Poemas
Se eu morresse amanhã!
Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!
Quanta glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que manhã!
Eu perdera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã!
Que sol! que céu azul! que dove n’alva
Acorda a natureza mais loucã!
Não me batera tanto amor no peito
Se eu morresse amanhã!
Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o dolorido afã…
A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morresse amanhã! (Álvares de Azevedo)
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Mulher
Ser mulher é ser diferente.
É mudar de humor de repente!
Às vezes bate uma angústia danada na gente…
Outras vezes pulamos de contente!
Carregamos no ventre uma semente e quem diz que é o sexo frágil, mente!
Gerentes, presidentes ou assistentes…
Somos inteligentes.
Mas na bolsa não dispensamos o batom, o espelho e o pente!
Umas prudentes, outras irreverentes.
Na TPM ficamos super carentes.
Contrariar, nem tente!
Não tem quem nos agüente!
Vênus, Hera ou Afrodite?
Não é importante…
Tantas são as faces deste brilhante.
Mulher… Quem nos entende? (Solange Diniz Filgueiras)
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Paixão
Na placidez da modinha
quanta monotonia invade a alma,
quanta tristeza no coração.
Nenhuma estrela no céu
quero morrer de tédio e paixão!
Não há como deixar de amar,
a vida marcada pelo sofrer e dor
chora você, na noite branca de lua
não há frescor, somente horror,
por não ter seu amor. (Marta Peres)
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Renascer o amor
Porque fizestes renascer o amor,
Num peito já tão amargurado.
De tanto sofrer de amor,
Meu coração está magoado.
Por uma existência de lutas e fracassos,
De tanto amar estou virando trapo,
Sempre sem nunca ter sido compreendido.
A minha vida já não tem mais sentido,
Porque tu eras a minha única esperança,
Fingiste amar-me,
E eu, como criança,
Agradecido com belo presente,
Pus-me a sonhar feliz sorridente.
Mas como o sonho não é realidade,
Agora, sinto que foi tudo ilusão,
Por que brincar com um pobre coração?
Se tu sabias que irias fazê-lo sofrer.
Tu te divertes, com meu padecer,
Te alegrarás com sofrimento meu?
Se for assim até ficarei feliz,
Por saber que agindo assim, tu tens felicidade,
E em troca do meu amor, tu me devolves maldade. (Vivaldo Terresa)
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Pássaros
Confundir um pássaro que se julga livre
com noites bruscas e canções de ódios inocentes:
nada mal para tua sobrevivência.
Mas tua sobrevivência
em quartos vazios, metralhados antes
de tua chegada,
acreditava-se isenta de pássaros
e possuidora das armas dos irmãos
que não sabem que tu existes,
nem que os observas de dentro
de teu frio.
Teu sono povoado de poetas do ópio
atrai aves sementeiras e sem nome
— vindas de estrelas próximas e países distantes —
que morrem pelo caminho,
ou se perdem pelos pântanos,
durante a madrugada.
Surpreender um sobrevivente
com repentino despertar
é tolice que te custa caro
e desnuda tuas canções de infância e morte. (Marco Antonio Coutinho)
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Se eu soubesse
Se eu soubesse o quanto era importante para mim teria te ligado mais vezes, te visitado mais vezes, te procurado mais.
Se eu soubesse a falta que me faria teria ficado mais perto de ti e aproveitado mais seus carinhos e seus abraços.
Se eu soubesse que a saudade de você ia doer tanto teríamos viajado mais juntas e brincado mais sob o luar.
Se eu soubesse como a sua ausência me causaria tanta dor teria aproveitado mais a sua presença.
Se eu soubesse que a falta das suas gargalhadas fariam um silêncio tão grande na minha alma teria te contado as minhas aventuras só para ouvi-la mais uma vez.
Se eu soubesse o quanto a sua mão me protegia teria sido menos insegura.
Se eu soubesse que o seu amor era tão valioso não teria chorado por outros amores.
Se eu soubesse que um dia você partiria acordaria mais cedo todos os dias só para te dar bom dia e aproveitar mais a sua companhia.
