uns dos que se influenciaram com a sabedoria egípcia e buscaram uma moral universal. Platão traduziu filosoficamente as concepções religiosas do Egito, onde Deus era a consciência do mundo (não um ser físico), e as idéias a verdadeira realidade.

O maior centro de magia do Egito era provavelmente a cidade santa de Heliópolis, a cidade do Sol (à altura do Cairo), onde se elaborava a mais antiga teologia. [...]. A maior parte dos sábios e dos filósofos gregos dirigiu-se a Heliópolis para lá receber comunicação de uma parte dessa ciência acumulada durante séculos. Foi ali, nomeadamente, que Platão tomou conhecimento da lenda da Atlântida que fez correr tanta tinta e cujo verdadeiro significado ainda hoje nos é desconhecido, e só pode ser deduzido dos textos egípcios. (JACQ, 2001, p. 19 – 20).

A concepção de um Deus único tem sua origem aí. O criador do monoteísmo foi o faraó Akenaton (Amen-hotep IV) que reinou de 1364 a 1347. Foi odiado por ter banido o culto aos deuses e os egípcios tentaram apagar seu nome da memória nacional. Instituiu o culto ao deus Aton, Aten ou Atum, uma divindade solar, e foi sacerdote em Heliópolis. As águas do Nilo inundavam as terras e o calor e a luz do Sol criava a vida em suas margens, propiciando a subsistência daquele povo. Pois, foi a partir do neo-platonismo que o filósofo judeu Filon de Alexandria aproximou o judaísmo das idéias gregas, não para criar objetivamente o cristianismo, como muitos chegaram a imaginar, mas numa tentativa de reduzir os atritos entre gregos e judeus em Alexandria; assunto que trataremos mais adiante.

Deuses do antigo Egito

A influência religiosa do Egito sobre os países mediterrâneos foi enorme entre o VI e o III séculos. Em toda parte, como no Egito, os cultos solares (que propendiam para o monoteísmo) e os cultos agrários (místicos) eram testemunhos da mesma tendência para se confundirem. Só os judeus escaparam a essa evolução mística, apesar do império que a literatura sapiencial egípcia exerceu sobre a Bíblia. A influência egípcia foi profunda também sobre os filósofos gregos da Jônia e até da Grande Grécia.

A crise do pensamento grego, que coincidiu com a crise da democracia grega no século V, afastou os filósofos gregos do espiritualismo egípcio, voltando-os para o atomismo e, portanto, para o materialismo e o ceticismo dos sofistas, de onde saiu o subjetivismo de Protágoras. Os sofistas, nessa época, fizeram triunfar a liberdade do pensamento e transportaram o exame dos problemas políticos e filosóficos para o plano universal. Sócrates, Eurípedes, Tucídides procuraram o universal na moral, na arte dramática e na história.

Esse universalismo, que então se sobrelevava na elite intelectual de Atenas, antecipava-se à opinião da massa do povo. Um abismo separava o racionalismo das classes cultas do misticismo das classes populares. Coube a Platão aproximar os dois pólos da civilização grega, reunindo, na mesma síntese, as conclusões do pensamento religioso do Egito e as do materialismo, e até do materialismo grego.

Encontrando na teologia egípcia a sua metafísica idealista, que encara Deus como consciência do mundo e faz das idéias a verdadeira realidade, Platão construiu a “teoria das idéias”, identificou Deus com o conhecimento, o bem e a vida, e fez da bondade divina a transição entre Deus – realidade suprema – e o mundo criado em que ela se exprime. Platão aproveitou igualmente a concepção egípcia da criação e da alma. Concebendo a vida do além como o retorno da alma a Deus, e a moral como prática da harmonia, isto é, da justiça, Platão não fazia outra coisa senão traduzir de forma filosófica as idéias religiosas do Egito. Mas à mística egípcia ele adaptou o atomismo grego para explicar a natureza da matéria.

A sua visão do mundo lhe permite conciliar a mística com a razão, isto é, com a ciência, e com a moral, isto é, com a ação. Platão, cujas idéias políticas, de fato, não refletiam mais do que as concepções nacionalistas caducas das cidades gregas, realizava, em compensação, no terreno da filosofia, uma síntese de todo o pensamento antigo. Exprimindo-a no idioma internacional do tempo, colocou-a ao alcance de todos, preparando assim o impulso da civilização comum dos povos mediterrâneos na civilização helenística, que conquistaria o império que Alexandre estava prestes a reunir. (PIRENNE, p. 66 e 67).

Trazendo o nosso veleiro de volta à Ásia Menor; diferente das cidades litorâneas gregas, onde a cultura, a indústria e o comércio se desenvolviam vigorosamente, no interior, sobre vastos planaltos que se estendiam até o começo da Ásia central, outra realidade se ligava ao mundo helênico pelas estradas. Lá não havia cidades ricas e populosas, mas imensas florestas, campinas cobertas de linho e trigo, pastagens e rebanhos. Eram os domínios das antigas monarquias, apartados do desejo do saber e das demais influencias da vida urbana. Hordas de gauleses imigrados no terceiro século e uma mistura de frígios e celtas acercavam-se de raças bárbaras, rudes, incapazes de iniciativa, prontas a servir como escravas ou tomarem armas por ordem do soberano, venerando seus sacerdotes e deuses. Uma mentalidade despida de qualquer espírito político e cultura intelectual, entregue a um misticismo grosseiro. (FERRERO, P. 141)

Se nas cidades gregas haviam vagas a preencher, devido à avareza própria da população urbana, ou se havia necessidade de braços, eram estes fornecidos pela Frigia, Lídia, o vasto reinado do Ponto e a Capadócia; os camponeses dessas regiões não julgavam nem cruel nem vergonhoso ter filhos e vendê-los aos mercadores de escravos, os quais os levavam para as cidades industriais que lutavam com a falta de homens. (FERRERO, P. 143)

O culto da Deusa-Mãe, Didimene, conhecida também como Cibele, era uma religião muito antiga, baseada no mistério da procriação. Os sacerdotes desse culto submetiam as raças bárbaras em proveito próprio com a prática da prostituição sagrada oferecida às mulheres, que deveriam deixar os honorários dos seus serviços para o templo, ficando, assim, sob a proteção divina. Ao mesmo tempo, exploravam o ascetismo e a castração. Havia um corpo de sacerdotes eunucos que convidavam para as festas sangrentas todos aqueles que estivessem dispostos a sacrificar a própria virilidade em honra à Deusa. Essa imensa diversidade de costumes e religiões da Ásia Menor incentivava um esforço obscuro, mas intenso, de unificação e síntese. Havia uma troca permanente entre as cidades gregas mediterrâneas e as monarquias do planalto. Pelas estradas que levavam à Pérsia, as matérias primas como o linho, as peles, lãs, madeiras, minerais chegavam ao destino, onde eram transformadas em produtos, e retornavam como mantas, peças de mobiliário etc. As cortes dessas monarquias haviam adotado as modas gregas. (FERRERO, P. 142)

O helenismo da Ásia havia perdido uma boa parte do seu espírito político e se deixara impregnar pelo espírito religioso local, em detrimento das antigas convicções, que já não se prestavam a essa realidade promissora. A plebe obreira necessitava da sua religiosidade nativa; os gregos do trabalho dela. Em vista disso, as altas classes compostas por ricos negociantes não se importaram de trocar o antigo civismo pelo enriquecimento dos cultos indígenas, consagrando aos deuses parte do tempo que deveriam consagrar ao Estado. Acolheram os deuses indígenas nos seus suntuosos templos, prestigiando a cultura dos peões da indústria e do comércio, e suas festas freqüentes assumiram um lugar de destaque na vida pública e particular dos gregos asiáticos (FERRERO, P. 144) O não comparecimento a uma procissão era severamente repreendido. Não por demonstrar pouca devoção ao divino, mas pelo fato de se furtar com a obrigação para com os interesses da sociedade a qual pertencia. O termo “idiota” significa aquele que só se preocupa com os próprios interesses. Como tinham um comércio muito intenso, os interesses das cidades gregas da Ásia Menor iam muito além dos seus territórios. A ordem, a paz e a tranqüilidade eram fundamentais nesse processo que o helenismo escolhera para cumprir seu plano de dominação econômica e intelectual sobre os outros povos. Depois das conquistas de Alexandre, o ouro acumulado nas cidades gregas da Ásia Menor deu-lhes luxo, estimulou as artes e as letras e aumentou a pompa das cerimônias religiosas. Dessa forma, as monarquias imaginavam ter-se credenciando para levar adiante o ideal universal helenístico.

Depois que os rudes romanos conquistaram a Macedônia, a Grécia e a Ásia Menor, além dos horrores da guerra, o terror dos gregos teve prosseguimento na usura dos vencedores. Mais do que em Atenas, a rica e culta sociedade Greco-anatoliana experimentou uma situação deplorável. A exploração intensiva das cidades ricas do Oriente transportava para a Itália, além das riquezas materias, hábeis agricultores, tintureiros, tecelões, perfumistas, cozinheiros, pintores, ferreiros, cinzeladores, músicos, engenheiros, arquitetos, literatos, gramáticos; homens e mulheres de inteligência fina tratados como mercadorias de alto valor (FERRERO, P. 127). O patrimônio acumulado por essa civilização, desde as conquistas de Alexandre, passava para as mãos dos financistas italianos. Aquela gente culta e refinada via-se obrigada a vender filhos e filhas, por fim, entregavam a si mesmos como escravos, sem opção, diante da desgraça financeira provocada por dívidas compulsórias. (FERRERO, P. 140)

Entre outros, houve um jovem chamado Tito Pompônio Atico, filho de um riquíssimo empreiteiro romano, que encontrou na Grécia devastada e empobrecida um campo fértil para o emprego dos seus capitais: tendo ido para Atenas após a reconquista de Sila, conseguiu, a um tempo, aumentar o seu saber e a sua fortuna, agindo respectivamente como aluno e como banqueiro. A pouco e pouco, na Ásia e na Grécia, as cidades e os indivíduos eram obrigados a entregar aos credores os edifícios públicos, as reservas metálicas, as obras de arte, os escravos, os objetos preciosos, as casas, as melhores terras. Os supérstites do império de Péricles, os despojos das conquistas de Alexandre, o patrimônio de civilização acumulado por tantas gerações sob o reinado dos Atálidas, e até mesmo os homens passavam para o poder dos financistas italianos. Os pais, quando não lhes restava outra riqueza, vendiam-lhes os filhos e as filhas. Por fim, eles mesmos entregavam-se como escravos. (FERRERO, P. 126)

Roma era uma república de camponeses que se assenhoreava dos domínios e dos bens de uma civilização responsável pelas grandes conquistas do Ocidente, sem estar qualificada para administrar a oportunidade que se apresentava. Até o início da era atual, Roma destrói, sem construir, algo de novo à altura daquilo de que se apropria. Pilha e arruína, pondo em perigo as cidades que se tornaram suas, e sacando imprudentemente sobre um capital que já é seu compromete o próprio futuro (AYMARD; AUBOYER, 1974, Tomo II, 1° Vol., p. 86). O arrefecimento dessa prática predatória se deve à crescente influência da cultura grega sobre a rusticidade romana. Não há por que se pensar que essa exuberante civilização prejudicada tenha aceitado com docilidade o destino cruel de se ver extinta por um povo num estágio de cultura imensamente inferior ao seu. Se a resposta armada estava fora de questão, a inteligência e a experiência acumuladas se encarregariam de dá-la. Os gregos estavam especialmente preparados para isso.

Os gregos ou grecizados orientais [anatolianos] achavam-se bastante mais articulados e sentiam o conflito ideológico com mais intensidade. Mas mesmo entre eles a extensão do sentimento anti-romano não é de modo algum fácil de avaliar, uma vez que a grande maioria dos escritores gregos – como a maioria dos escritores latinos – pertencia às classes cultas, prósperas e leais e, portanto, não refletiam habitualmente (mesmo pelos métodos indiretos de Dio Crisóstomo) tudo o que virulentamente existia de sentimentos anti-romanos. (GRANT, p. 78)

Depois de tentarem divinizar os procônsules, que apareciam para desaparecer, sabiam os gregos asiáticos que o homem certo havia chegado. Ele devia ser a força coordenadora dos interesses particulares das cidades gregas, sua muralha contra a Pérsia, o protetor do seu comércio, como nas antigas monarquias helenísticas. Uma inscrição existente em Mitilene reconhecia que o que é baixo pela sorte e pela natureza não pode comparar-se aos seres de brilho divino que têm a superioridade dos deuses. Essa inscrição mutilada contém o decreto que regulamentava o culto de Augusto e dispõe que este deveria constar em todos os templos, não só nos da Ásia, mas também nos de Marselha e Antióquia da Síria, por exemplo. Não bastava às cidades da Ásia adorar o presidente da república latina; era importante que o culto se difundisse por toda parte. (FERRERO, P. 137)

Quando Augusto esteve em visita a Ásia Menor, encontrou templos que se erguiam em sua homenagem, como se fazia para os reis antigos, em Pérgamo e Nicomédia. Havia um culto que estava prestes a se espalhar por toda a Ásia Menor, inicialmente. Augusto havia sido elevado pelos gregos anatolianos à condição de um deus, tomando o deus pai todo poderoso, Zeus, como modelo. Havia o cuidado para que a devoção não se traduzisse apenas em algumas cidades, mas em toda a Ásia grega. Jogos solenes foram organizados em honra de Roma e de Augusto, e altares foram devotadamente erguidos (FERRERO, P. 136). Os interesses anatolianos iam além dos mares.

Esse culto era uma novidade estranha, a adoração de um deus vivo era apenas praticada no Egito, o costume na Ásia Menor era incluí-los na legião dos deuses somente depois de mortos. Por que esse costume egípcio surgira repentinamente? Por que, enquanto na Itália se tentava restaurar a república, essa planta de solo monárquico enroscava-se como hera no primeiro magistrado da república e crescia tão depressa? (FERRERO, P.138.) A pergunta de Ferrero é excelente. Tentaremos respondê-la sob o aspecto político no corpo deste texto. No entanto, o egiptólogo francês com doutorado na Sorbonne, Christian Jaq, a responde indiretamente com algo no mínimo curioso, mas difícil de averiguar o fundamento e nos remete a Shakespeare: A visão egípcia do mundo procede de uma alta magia de Estado, coerente, raciocinada, admiravelmente perceptível e serena. (YOYOTTE cit. por JACQ, 2001, p. 19)

Depois das guerras de conquistas, das dificuldades internas que assolaram a república nos últimos séculos e do constante perigo dos persas, Augusto, prudentemente, entendeu que seria melhor consolidar os domínios de Roma com uma administração que promovesse o progresso e o bem-estar nas províncias do que investir temerariamente em novas campanhas. Por toda à parte da área mediterrânea, a Paz de Augusto originou uma nova segurança e liberdade de comunicações, encorajada por intensa construção de estradas e a expulsão dos piratas dos mares. Por toda a Ásia Menor, as velas das frotas mercantes se enfunavam de novo ao vento. Ao desembarcar na Ásia Menor, Augusto entrara em contato com uma das três maiores regiões industriais do mundo antigo, e que eram, precisamente, a Ásia Menor, a Síria e o Egito. (FERRERO, 1965, P. 138)

Em vista das atitudes interesseiras dos anatolianos, pode até parecer que as feridas cicatrizaram, as dores foram esquecidas e a vida nova havia acomodado tudo e todos. Mas não foi bem assim. Havia material subversivo que circulava de mão em mão no surdo murmúrio das massas, que tomavam muitas vezes a forma de panfletos religiosos, oráculos e profecias de inspiração judaica (GRANT, p. 78) devido ao proselitismo judeu existente no meio popular que irritava e indignava toda a intelectualidade helênica. [...] e de há muito se dizia que a justiça romana era apenas o direito do mais forte. Sabemo-lo pelos propagandistas gregos da Pátria e pelos mordazes panfletários anti-romanos como Metrodoro de Scepis, no noroeste da Ásia Menor. (GRANT, 1977, p. 77) A profundidade da insatisfação dos gregos com o domínio romano não recebeu da história a importância devida por algum motivo. Quem não andou fuçando o assunto desconhece-a completamente. Sem a noção de quem eram os gregos e de quem eram os romanos, quando os segundos passaram a dominar os primeiros militarmente, fica difícil ajuizar. Dessa vez, outro Cavalo de Tróia havia sido deixado à porta de Roma pelo destino. Quando se fala em cultura Greco-romana dá impressão de que havia um equilíbrio entre elas e não era nada disso. O entusiasmo do poeta romano Ovídio (43 a.e.c.- 17 e.c.) já demonstra que a sociedade e o Estado romanos fatalmente sucumbiriam ao poderoso choque cultural.

Outrora reinava uma simplicidade rústica; Roma está agora resplandecente de ouro e possui as imensas riquezas do mundo que ela domina. Observa o Capitólio de hoje e o de outrora; dir-se-ia que era consagrado a um outro Júpiter. Hoje a Cúria é verdadeiramente digna de uma tão nobre assembléia: era de palha quando o rei Tasso exercia o poder. O Palatino, onde se erguem brilhantes edifícios, sob a proteção de Apolo e dos nossos chefes, que era então? Uma pastagem para bois de trabalho.