Se eu soubesse o quanto precisava de ti teria te escutado mais e sido mais obediente.
Se eu soubesse que a vida me machucaria tanto teria aproveitado mais proteção do seu colo.
Se eu soubesse que as noites de Natal nunca mais seriam as mesmas, te daria a vida como presente.
Se eu soubesse que jamais esqueceria teu cheiro ficaria mais atenta a todos os seus perfumes.
Mas, um dia quando menos espero você se vai para nunca mais voltar. Deixando um vazio tão grande no peito, incomparável a qualquer outra que já senti. Talvez este seja o significado de ser órfão. Carregar a saudade no peito, a dor mais profunda e sorrir quando lembrar dos momentos insubstituíveis que vivemos.
Ah! Se eu soubesse… teria feito tudo diferente… (Solange Diniz Filgueiras)
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A acústica da alma
A competição neurótica quase me destruiu…
Por que desapareceram as oportunidades de encontro entre os homens?
Eu não levanto mais os olhos para fitar o céu…
Esqueci de contemplar a beleza das estrelas…
Deixei o barco correr, e agora corrijo os estragos provocados pela omissão…
Mas, em tempo, percebi a brevidade do passeio aqui na terra…
A contemporaneidade cultua o modelo atropelante…
Sumiu o diálogo entre os homens…
Desejo abrir a acústica da minha alma,
Para perceber as notas divinas ditas pelos meus semelhantes…
Deixei o barco correr, e agora procuro as forças da fraternidade pura…
Mas, em tempo, procuro os valores justos sem o estímulo das ilusões materialistas…
Ensinaram-me a desprezar a história, em vez de fazê-la…
Por que desapareceu o debate entre os homens?
Deixaram-me estupidificadamente resignada…
Geraram necessidades artificiais para ocultar as reais…
Deixei o barco correr, e agora valorizo o auxílio mútuo…
Mas, em tempo, a presença de Deus derramou-se silenciosa em minha vida…
A anti-religiosidade quase me liquidou…
Por que os homens romperam com Deus?
Por acreditarem que as coisas materiais eram mais que Deus…
Erraram: por isso os corações não têm um pingo de esperança…
Deixei o barco correr, e agora reorganizo a visão espiritual da minha alma…
Mas, em tempo, escolhi a luz divina que brilha na minha consciência…
A minha energia vital está sendo bem empregada.
Por que desapareceram as luzes da meditação?
Os meus tempos privilegiam a passividade de ser…
Sonham com liberdade, mas são escravos das coisas materiais…
Deixei o barco correr, e agora estou em contínuo recolhimento interior…
Mas, em tempo, cultivo com intenso esforço a pura intenção do coração…
É possível planejar a vida de modo inteligente…
Por que gostamos de levar uma vida de escravos?
Trabalhar para juntar coisas da terra que não levaremos…
Abrirei a janela para que o sol me visite…
Deixei o barco correr e agora vejo o mundo com os olhos da fé…
Mas, em tempo, vejo o quanto é grande o que é divino… (Lúcia Regina Diniz Trindade)
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Alma de artista
Artistas são livres.
Não querem amarras ou regras.
Precisam de asas para voar.
Precisam sonhar, delirar.
Artistas são seres estranhos neste mundo
Cruel e cheio de maldades.
Não se preocupam com dinheiro,
Expressam seus sentimentos sem pudores.
Artistas são mágicos, poetas, escritores,
Que descrevem em palavras tudo que sentem.
Não têm medo de errar e se entregar a mais profunda melancolia.
Simplesmente para transformá-la em melodia.
Artistas precisam do escuro, do silêncio,
Da noite, da boemia, da paisagem, da calmaria.
Transformam toda a sua dor em poesia.
Bendito dom e sabedoria.
Artistas sofrem…
Precisam viver nos seus guetos, são incompreendidos.
Precisam dos seus iguais, mas transformam em arte o seu diferente.
Fazem política sem palanque e guerra sem armas.
Basta-lhes algumas cores e uma tela branca.
Artistas precisam da liberdade do traço.