Que outros guardem as suas simpatias para o passado. Eu congratulo-me por ter vindo ao mundo agora. Esta idade condiz com meu gosto. [...]. É porque temos cuidado com o corpo e o nosso tempo não conhece já essa rusticidade que longos anos este sobreviveu aos nossos antigos avós. (Ovídio)

A imensa quantidade da população escrava de Roma trazida da Ásia Menor constituiu a nova classe média romana, o novo Cavalo de Troia. Esta grande percentagem da população romana de origem anatoliana, despertou acusações de Cícero por frivolidade, rapacidade e infidelidade. (GRANT, p. 58)

Se a nobreza descurava os seus deveres, esbanjando a fortuna, preferindo a orgia às magistraturas, os amores à guerra, cumpria obrigá-la, por meio de leis severas, renovar as antigas magistraturas que tinham outrora velado pelos costumes das classes superiores, e restabelecer, ao meso tempo, a pratica de uma justiça rigorosa e imparcial. Reclamava-se especialmente a eleição de censores. Tomava grande vulto, então, de preferência nas classes médias, entre os senadores e os cavaleiros pouco afortunados, entre os escritores, os libertos, os artesãos, um grande movimento puritano empenhado em desenraizar de Roma, por meio de novas leis e de novos castigos, todos os vícios de que foram culpados a riqueza, a impudicícia das mulheres, a complacência venal dos maridos, o celibato, o luxo, o peculato. As idéias e os sentimentos que alimentavam o movimento no seio das massas eram numerosos e variados. Havia em tudo, sinceramente, preocupação patriótica. Temia-se pela sorte de Roma se a nobreza não voltasse, como no passado, a ser digna de sua grandeza. Se uma nobre matrona, por dinheiro, se tornava amante de um liberto, de um estrangeiro, de um plebeu rico, via-se nisso um ultraje a dignidade de Roma, como um jato de lama atirado sobre as glórias do passado. Almejava-se, igualmente, nas províncias, um governo mais justo e mais humano, seja porque se difundissem as doutrinas de Cícero sobre o governo dos povos subjugados e os sentimentos se estivessem abrandando, seja porque se começava a compreender que, em sendo menos poderosa, Roma deveria ser mais justa. Havia ainda a força da tradição. Durante séculos, a moral tradicional inculcara aos romanos a simplicidade, as virtudes familiares, a castidade. Ora, muitos séculos seriam necessários para apagar os vestígios deixados por outros séculos. (FERRERO, P. 85).

Esta sucessora cosmopolita da classe média italiana da República passou a gozar de grande prestígio depois de Cláudio. Este imperador nomeou diretamente ex-libertos, e não descendentes, para seus ministros principais e conselheiros políticos – talentosos orientais de imensa fortuna e de poder nunca antes atingido por um senador, como os três secretários de estado: Palas (Finanças), Narciso (Secretaria de Estado) e Calisto (Petições). O que o historiador Tácito considerava como um horrível presságio. Os poderosos e temidos libertos igualmente estavam presentes na gestão de Nero, como Páris, Hélio e Epafrodito. Quando o Senado discutiu possíveis restrições à arrogância dos libertos, notou-se que a maior parte dos cavaleiros era de origem anatoliana. Possivelmente – embora não passe de uma suposição – noventa por cento da população de Roma, no ano 100, era formada de não-italianos de origem escrava. (GRANT, p. 123) Os romanos do império constituíam uma raça nova, diferente da composição étnica dos verdadeiros romanos da República. Diz-se que nas ruas de Roma ouviam-se mais o grego do que o latim. Aliás, o grego era a língua da liturgia cristã, e não o latim. Será que isso não significa nada? Foi no final do século IV, no ano 370, que a liturgia católica romana abandonou definitivamente o grego em favor do latim no Cânon da missa. (DANIÉLOU; MARROU, 1966, p. 317) O motivo foi o ressentimento da minoria latina engajada, devida a mudança da capital do império para território grego que fez de Roma mais uma tributária, pondo um ponto final no seu passado de glória. Portanto, não é de se espantar que as crenças e os hábitos Greco – orientais tenham se assentado com facilidade numa Roma que já não era tão romana no final do primeiro século da e.c..

É interessante se notar a presença dos mais antigos costumes da Anatólia no futuro Império Romano que estava prestes a se formar. Os símbolos das antigas monarquias anatolianas, como a transformação do nome do monarca fundador em título de soberania, vigoraram entre os imperadores romanos, pois conservaram do mesmo modo o nome de César (que não chegou a ser imperador). Os monarcas anatolianos eram também o grande sacerdote. Como os imperadores romanos, reservavam para si o grande pontificado. Exatamente como os imperadores romanos, que exerciam em carne e osso o culto de Júpter Capitolino, os imperadores anatolianos não podiam esquivar-se à obrigação de estar presente nas festas muito importantes. A imagem da águia de duas cabeças de um dos selos hititas conservados no Museu do Louvre é o modelo exato da águia bicéfala do Santo Império romano-germânico. (CONRAD, 1979, p. 165 e 166)

Se por um lado houve um ganho expressivo aos olhos do mundo, por outro, a influência grega responde pelo fim das antigas crenças e das antigas tradições romanas. É provável que César talvez ambicionasse conciliar a aristocracia e a democracia no imperialismo. Uma Roma remodelada pela cultura helênica iluminaria o mundo. Governada com o auxílio de uma classe média abastada e culta e de uma aristocracia enérgica e prudente, franqueada aos homens e às idéias novas, tal república cumpriria o ideal de hegemonia universal de Alexandre e faria da Itália a coluna mestra da civilização. (FERRERO, p. 193)

Ao que parece os gregos asiáticos ajudaram a sepultar de vez a República Romana. As forças do Senado e das tradições romanas eram um grande empecilho aos interesses anatolianos. No final do último século a.e.c., quando ainda havia alguma representatividade latina na classe média romana, o desejo de se restaurar a República foi o canto do cisne que era Roma. Eis que a astúcia da impotência se tornava vitoriosa. Os gregos foram astutos o bastante para liquidarem Roma de vez. Quando ela percebeu já era tarde.

Algo muito semelhante acontece atualmente na Europa em relação ao islamismo. Estima-se que em algumas décadas as sociedades e os exércitos europeus se tornarão islâmicos. As famílias européias geram poucos filhos por casal, enquanto as famílias islâmicas da Europa os geram em quantidade. Parece que a história teve sua utilidade negligenciada por estar ocupada em ocultar o passado.

Gregos versus judeus

Os gregos, que haviam reservado para si o ideal oikoumenicós. Em português, ecumênico se refere ao ecumenismo: “apelo à unidade de todos os povos contida na mensagem do evangelho”. Por derivação: “que congrega pessoas de diferentes credos e ideologias”. Porquanto o movimento de juntar ou agregar, idéia de “fazer como os gregos”, se encontra na raiz desta palavra. Contraditoriamente, por motivo cultural, os gregos não contavam com o essencial para consumar o ideal oikoumenicós e unir uma Humanidade heterogênea – a religião. Do ponto de vista helênico do período clássico, religião era coisa de mulher e escravo, os mais desfavorecidos naquelas sociedades paroquiais. O Estado havia estabelecido os deuses cuja veneração era indispensável para o bom comportamento dos cidadãos. A religião era, em essência, um fenômeno político. (TOYNBEE, 1983, p. 62)

Outra particularidade antiga que se antepõe a essa disposição helenística, está na raiz dos costumes helênicos como um hábito cultural recorrente, é a disputa. Esta se instituía com muita facilidade e por motivos banais ou mesquinhos. Uma tolice qualquer podia resultar numa guerra fratricida entre cidades-estado. Ao que tudo indica, o ideal ecumênico e helenístico veio se acentuar entre os gregos no período de dominação romana, assim mesmo por questão de sobrevivência. Lembremos dos cultos e competentes anatolianos escravizados em Roma.

Se os homens esperavam dos seus amigos, ou as famílias dos seus membros, que estes partilhassem todos os seus interesses e fossem inabalavelmente fies em todas as circunstancias, quase faziam do ódio uma virtude e da vingança um dever. Os gregos insistiam em que os amigos deviam partilhar os ódios e as afeições de igual modo, e se assim não o faziam, eram tidos como uns covardes ou traidores. Não viam nada de mal no ódio, desde que este tivesse uma razão de ser, e, dum modo geral, era sempre uma ofensa ou uma injuria feitas à honra. Sempre que isto acontecia e que houvesse a convicção de se estar dentro da razão, a única solução era uma vingança sangrenta. As poucas exceções apenas acentuam a regra habitual, como diziam os discípulos de Pitágoras: “Nunca se deve ter inimizade com aqueles que não são completamente maus, mas uma vez iniciada esta, deve ser prosseguida na luta, nobremente, até o fim, a não ser que o caráter do inimigo se modifique e seja substituído pela vontade”. Isto talvez seja já alguma coisa, mas não é muito. À primeira vista, ainda é mais impressionante a resposta que Pítaco, tirano de Mitilene, dá ao seu inimigo Alceu: “O perdão é melhor que a vingança”. Esta frase foi devida provavelmente a uma habilidade política e não ao sentimento de que a vingança é por si só indesejável. E isto são exceções. Os Gregos nunca pensaram que fosse possível ou desejável amar os inimigos, e perdão é uma expressão rara no seu vocabulário, exceto no caso de ofensas comuns e involuntárias. Era mais freqüente sentirem prazer em odiar os seus inimigos e em antegozarem a vingança. [...] Essa mentalidade começou na família e foi a origem de lutas violentas entre estas, mas espalhou-se até a guerra entre as classes e a guerra entre diferentes cidades. Podia ter-se inimigos na sua própria classe ou noutra, ou até noutras cidades, mas em qualquer dos casos os inimigos deviam ser tratados o pior possível. Havia a convicção de que, se alguém não maltratasse o seu inimigo, partindo do princípio que isso seria um desejo existente em ambos, cometeria uma falta contra a própria honra. Este tipo de relação era, portanto recíproco e insolúvel. A todo ato de vingança sucedia-se infalivelmente outro, e quer a contenda fosse entre indivíduos ou entre cidades era sempre aproveitada para justificar um tratamento impiedoso do inimigo. Admitindo que grande parte das guerras começaria por uma injúria que uma das partes teria feito a outra, isto implica que aquelas raramente seriam conduzidas com dignidade e, se os vencidos tinham merecido a condenação dos vencedores, podia suceder que os seus homens fossem mortos e que as suas mulheres e crianças fossem vendidas como escravas. (BOWRA, 1977, P. 53, 54 e 55)

Quando, no verão de 405 a. C., Atenas perdeu a sua frota, em Egospótamos, acabaram-se as esperanças na possibilidade de resistência. As notícias foram trazidas pela galé Paralos e Xenofonte conta-nos como, à medida que as notícias passavam de boca em boca, um som de gemidos percorria as longas paredes do Pireu até Atenas: “Naquela noite ninguém mais dormiu. Choravam não só pelos mortos mas ainda por eles próprios, ao pensarem que iriam sofrer aquilo mesmo que tinham infligido ao povo de Melos, colônia de Esparta, quando os venceram num cerco, aquilo que tinham feito ao povo de Histieia, de Cione, de Torone e de Egina e a muitos outros povos gregos”. O inconcebível tinha acontecido e os Atenienses sentiam que, por um lado, eram abandonados pelos deuses, por outro, odiados pelos homens, clamando por vingança e prontos a exercê-la. (BOWRA, P. 282)

Havia uma pedra maior do que aquelas que habitualmente os gregos atiravam uns nos outros no caminho do ideal universal helenístico. Um povo havia se recusado a integrar essa pretensão grega porque teria que abrir mão das próprias tradições e crenças. Era o povo judeu. Teimavam em permanecer judeus, a despeito da admiração que muitos deles sentiam pelos gregos. Como sabemos, toda generalização é falha por natureza.

Os gregos viam seu oikoumenê, isto é, o universo civilizado onde suas idéias prevaleciam, como uma sociedade multirracial e multinacional, e aqueles que recusavam a aceitá-lo eram inimigos do homem. Em sua grande ofensiva contra o Judaísmo mosaico, Antíoco Epífanes jurou abolir as leis judaicas “prejudiciais” à humanidade, e ele sacrificou porcos sobre os livros sagrados judaicos. (JOHNSON, 1989, p. 138)

O isolamento cultural que os judeus se impunham resultava num isolamento social e conseqüentemente numa antipatia dos habitantes das cidades, nas quais seus bairros particulares se localizavam. Este fato se agravou com o domínio romano porque havia uma legislação instituída por Julio Cesar que protegia a religião judaica e garantia a esse povo o pleno exercício das suas tradições. O fato se deve a favores políticos prestados pelas lideranças judaicas da época, representada por Antípatro (pai de Herodes o Grande) e João Hircano, Sumo Sacerdote do templo de Jerusalém. Julio Cesar ordenou que essas leis fossem gravadas em folhas de cobre e guardadas no Capitólio, como mandava tradição nos compromissos que se referiam ao estado e não a pessoa de um governante. Tratava-se de um compromisso que dali em diante todos os governos deveriam cumprir. Foi por isso que o judaísmo conseguiu o status de religio licita. Com isso as dificuldades entre gregos e outros com os judeus só aumentaram.

Quando os romanos modificaram as definições de status destinado a população alexandrina, novas categorias foram estabelecidas e repercutiam diretamente na cobrança de impostos dos quais os cidadãos alexandrinos eram os únicos isentos. Para se obter a cidadania alexandrina era necessário provar ascendência helenizada paterna e materna. A partir da revisão romana, a taxação demarcou ainda mais a diferença entre as comunidades. Os egípcios foram sujeitos as taxações mais elevadas porque eram considerados elementos de menor nível social. Tais inovações desencadearam um conflito por status, principalmente entre gregos e judeus, porque estes começaram a conquistar privilégios antes restritos àqueles. Os judeus reivindicaram aos romanos a cidadania alexandrina para pagarem a mesma taxação dos gregos, o que estes consideraram absurdo. Confrontos sangrentos resultaram daí, não só em Alexandria, porque, segundo seus críticos, eles estavam querendo sempre mais. Eusébio e Dion Cássio se referem a muitas mortes entre gregos e judeus em Cirene, Chipre e Egito, incluindo Alexandria. (CLÍMACO, JC)

Esses exemplos descritos acima [conflitos em Alexandria], ilustram o agudo relacionamento entre romanos pagãos e os judeus. Dezenas de levantes e choques ocorreram durante o domínio romano. Citaremos apenas três destes para ilustrar a grandeza do conflito. Conforme nos relata, com inúmeros detalhes, o historiador judeu Flavius Josefus, na sua obra clássica “As guerras judaicas”, a guerra estalou em 66 d.C. e se concluiu em 70 d.C., com perdas elevadas para ambos os lados e com o cerco e destruição de Jerusalém e do Templo. 19 O outro grave confronto armado se deu nas comunidades judaicas da Diáspora, em especial na Cirenaica, Egito e na ilha de Chipre em 115 d.C. O massacre dos revoltosos foi violento, com milhares de mortos e cativos vendidos como escravos. (GRAYZEL, op.cit., p. 138; BORGER, op. cit. p. 241)

A guerra romano-judaica de 66/70 chama a atenção, principalmente, porque, segundo a história da Igreja, depois dela o Cristianismo se iniciou no mundo grego ou pagão. De maneira que suas constantes referências ao ano 70 me sugeriram uma atenção especial na apreciação dessa guerra. A observação que faz o professor Paul Johnson [...] Conseqüentemente é importante compreender que a revolta judia contra Roma era, no fundo, um conflito entre a cultura judaica e a grega. (JOHNSON, 1989, p. 124) pareceu-me bastante elucidativa. [...] para o judaísmo não é fundamental o conceito de salvação para um mundo futuro, pós-morte, mas sim a pureza da vida diária, complementada pelas “mitzvas, ou “boas ações”, [...] (SILVA, 1995, p. 122) Percebi, então, que tantos pesquisadores, inclusive eu, havíamos passado boa parte de nossas vidas olhando para o lado errado.

Como os gregos de Alexandria, os helenos da Palestina eram notórios por seu anti-semitismo: foram de língua grega de Jabné e Achkelon que levaram a Calígula conhecimento de suas medidas antijudaicas. Ingenuamente Roma insistiu em retirar seus procuradores da Judéia das áreas gentias de fala grega – o último, e o mais insensível deles, Géssio Floro, veio da Ásia Menor grega. (JOHNSON, Paul, 1989, p. 140)

Em outros autores a suspeita se confirmava. Quando publiquei na Internet um balão de ensaio da minha pesquisa, intitulado Jesus Cristo – um presente de gregos, ficou parecendo para muita gente que eu defendia os judeus. Embora não fosse o caso, admito que eu tenha falhado por entusiasmo excessivo com a descoberta. Claro que os judeus não eram uns coitadinhos, isso não existe. Eles pagavam o preço da própria escolha. Percebi, então, que o preconceito contra eles provinha do isolamento social e das fatais decorrências. O “não” deles ao ideal universal helenístico custou-lhes muito caro.