Da folha branca, da tela branca…
Que vai transformando em cada pincelada tudo que devora a sua alma.
Tintas que transformam em denúncia, em rebeldia, em ousadia, em poesia.
Artistas vivem tão intensamente cada dia com muita paixão e euforia,
Expressando tudo que carregam na sua alma de artista.
Artistas são excêntricos, incompreendidos, mas são imortais. (Solange Diniz Filgueiras)
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Idade
Você me lembra
os anos sessenta
a juventude saindo pelos poros
a vida e seu futuro
Você me reporta
ao sonho do passado
à calça boca de sino
e um colar de couro
Você me inspira
a lua mais bela
a noite sem medos
e a canção infinita
John Lennon existia
o mundo trepidava
- Do you wanna dance?
E num baile
cuba-libre
éramos livres
para praticar a esperança
Você me tomou
em seus braços
e éramos feitos
da mesma matéria dos sonhos
Matéria frágil
- este lado virado para cima
- cuidado!
Soltei sua mão
e me perdi pelo salão
Eu queria
plantar uma árvore
escrever um livro
ter um filho
A árvore não vingou
meu livro encalhou por aí
- só as filhas brilham
Envelheci na cidade
- feliz aniversário para mim
que já não tenho idade (Marisa Bueloni)
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A dança das águas
O sol brilhava no céu azul sombreando as águas esverdeadas do mar…
Gota a gota as ondas reorganizavam-se em marolas.
Em fração de segundos, aproveitavam a química da brisa,
Emitiam o rugido de guerra, e atacavam com violência…
As ondas estraçalhavam-se contra o rochedo…
Que permanecia altivo sem agredi-las…
O sol desvendava a intimidade das águas, penetrando-as com prazer…
Era tanto o desejo de enfrentamento das ondas,
Que não importava que se partissem em mil pedaços…
Eram atraídas magicamente pela fortaleza do rochedo…
As ondas estraçalhavam-se contra o rochedo…
Que compreendia os ímpetos da curiosidade libidinosa…
Uma, duas, três, dezenas de ondas, sucessivamente enfileirando-se…
O mesmo ritual de força era repetido infinitamente,
Com o mesmo espetáculo da beleza da batalha pelo amor.
Eram aparadas sem serem magoadas pelo rochedo…
As ondas estraçalhavam-se contra o rochedo…
Que aceitava a amplitude e fertilidade das abordagens…
Quando muito altas e favorecidas pelo vento,
Batiam com estrondo e o rodeavam com enlevo,
Molhavam o rochedo de afeto por todos os lados, enlaçando-o,
Este era o grande alvo de amor das ondas…
As ondas estraçalhavam-se contra o rochedo…
Que se submetia à química da criação da vida…
Tanto as ondas quanto o rochedo gostavam deste jogo de sedução…
Na verdade ambos desejavam este relacionamento vulcânico de afeto.
A natureza mostra a força do amor com extrema lucidez,
Ambos gostavam de extravasar suas paixões com ímpeto…
As ondas estraçalhavam-se contra o rochedo…
Que entendiam muito do prazer da busca…
No alto do rochedo casais de gaivotas admiravam este relacionamento,
Totalmente seduzidas pelo jeito de amar do rochedo e das ondas,
Ficavam olhando com languidez este clima erotizante,
Embevecidos imitavam o amor entre as ondas e o rochedo…
As ondas estraçalhavam-se contra o rochedo…
Que se deixou envolver totalmente pelas ondas… (Lúcia Regina Diniz Trindade)
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Presente da Lua
Dez da noite. Me deito a contemplar
Irmanado aos viventes do Universo
Tudo estando em Deus envolto, imerso
Lua cheia em céu espetacular
De beleza e miséria a relembrar
E me vinham imagens de lá, daqui
Impactado fiquei, me comovi
Ouvi gritos de mães na Palestina
De Israel nessa empresa assassina
Vendo o brilho da Lua adormeci
No esconde-revela, eu vi a Lua
Já deitado, quedei-me a contemplá-la
Comovido, eu até perdi a fala
Ela deu-se-me inteira, intensa, nua
Nem preciso me foi ganhar a rua
Do meu leito, fruí seu brilho intenso
De fitá-la, eu até perdi o senso
Como é bom poetar em Lua cheia
Quando o brilho do astro encandeia
E me embala, sereno, em sonho denso (Alder Julio Ferreira Calado)
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Corpo
Meu corpo se toca como harpa
As cordas tocadas num harpejo
Puxando da ponta espinho e farpa
Soprando nas chagas com um beijo
Meu corpo na pauta da agonia
Compasso binário de solfejo
Meu corpo lutando noite e dia
A luta da cura que ensejo
O bálsamo do spray nas minhas costas
É cânfora no vale e nas encostas
Perfume da nota em pentagrama
A música é dor regida ao estro
É látego na palma de um maestro
É corpo que vive, sofre e ama (Marisa Bueloni)
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Os deuses também morrem*
Se tenho a alma sofrida e triste
vós me exigis a alegria artificial de um espantalho.
Se nasci feio e desprovido de encantos,
vós não me suportais e me bateis a porta na cara,
sem nenhum remorso, batendo as mãos,
indiferentemente.
Se vivo apenas do meu trabalho
e isto me traz felicidade,
vós me desprezais
porque sempre dependestes
do trabalho alheio
para poder viver.
Se após muito esforço
consigo esboçar um sorriso,
vós começais a escarnecer,
porque estou sorrindo
para aquém da alegria, amareladamente.
Sereis todos, por acaso, deuses?
E que não usam espelhos?
E por que, diabos, tenho eu de atender
a todas as vossas rígidas exigências,
para que possa ser aceito em vosso convívio?
Vós apenas fazeis exigências
sobre o que não posso modificar,
porque nasci assim,
defeituoso como um ser humano,
e mesmo que desejasse atendê-las,
nada poderia fazer,
pois que isto está além
da possibilidade de mudança.
Entretanto mesmo quando estou evoluindo,
construindo novas imagens de um mundo melhor,
nada disso vos interessa,
pois que estou fazendo
apenas aquilo que posso fazer,
com os elementos que tenho acesso.
E até mesmo os sonhos, a imaginação,
os alimentos do espírito,
são desprezíveis à vossos olhos,
porque é algo que ainda posso construir.
Neste mundo habitado e dirigido por deuses mortais,
eu sou mesmo incompetente
se disponho apenas dos sonhos e da imaginação.
Mas, ó deuses, imperfeitos arautos
da perfeição impossível!
Por que não consigo satisfazer vossos caprichos,
mesmo quando realizo alguma proeza,
ainda que pequena,
ainda que humana,
ainda que dentro das minha possibilidades?
Por que me condenais à estagnação perpétua,
e não podeis admitir que eu seja capaz
de criar a beleza de um outro mundo
que tentais insistentemente desconhecer?
Imagino o esforço que fazeis
para manter essa máscara divina,
presa à face exigente e fria.
Avalio o sofrimento por que passais,
ao tentar sufocar vossas limitações humanas,
para poder exigir de nós,
a postura de super-homens.
Se algo existe a nos separar
é apenas uma linha frágil,
entre os que aceitam as limitações humanas
e os que se sentem ridículos
sendo apenas meramente humanos. (Douglas Carrara)
*Homenagem a Fernando Pessoa
Poema publicado anteriormente em:
“Boletim da Banca do Pó-etá” – Nº 12 – DEZ/88 – Rio de Janeiro (RJ)
“Poesia & Prosa” de Marisa Fillet Bueloni – JUL/88 – Piracicaba (SP)
“O Vale do Aço” – JUL/88 – Cel. Fabriciano (MG)
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Porta giratória
- Tem celular?
- Tenho!
A porta não girou
- Tem chave?
- Tenho!
A porta não girou
- Tem alicate de unha?
- Tenho!
A porta não girou
- Tem tesourinha?
- Tenho!
A porta não girou
- Tem MP3?
- Tenho!
A porta não girou
- Por favor me dê os brincos!
A porta não girou
- Por favor a aliança!
A porta não girou.
- Por favor a fivelinha da sandália!