[...] Além disso, como nos tempos atuais, o anti-semitismo era estabelecido não só pelo boato vulgar, mas também pela propaganda deliberada de intelectuais. Por certo, no primeiro século d.C. o sentimento antijudaico, que crescia constantemente, era, em grande escala, a obra dos escritores, sendo a maioria deles os gregos. (JOHNSON, 1989, p. 138).

Eles [os judeus] raptavam um grego, engordavam-no durante um ano e então o conduziam para uma floresta, onde eles o matavam, sacrificavam seu corpo de acordo com seus rituais costumeiros, partilhavam sua carne e, enquanto imolavam o grego, faziam um juramento de hostilidade contra todos os gregos. Os restos de sua vítima eram lançados num buraco. (Josefo, Contra Apionem)

Apion era um intelectual de prestígio Greco – egípcio, contra o qual o historiador judeu Flávio Josefo dirigiu uma obra específica em defesa das intrigas daquele autor contra os judeus. O historiador Paul Johnson, como outros, confirma o fato. [...] Outra fábula era a de que os judeus dirigiam sacrifícios humanos secretos em seu Templo: essa era a razão porque ninguém estava autorizado a entrar nele [...] (JOHNSON, 1989, p. 139) A maioria desses intelectuais procedia de cidades gregas da Ásia Menor, da Síria e do Egito gregos: Clearco de Soli (filósofo da escola de Aristóteles), Diodoro Sículo (historiador), Queremon (historiador), Lisímaco, Apolônio Mòlon (retor), Apion (professor de literatura e escritor) etc. (MESSADIÉ, 2003, p. 42, 46, 47 e 50) Ainda que bastante lacunar, havia uma evidente conspiração contra o judaísmo.
Os homens que os libertos de Cláudio escolheram para esse posto (procurador da Judéia) foram em geral incompetentes ou canalhas. Félix, escolhido como procurador pelo seu irmão Palas “governou a Judéia”, diz Tácito, “com poderes de um rei a alma de um esravo”. Festos governou menos mal, mas morreu logo. Albino, a crermos em Josefo, abusou à vontade, e fez uma fortuna com a indústria de soltar criminosos a troco de dinheiro;“só permanecia preso quem não lhe dava nada”. Floro, diz o mesmo amigo e admirador dos romanos, comportou-se “mais como um carrasco do que como um governador”, roubava as cidades inteiras, não só por sua conta como ainda por intermédio de outros que com ele dividissem o saque. Estes informes cheiram muito a propaganda de guerra; com certeza os procuradores queixavam-se de que os judeus eram muito difíceis de ser explorados. (DURANT, 1971, vol. III, p. 426)

Em Cesaréia ficava a residência do oficial do procurador Géssio Floro (64-66). A guerra romano-judaica de 66-70/3 teve o estopim aceso naquela cidade ao comemorarem uma vitória judicial contra os judeus, os pagãos saíram os espancando nas ruas incendiando suas casas. O motivo da disputa era um terreno vazio ao lado de uma sinagoga, desencadeando uma perseguição violenta por todas as cidades gregas da Judéia.

Nesse dia os pagãos de Cesaréia, a capital da Palestina, levantaram-se e trucidaram 20.000 judeus; milhares de outros foram vendidos como escravos. Em um dia os pagãos de Damasco deceparam a cabeça de 10.000 judeus. Enquanto isso os revolucionários [judeus] faziam estragos em muitas cidades gregas da Palestina e Síria, arrasando umas completamente e matando e sendo mortos em grande número. “Era comum”, diz Josefo, “encontrar cidades cheias de cadáveres desenterrados, de velhos e crianças, e entre eles mulheres sem nenhuma coberta”. Em setembro de 66 a revolução estava vitoriosa em Jerusalém e quase toda a Palestina. E como o partido de paz ficasse desmoralizado, muitos dos seus membros aderiram à revolta. (DURANT, p. 426)

Em um debate com um ilustre e preparadíssimo professor de uma universidade adventista, estas mesmas evidências receberam a contestação que repasso em parte:

Nada há nas fontes gregas que ateste de um ódio generalizado para com os judeus. Nessa questão, sou obrigado a concordar com Erich S. Gruen (Diaspora: Jews amidst Greeks and Romans. Cambridge: Harvard University Press, 2002. p. 51-52): “o jogo longamente jogado de posicionar os escritores romanos e gregos de um lado ou de outro já chegou ao fim e perdeu a graça [...] Os textos não revelam nem intolerância nem racismo [...] Os judeus simplesmente tinham uma importância pequena demais para justificar perseguição ou repressão [...] O testemunho lacunoso não se presta a conclusões em que se possa confiar.” Aliás, Filo afirma que, a despeito de certo preconceito, os povos antigos (falando genericamente) tinham mais simpatia do que ódio aos judeus, estando geralmente inclinados a respeitar seus costumes.

Quem levanta a lebre da rivalidade entre gregos e judeus é um autor judeu: Josefo. Ele faz um exame minucioso de vários decretos senatoriais da época de Júlio César e Augusto (portanto, pouca coisa antes de sua data preferencial). Ao examinar esses “senatus consulta”, a expressão latina para “decreto do senado”, Josefo menciona pelo menos quatro casos em que houve indisposição entre gregos e judeus. Em dois desses casos, o “senatus consultum” (forma do singular) simplesmente se refere à liberdade concedida pelos gregos aos judeus para celebrarem suas festas religiosas e sábados bem como para construírem sinagogas. Trata-se de decisões tomadas pelos “demoi” de Halicarnasso e Sardes, diante da solicitação dos judeus para terem mais liberdade para essas coisas. Em dois casos, parece haver certa restrição por parte dos gregos. Em Delos e Éfeso, certas proibições foram invocadas contra os judeus sob a alegação de que estes se recusavam a integrar a comunidade local. Parece que o motivo real do confronto era que os judeus estariam deslocando parte de sua renda na cidade para financiar o templo de Jerusalém, o que gerou o protesto grego. Diante da intervenção romana, os judeus continuaram a gozar da liberdade para enviar seu dinheiro para onde quisessem. Apesar de os estudiosos, em sua maioria, concordarem que os documentos elencados por Josefo são legítimos, a opinião geral é que Josefo exagerou suas reclamações. Mesmo que não o tenha feito, não parece descrever profundos conflitos entre judeus e gregos. Em relação aos documentos de Josefo, Gruen (p. 101) adverte que “faríamos bem em não tirar conclusões apressadas acerca de uma hostilidade dos gregos para com os judeus. Em sua história da judeofobia ou preconceito contra os judeus, Peter Schäfer (Judeophobia: attitudes toward the Jews in the ancient world. Cambridge: Harvard University Press, 1997) chega à conclusão que o povo antigo que mais perseguiu os judeus foram os egípcios. Segundo ele, os judeus sofreram perseguições em três grandes centros fora da Palestina: Egito, Síria e Roma. É interessante que esse historiador do judaísmo não identifica nenhuma cidade grega como avessa ao judaísmo. Ele fala do caso de Alexandria, mas mesmo sabendo que o Egito, embora dominado pelos romanos, recebia, naquela época, fortes influências gregas, isenta os gregos, afirmando que o elemento egípcio autóctone foi o verdadeiro motivador dos conflitos naquela grande metrópole. Portanto, caro amigo, continuo insistindo que sua tese é excêntrica.

O ilustre professor reconhece a farsa das interpolações na obra de Flávio Josefo, que continuam tendo utilidade para propaganda religiosa. Não conheço Erich S. Gruen nem a referida obra e nada encontrei a respeito. Não faço insinuações, apenas registro o fato. Outros autores ele me apresentou, mas não seria relevante nominá-los aqui. Preocupa-me no momento mais a leveza da leitura. Quanto a Peter Schäfer, descobri tratar-se de um teólogo católico. Acho impressionante ver até aonde vai a cara-de-pau de teólogos como o professor Peter Schäfer, um erudito cristão que não podia desconhecer as Acta Alexandrinoroum, nas quais os conflitos entre gregos e judeus e os seus motivos estão bem explicitados. É de praxe que teólogos distorçam evidências histórias em favor dos interesses da própria crença. No caso, me parece uma tentativa vã de afastar a curiosidade secular desse ponto nevrálgico. É sintomático da engenharia da enganação que não se cansa nunca. Deixo aqui essa experiência para alertar os colegas.