A porta não girou.
- Por favor o piercing no umbigo!
A porta não girou.
- Tem piercing no seio?
- Tenho.
A porta não girou.
- Por gentileza, o prendedor de cabelos!
A porta não girou.
- Por favor o relógio!
A porta não girou.
- Por favor essa platina na sua perna!
A porta não girou.
- Por favor, pare de mancar, limpe o sangue. Tem marca passo?
- Tenho.
A porta não girou.
- Por favor pare de girar!!!
A mulher parou. (Lasana Lukata)
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Mentiras
Mentiras!
Cubram o mundo todo com mentiras!
Não deixem por piedade,
Que a verdade
me derrote,
me machuque,
me transforme,
me interfira!
Sou apenas uma menina medrosa,
parada e sózinha,
no meio do caminho!
Não quero tempestades,
abismos e espinhos!
Quero fantasias, alegria!
Céu,
Nirvana,
Ilha encantada!
Quero sonhos perfeitos
ao alcance de minhas mãos,
logo ali,
na primeira curva da estrada!
Quero mentiras!
Só mentiras!
Todas as melhores
até hoje
vividas e inventadas.
Quero que me dêem muitas mentiras,
só mentiras,
e não preciso de mais nada! (Dirce Ramos de Lima)
.
Astral
Hoje voei
Não voei mais
porque não quis
Subi até onde
sou aprendiz
A Terra era um ponto
no infinito azul
E lá do alto
eu vi Cabul
Hoje voei (Marisa Bueloni)
.
Hoje
As lágrimas que correm em meu rosto
Advindas do desgosto
Do peso de uma cruz que obrigado a carregar fui
Apesar do amor que se dilui
O tempo levou meu frescor
Endureceu meu ser com a dor
Profunda, dilacerante, odiosa
Desta vida sem verso nem prosa
Onde estará a paz
Nesta vida que não se refaz?
Onde estará a languidez
De uma existência sem vez?
Amor e desejo aberto
Indiferença e mágoa como num deserto
Morte que te vejo
Luz e sombra, não te desejo
Tentei, trabalhei, briguei
Pelo que amo lutei
Uma batalha sem fim
No repetir de um triste festim. (Adílio Jorge Marques)
.
O tempo
Ponteiros dobrados.
Impessoal é o tempo de habitar.
Rugem as horas, dias e noites esquecidas
No liceu da memória. Perdida em mim,
A sede de lembranças agarra-se ao pó.
Estou noite. Vento as estrelas
Atinando uma infância muda.
Ah! Farta é a ilusão do destino,
Agora, o medo torna-se amigo fiel
Das rugas, manchas na pele e dúvidas
Do que não me lembro mais.
Tic-tacs me adormecem.
No escuro-vazio borboletas copulam saudade
Enquanto minhas pernas-mudas gritam passado.
Ainda cheiro a tabaco mofado e
Arroto meias-palavras ao vento ponteiro:
Reinvento a moral que nunca me serviu.
No ocaso do dia, cisco ventos
Compondo sinfonias aos que partiram.
Verto últimas horas e me cubro carmíneo.
Impregnado da ferrugem do tempo
Resta-me a inércia de respirar. (Fátima Venutti)
.
Poematerapia
Quero uma poesia
farmacêutica
de propriedade
terapêutica
Um verso
consolador
suave antídoto
para a nossa dor
De princípio ativo
que encoraja e anima
testado e aprovado
na eficácia da rima
Poesia de farmácia
de manipulação
- vê aí esta fórmula
para aliviar meu coração
Ai, hoje acordei
com um humor maledeto
- embrulha três cápsulas grandes
de um belo soneto
Por Deus do céu
estou que não me aguento
- tem aí aquele pote milagroso
do Poema Unguento?
Moço, ando sem sono
sem ideia e sem destino
- preciso de uma caixa com 30
de um bom alexandrino
Longe da dor de viver
o corpo dança um mambo
- aqui ainda se vende o emplastro
de um antigo ditirambo?