O conhecido historiador Will Durant resume em um único parágrafo as evidências contestadas pelo ilustre professor adventista:

Essa separação religiosa e racial combinou-se com as rivalidades econômicas e despertou, por volta do fim desse período, um movimento anti-semita em Alexandria. Os gregos e os egípcios, afeitos à união da Igreja e do Estado, não viam com bons olhos a independência cultural dos judeus; além do mais, sentiam a concorrência do artífice ou do negociante judeu, e ressentiam-se ante a tenacidade e habilidade daquela gente. Quando Roma começou a importar o trigo egípcio, eram mercadores judeus de Alexandria que em seus barcos transportavam o produto. Percebendo os gregos que haviam fracassado na helenização dos judeus, começaram a temer pelo próprio futuro, num Estado em que a maioria continuava persistentemente oriental e se reproduzia com intensidade. Esquecidos da legislação de Péricles, queixavam-se de que as leis hebraicas proibiam o cruzamento racial, e que os judeus raramente se casavam fora de famílias judias. A literatura anti-semita cresceu. Maneto, o historiador egípcio, espalhou a história de que os judeus haviam sido expulsos do Egito, havia muitos séculos, por sofrerem de escrófula ou lepra. O preconceito anti-semita intensificava-se de ambos os lados, e no século I da era cristã estalou com destruidora violência. (DURANT, 1971, p. 468)

Antes do domínio romano, os gregos eram os senhores do Mediterrâneo. O comércio, o transporte marítimo e as atividades lucrativas eram monopólios deles. Depois tudo mudou e os judeus sentiram-se mais à vontade. O entrevero entre gregos e judeus estava mais do que justificado. Mesmo que toda generalização seja enganosa, o fato não deixa dúvidas. Superada a questão, chamo a sua atenção para o seguinte: Os gregos e os egípcios, afeitos à união da Igreja e do Estado [...]. Isto é o que vai fazer a diferença nessa história.

Nasce uma nova crença

A rejeição contra os judeus havia chegado ao âmbito religioso. Existem motivos para se acreditar que nos séculos I e II houvesse uma crescente resistência a religião judaica. A prática de um proselitismo existente há séculos tornou-se agressiva da parte de alguns judeus – sabemos que o judaísmo nunca foi monolítico, como o helenismo também não -e somada à curiosidade da parte dos gregos menos favorecidos e indígenas pouco helenizados, tal situação desagradava a uma determinada elite helênica ou helenizada.

Horácio e Juvenal ridicularizam os neófitos judeus em suas sátiras: Valério Máximo acusa os judeus “de corromper os costumes romanos pelo culto de Júpiter Sabazios”, e Sêneca afirma que as “práticas desta nação celerada prevaleceram tanto que são acolhidas em todo o universo; os vencidos deram leis aos vencedores. (POLIAKOV, cit. por FELDMAN, p. 9)

Flávio Josefo relata o fato de que o imperador Tibério havia expulsado alguns judeus de Roma porque eles tentaram extorquir a esposa de um amigo seu sob pretexto religioso. Os espertos se fizeram de portadores de uma determinada quantia a ser destinada ao templo de Jerusalém, doada a deus em nome da mulher. Portanto, não só as classes baixas se mostravam vulneráveis ao fascínio desta crença.

A área da dispersão é considerável! Foi possível avaliar em 8 milhões a população judaica mundial na época helenística. Ela está principalmente agrupada em 4 zonas: Babilônia, Síria, Anatólia, Egito, possuindo cada uma delas mais de 1 milhão de judeus. Mas encontram-se igualmente em grande número na Cirenaica, nas ilhas do Egeu, na Grécia e até na África, na Itália, na Hispânia. Registram-se conversões por toda parte – sobretudo das mulheres, porque muitos homens consideravam a circuncisão repugnante – e forma-se uma categoria de meio-convertidos, os sebómenoi (os que temem a Deus). (LÉVEQUÊ, 1967, p. 50)

Como a língua urbana era o grego, muitos daqueles que se pensavam desamparados pelos deuses gregos, que prometiam nada, punham-se a porta das sinagogas para ouvirem os sermões sobre um deus que prometia tudo. Os sebómenoi também denominados “metuentes” ou prosélitos da porta, pois assistiam aos serviços religiosos no fundo da sinagoga, muitas vezes, convertiam seus filhos ao Judaísmo, circuncidando-os e integrando-os de maneira plena. (FELDMAN, p. 4)

Ainda que um confronto cultural seja oficialmente negado as evidências são muitas. A idéia era mesmo obstar a religião judaica, inclusive por causa do seu status de religo licita. O reconhecimento do fracasso na helenização dos judeus e o rastro de sangue deixado nesse percurso poderiam ter conseqüências catastróficas para os gregos, caso o mundo judaizasse. Dente por dente, olho por olho. Tanto gregos como judeus tinham influencia no conselho dos imperadores e na sociedade romana. Os romanos não se metiam na disputa, desde que não comprometesse a ordem pública. Augusto fez concessões aos judeus por considerá-los menos cansativos que os gregos.

A religião judaica era alvo prioritário. O deus dos judeus foi execrado como o monstro que lançou almas no desditoso mundo da matéria.

Mas os Gregos nunca gostaram deles e, contra a torrente da apocalíptica literatura judaica, em grande parte dirigida contra os Gregos, subsistem papiros inscritos com os Actos Pagãos dos Mártires. Nos fragmentos existentes desses Actos, datando de certo número de reinados, os gregos alexandrinos alternam seus ataques a Roma com selvagens vitupérios contra os judeus, pelo seu suposto predomínio nos conselhos do imperador. Muitas seitas pagãs desses períodos eram, também, violentamente antijudaicas, e as de tendências dualistas identificaram “o execrável deus dos judeus” com o poder maligno de saturno e com o Diabo. (GRANT, p. 63)

A reação ao judaísmo trazia no encratismo (continência sexual) a questão da superioridade da virgindade ao casamento. Essa afronta ao “crescei e frutificai” se justificava na preocupação com proliferação crescente nos bairros judeus. O encratismo rejeitava o consumo de carne e vinho (DANIÉLOU, p. 138.) e entendia que a procriação era um mal oriundo da “erva amarga”, o casamento. (DANIÉLOU, p. 137). Era dever de o homem evitar lançar mais almas no desditoso mundo da matéria. No princípio, a adesão completa à vida cristã parece algo inseparável da abstenção sexual, para alguns grupos. Os montanistas ensinavam que a abstenção sexual era uma obrigação para os cristãos. “Não tomarão mulheres, mas viverão como os anjos” (antigo preceito cristão que se perdeu no caminho e consta nos evangelhos, na Ressurreição dos Mortos). (DANIÉLOU, p. 137). Outros grupos somente rejeitavam a procriação e até compartilhavam as mulheres. A doutrina de Basilido (Basílides) e de Carpocras (Carpócrates), chefes dos gnósticos, começava a fazer progressos, apesar da sua extravagância. Aqueles hereges sustentavam que era permitido o uso de todos os prazeres; que as mulheres deviam ser comuns; que não havia ressurreição da carne; e que o Cristo era unicamente um fantasma. (LACHATRE,2004, p. 55). Havia também os nicolaítas, seguidores de tal Nicolau, que praticavam a sodomia. A essas formas estranhas e insultuosas de antijudaísmo deu-se o nome de judaísmo heterodoxo, criando a ilusão de que judeus insatisfeitos com o tradicionalismo da própria religião estavam tentando revolucioná-la. Mesmo diversificado que era, e até mesmo conflitado internamente, convenhamos que se isso fosse judaísmo de verdade, seria uma forma suicídio cultural. Nada parecido ou com antecedentes que possam levar a esta conclusão absurda se verifica na história judaica. Muito pelo contrário, eles sempre mataram e morreram pela religião.

De acordo com o mestre gnóstico Teódoto, que escreveu na Ásia Menor entre os anos 140 e 160, o gnóstico é aquele que chegou a compreender quem éramos e quem nos tornamos; onde estávamos [...] para onde nos precipitamos; do que estamos sendo libertos; o que é nascimento, e o que é o renascimento. Porém, conhecer-se no nível mais profundo é simultaneamente conhecer Deus; esse é o segredo da gnose. Um outro mestre gnóstico, Monoimus, diz: Abandone a procura de Deus, a criação e outras questões similares. Busque-o tomando a si mesmo como o ponto de partida. Aprenda quem dentro de você assume tudo para si e diz,“Meu Deus, minha mente, meu pensamento, minha alma, meu corpo”. Descubra as origens da tristeza, da alegria, do amor, do ódio [...] Se investigar cuidadosamente essas questões, você o encontrará em si mesmo. (PAGELS, p. 17)

Foi desse ambiente gnóstico dualista e confuso que emergiu uma nova crença. Ela chegou para organizar e dar sentido a reação antijudaica. Aliás, essa característica antijudaica a acompanhará para sempre. Entretanto, curiosamente um desentendimento surgiu no seio dela – que ao longo da própria história resultaria em muito sangue e perseguições – o execrado deus dos judeus que todos os demais grupos combatiam, foi inexplicavelmente reabilitado por este grupo. Ora, por qual motivo isto se deu? Detalhes como este passam despercebidos aos olhos de investigadores que ainda se ocupam da versão oficial ou de versões que, por algum motivo, ainda não dissiparam a penumbra. A vastíssima experiência helênica havia acumulado conhecimentos religiosos no seu antiqüíssimo contato com o Oriente. Só mesmo uma elite intelectual poderia direcionar a matéria, porque pobre nunca criou religião alguma. Pobre sempre se ocupou do sustento e com assuntos imediatos de uma existência carente. Porém, sempre foi um bom seguidor, sem dúvida alguma. Não faço discriminação, recupero a história.

Religião e filosofia sempre foram assuntos de quem não se ocupava com trivialidades. Os gregos intelectuais antigos achavam o trabalho desonroso. Todos os fundadores de religiões eram nobres: Sidarta Gautama, o Buda, e Zaratustra, fundador do Mazdeísmo, por exemplo. Não digo com isso que um dia sábios gregos sentaram-se em torno de uma mesa para criarem uma nova crença. Certamente isso aconteceu muitas vezes e por muito tempo. É uma das lacunas incômodas da minha pesquisa, admito. Todavia, alimento a esperança de que algum dia documentos sobre esses detalhes pendentes venham à luz para dar um bom acabamento a minha tese.

Desde o segundo século a. C., a crença na imortalidade da alma e no julgamento do homem na outra vida praticamente se generalizara sob a influência de cultos orientais: os mistérios de Dionísio e de Osíris; o culto de Ísis, confundido com Ceres, a deusa-mãe; as festas primaveris de Átis, que celebravam, ao mesmo tempo, o luto pela morte do deus e o júbilo pela sua ressurreição; o culto de Mitra, enfim, que pregava a solidariedade humana e a justiça, e anunciava a ressurreição dos corpos no juízo final. (PIRENNE, 1973, p. 113)

Acontece que o grande sucesso do judaísmo estava no Velho Testamento. Era por causa dele que muitos ouviam os sermões a porta das sinagogas. A sua capacidade de convencimento atendia ao povo da época do mesmo modo que atende ao povo de hoje. Continua tudo na mesma, porque nem só o simplório se inclina ao VT. Sem o deus dos judeus o que seria daquele livro, que mensagem mágica poderia passar? Não tinha jeito. A cultura helênica, que nunca havia se preocupado com religião, não estava preparada para aquele desafio. A reabilitação do execrado deus nos é explicada por um anatoliano de Esmirna, um dos grandes adversários do gnosticismo cristão, conhecido como Irineu de Lyon: A unidade e a existência do Cristianismo dependiam do Antigo Testamento que preparava a humanidade para o dom do Espírito. (IRINEU cit. por DANIÉLOU; 1966 p. 129) O mesmo Irineu declarou: Os judeus foram deserdados da graça de Deus.

Assim como ele, todos os membros da Igreja Patrística eram intelectuais, gregos e antijudaicos. A maioria veio a Roma apartir da segunda metade do segundo século, provenientes da Ásia Menor: Marcião (Ponto) chega em 140; Justino (Samaria) em 150; Policarpo (Anatólia) em 155 e Hegesipo (Anatólia) em 160; Praxéas (Cartago), Epígono (Anatólia), Teódoto etc. para lá se dirigem. No final do século II são muitas as escolas cristãs de Roma. No fim do segundo século, temos em Roma uma pululância de escolas. (DANIÉLOU, p. 125) O cristianismo chegou em partes da Ásia Menor e foi montado em Roma.

A confirmação das afirmações que fiz baseadas em notícias históricas, e não em subjetivismos próprios ou alheios, está na chamada Teologia da Substituição. Justino declara aos judeus: As escrituras não pertencem a vocês, mas a nós. Tertuliano anuncia em seu tratado Contra os Judeus que Deus havia rejeitado os judeus em favor dos cristãos. Eusébio, já no início do século quatro, anunciou que as promessas da escrituras hebraicas eram para os cristãos e não para os judeus. Ele afirmou também que a Igreja era a continuação do Velho Testamento, desta forma ela substituía ao judaísmo como herdeira das promessas divinas. Eles achavam essencial desacreditar o judaísmo para provar que Deus havia abandonado os judeus e transferido seu amor aos cristãos. Criaram um antídoto que só funcionou no mundo grego, mas conteve o avanço do judaísmo competentemente.

Por desconhecimento das razões apresentadas aqui neste resumo ilustrado da minha pesquisa, ninguém estranha porque em determinado momento da história, aqueles que desprezavam a religião judaica, passaram a se apresentar como impiedosos defensores do livro sagrado dos judeus. E mais, fazendo questão absoluta de assegurar a origem judaica de Jesus e dos evangelhos. A preocupação de Eusébio com a confirmação dessa origem falsa chega ser escandalosa. Por fim, os gregos criaram um judaísmo pagão, que dispensava a circuncisão e a rigidez mosaica para melhor se acomodar ao modo da vida helena. Era o único jeito de resgatar os meio-convertidos, evitar novos episódios e uma leva de futuros judeus integrados, submeter o judaísmo, tentar realizar o ideal universal helenístico com uma religião universal, superar Roma de vez e assumir o as rédeas do novo mundo. Foi exatamente o que aconteceu ao mundo pós-romano, quando o cristianismo passou a dar as cartas no Ocidente e em parte do Oriente. É claro que foram os gregos os inventores e redatores dessa história e por ela continuaram zelando. O preconceito antigo cegou muita gente, pois mesmo o fato de o judaísmo sempre ter afirmado que o cristianismo era uma religião pagã em nada ajudou nesta elucidação. Os gregos perderam muito com isso, evidentemente; nunca mais um grande filósofo ou um grande artista. Pode parecer um tiro no pé, mas foram-se os anéis e ficaram os dedos. Mudaram para permanecer.

Conclusão

A inadmissível inexistência de comprovações da versão cristã para os primeiros séculos encontrou críticos severos entre os próprios intelectuais cristãos, quanto à persistência daquela bruma sobre os primórdios do cristianismo. O renomado historiador Edward Gibbon (1737-1794) criticou abertamente a historia da Igreja; criticou Justino, tanto pela inabilidade dele como escritor, e dos apologistas que o sucederam, como lhe atribuiu o hábito de confundir a realidade com seus desejos e apelar para o recurso da fraude.

[...] Os minguados e suspeitos elementos de informação propiciados pela história eclesiástica raramente nos possibilitam desfazer a nuvem escura que pesa sobre os primórdios da Igreja. [...] Nossa curiosidade é naturalmente impelida a perguntar por que meios obteve a fé cristã vitória tão notável sobre as religiões estabelecidas do mundo. A tal indagação se pode dar uma resposta óbvia, mas satisfatória, de que foi graças à convincente evidencia da própria doutrina e à divina providencia de seu grande Autor. [...] não as primeiras causas, mas as segundas causas do rápido desenvolvimento da Igreja Cristã. (GIBBON, p. 235 e 236))

Gibbon ao mesmo tempo em que faz uma pergunta chave, com ela fechou a porta da percepção. Esse historiador escreveu que as várias formas de culto que vigoravam no mundo romano eram todas consideradas pelo povo como igualmente verdadeiras, pelo filósofo como igualmente falsas e pelo magistrado como igualmente úteis. E assim a tolerância promovia não só a mútua indulgência como a concórdia religiosa. (GIBBON, p. 53) No século dezoito estava tudo ainda tão próximo da razão, como quanto os olhos podem ficar de uma pintura em tela, da qual não se percebe nada com o nariz colado nela. Via-se, mas não se enxergava.

Desde meninos ouvimos falar da influência grega sobre Roma. Só bem distante da meninice é que viemos compreender o significado mais profundo de “influência”. É preciso distância suficiente também para um primeiro vislumbre da história. Um distanciamento que Gibbon ainda não havia se permitido. No geral, nossas conquistas se relacionam com a época em que vivemos. No século dezoito, com o iluminismo (movimento filosófico em oposição ao obscurantismo da Idade Média, e originado do racionalismo* e do empirismo** do século dezessete), a História ensaiou seus primeiros passos, ainda tímidos, para fora dos domínios da religião e Gibbon é um ótimo exemplo, a despeito do que foi observado.

O provável motivo da hesitação de Gibbon, autor de História do Declínio e Queda do Império Romano, nascido numa família protestante, pode se dever ao fato de que, no fundo, o iluminismo caracterizava-se pela disputa entre a soberania da Igreja italiana e a consciência laica. Esta era encabeçada popularmente pela comunidade protestante, sequiosa por reformas defendia a livre interpretação das Escrituras Sagradas sem intermediários (a Igreja). Procedente do protestantismo, o filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804) foi um dos personagens mais destacados dessa época. Em Crítica da razão prática, Kant, expressa o entendimento de que as pessoas devem pautar suas ações de acordo com princípios éticos universalmente aceitos. Segundo ele, a aceitação pelos homens da lei moral é a prova de que existe uma ordem que transcende o meramente sensível, cujo único fundamento possível é a existência de Deus.

A importância disto está no fato de que maioria dos intelectuais dessa época entendia o temor religioso do Antigo Testamento como necessário. Voltaire (1694-1778), um dos maiores adversários da Igreja, por exemplo, disse que se Deus não existisse, deveria ser inventado para refrear os maus instintos das massas. Assim sendo, como o consenso predominante na ocasião era profundamente conservador, aqueles poucos interessados na verdade dos fatos a respeito da historicidade de Jesus Cristo, por exemplo, não tiveram sucesso.

Existiu Cristo realmente? Não será a história do fundador do cristianismo um produto da aflição, da imaginação e da esperança humana – um mito comparável às lendas de Krisna, Osíris, Átis, Adônis, Dionísio e Mitras? Nos começos do século XVIII a roda de Bolingbroke, chocando ao próprio Voltaire, discutia na intimidade a hipótese da não existência histórica de Jesus. Volney manifestou a mesma dúvida nas Ruínas do Império, em 1791. E encontrando-se com o sábio alemão Wieland, Napoleão em vez de coisa de guerra e da política perguntou-lhe se acreditava na historicidade de Cristo. (DURANT, p. 433)

___________________

*Racionalismo – O desenvolvimento do método matemático e sua aplicação nas ciências físicas, fizeram da confiança na capacidade do pensamento matemático símbolo da autonomia da razão, para se interpretar adequadamente o mundo. No racionalismo clássico se destacam Descartes, Spinoza e Leibniz.

**Empirismo – Surgiu na Inglaterra como um contrapeso ao racionalismo, pois declarava que nenhuma certeza é possível, nenhuma verdade é absoluta e o pensamento é fruto da experiência sensível. O empirismo reconhece a experiência como a única fonte válida de conhecimento, em oposição ao racionalismo, que se baseia firmemente na razão. São destacados representantes dessa doutrina John Locke, Thomas Hobbes, George Berkeley e David Hume.]

Abafados pelas circunstâncias e pelo poder de convencimento da maioria absoluta, os contestadores mais ousados eram constantemente lembrados pelas leis e pela própria sociedade de que as fogueiras da Inquisição haviam se extinguido, mas o chão continuava quente. O último brasileiro condenado pela Inquisição, João Henriques, preso nas Minas Gerais, onde vivia, morreu no auto-de-fé de 20 de outubro de 1748, em Lisboa. A última execução foi a do professor Cayetano Ripoll, realizada na Espanha em 1826.

O século dezenove parecia que ia mudar o mundo de vez. A doutrina do socialismo científico de Marx e Engels havia levantado novamente a lebre da importância da religião no rumo do mundo e da infelicidade humana. Entendeu Engels que o cristianismo era uma religião nascida da insatisfação social e uma referência histórica para a nascente doutrina. Como não era verdade, mais uma vez a história teve que esperar. O mundo não mudou como parecia. O gosto pela filosofia que tipificou o século dezenove se espraiou na sua última metade se estendendo ao século vinte. Hoje, em pleno século vinte e um, ainda insistem em entender a história por intermédio da filosofia, e não por ela mesma. O véu ainda permanece.

Embora seja a Sicília a terra natal da retórica, foi na Ásia Menor que a filosofia nasceu. Foi da Ásia Menor que Roma recebeu grande quantidade de gregos escravizados. Foram os descendentes destes gregos escravizados na Ásia Menor que passaram a constituir a nova classe média romana, em substituição a latina. Era da Ásia Menor a maioria dos intelectuais gregos que combatiam o judaísmo. As palavras mais autênticas do Senhor dos Evangelhos não são as palavras judaicas, mas sim as não-judaicas e as antijudaicas. (Ethelbert Stauffer cit. por LÄPPLE, p. 84) Foi na Ásia Menor que surgiram os primeiros grupos (igrejas) de cristãos. Na segunda metade do segundo século começou a chegar a Roma, da Ásia Menor, os primeiros propagandistas cristãos para pregar para uma platéia de descendentes de gregos asiáticos. Concluir que a origem do cristianismo organizado tem procedência anatoliana não é absurdo algum. Anatólia era como os gregos chamavam aquela região que hoje pertence à Turquia. Ásia Menor chamavam-na os romanos. A tradição da retórica cristã antecede o cristianismo, como podemos constatar nas palavras de Cícero.

Isto posso dizer de toda a raça dos gregos. Aceito a sua literatura, admiro a sua perícia em muitas artes, não nego o encanto da sua oratória, a sutileza dos seus raciocínios, a riqueza da sua dicção; enfim, se outras reivindicações fizeram, não o nego. Mas verdade e honra em dar testemunho, essa nação nunca as apreciou: o significado, a importância, o valor desse complexo conceito, não os conheceram. De onde vem aquele provérbio: ‘Testemunha por mim, e eu testemunharei por ti’. Não é isto considerado gaulês? Ou espanhol? Pois é tão genuinamente grego que mesmos aqueles que não compreendem o grego sabem as palavras gregas para esta expressão… E os Gregos nunca se preocupam em provar o que dizem, mas apenas em exibir-se na conversação. Uma testemunha grega apodera-se da tribuna com a intenção de fazer o mal, não se importa com o valor do seu juramento, mas com as palavras que podem injuriar; ser vencido, ser refutado, ser derrotado num argumento, é considerado por ela uma desgraça; protege-se contra isso e com nada mais se preocupa. Por isso, as testemunhas escolhidas para cada caso não são os homens melhores e mais influentes, mas os mais ousados e faladores. (Cícero)

Assim, a copiosa obra de Cícero contém muitas observações em detrimento dos gregos, cuja cultura tanto admirou… Naturalmente, portanto, este grande influxo, que veio a significar afinal que uma grande percentagem da população de Roma era de origem anatoliana, despertou os ecos das acusações, feitas por Cícero, de frivolidade, rapacidade e infidelidade. (GRANT, p. 54, 55 e 58)

A Igreja primitiva era toda grega. O documento principal de que dispomos para conhecer as primeiras décadas da Igreja é constituído pelos Atos dos Apóstolos [...]. Quem escreve é grego e escreveu para gregos [...]. (DANIÉLOU, p. 27) As duas línguas exerciam ao mesmo tempo jurisdições separadas através do Império, aquela como o idioma natural da ciência, esta como o dialeto legal das transações públicas. [...] sendo quase impossível encontrar em qualquer província um súdito romano de educação liberal a quem fossem estranhas as línguas grega e latina. (GIBBON, p.65)

A extensão e a profundidade da influência grega sobre Roma nunca foi inteiramente explicada por pura falta de interesse. Com a história seguiu orientada pelos seus reconhecidos criadores – os gregos – e subseqüentemente administrada pelos continuadores da sua obra mais ousada, os cristãos, não poderia ser de outra maneira.

Para muitos, hoje em dia, a Igreja é o grande escândalo. Consternados e perplexos sentem-se não poucos fiéis em face de inúmeros fatos que ocorrem no seio da Igreja e aos quais se dá grande publicidade, graças aos meios modernos de comunicação: a imprensa, o rádio, a televisão. A maioria vê na Igreja uma relíquia dos tempos passados, não mais respeitada, porém conservada como uma peça de museu em nosso século. (LÄPPLE, p. 9)

A resposta a pergunta título, Por que o cristianismo? É a seguinte: a razão da aparição do cristianismo resulta de um confronto cultural entre o helenismo e o judaísmo.

Referências

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Outras fontes

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Internet

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CULLMANN, Oscar. http://www.monergismo.com/textos/historia/conceito_cristao.htm

*Ivani de Araújo Medina é carioca, nascido na Ilha do Governador em 1947. Formado em Artes Plásticas pela antiga Escola Nacional de Belas Artes na década de 1960, e autodidata e pesquisador em História do Cristianismo.




Por Ivani de Araújo Medina, em 01/11/2011 - 00:03. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.

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