Parece que vaguei pelos mares
o meu corpo aderna
- me dá um vidro, por favor,
de poesia moderna
Minha alma oscila
não sabe se voa ou se cai
- quero aquelas gotinhas
do melhor haikai
A vida quase sempre
nos põe à prova
- para acalmar os nervos
um bom chá de trova?
Quero esta poesia
do verso que cura
cujo efeito é rápido
e dura, dura, dura… (Marisa Bueloni)
.
O tudo e o nada
Nas montanhas da Iniciação
Existe o amor
Nas montanhas do Amor
Só há um caminho
Àquele que leva a DEUS
Este caminho não é infinito
Infinitas são apenas as suas formas
Porém, Único é em essência
Infinito somente ELE o é
Na luz maior está o que procuras
Na luz divina está o amor
O amor dos desesperados
Porém, não o desespero do amor
Na Senda da vida
Escolhes teu caminho
Caminho este que te leva a Ele
Muitas são as Suas Moradas
Mas poucos serão os escolhidos
Aqueles que pegam os atalhos
Se perdem no emaranhado
Das possibilidades
De chegar até o fim
Ao encontro dele com Ele mesmo
Sem apegos e sem mágoas
No sentido maior da vida
Está AQUELE que nos espera
É DEUS
O Pai
O Filho
E mesmo a Mãe
Pois Ele É
O tudo
O nada
O Alfa e o Ômega
Da Criação
Entre as marés da vida universal… (Adílio Jorge Marques)
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Triagem
Rio de Janeiro,
muitas de tuas casas
foi meu avô quem fez;
muitas de tuas casas
foi meu pai quem fez;
muitas de tuas casas
foi meu irmão quem fez;
e chegou a minha vez…
mas vieram certas mãos me separando
da marreta, do ponteiro e me dando
uma peneira toda azul e desde então
passo a noite peneirando estrelas
mesmo as estrelas têm de ser peneiradas. (Lasana Lukata)
.
Não é nada
Não é nada,
meu amor
só um pouco
de dor
Não é nada,
vai passar
quando eu for
me deitar
Não é nada,
por favor
só um leve
tremor
Não é nada,
um mau jeito
e um aperto
no peito
Não é nada,
amanhã
eu levanto
boa e sã
Mas se o dia
raiar
e eu não
acordar
Seja lá
como for
não foi nada,
meu amor (Marisa Bueloni)
.
Equações
Na luta pela vida
Retas e curvas que se integram
Raios diametrizados que buscam
O toque do amor que acedia
Equações que diferem
Na noite, no dia
Transformações que nos levam
À busca da igualdade dos que amam
Igualar o impossível
Axiomas e leis traduzidos
Formatos que nos cercam
Levam dois ao um
O um a nenhum
Todos que nos amaviam
Torna o amor um ambaquista
Habilidoso na arte do final
Da conquista sem integral
Do nenhum
Que pensa ser um
Da vida sem conquista
Da esperança sem vista (Adílio Jorge Marques)
.
Versos Íntimos
Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija! (Augusto dos Anjos)
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A Defesa de Deus
Por que espanto, ó buscador, com a divina obscuridade?
Por acaso imaginas que este abalo interno,
Exteriorizado pela selvageria e maldade
Não acoberta a bela face do Eterno?
O sofrimento humano e as chagas que abominas,
Têm as marcas das armas que os provocaram:
As emoções violentas, que também são divinas.
Por que não procuras no íntimo aquilo que te afetou?
Em teu próprio interior estão, junto com o Cristo,
A injustiça, a violência e outros dramas que assisto.
Reflita sobre ti e verás o que passa em teu coração:
Fantasias que não inventaste,
Mas que vieram a ti por arrebatadora revelação.
Porém saibas que antes de tornares ignóbil,
Manifestavas uma total sinceridade,
Que ainda está aqui em ti, com plena docilidade.
Que é do contrato que denunciaste?
O pacto quebraste!
O esforço em fazer tua voz mais alta que o Logos é em vão,
Pois Sua sabedoria penetra em tudo no Universo;
Use-a para tua reflexão.
Não vês o esforço que Ele faz em aproximar-Se de ti?
Que foi assim que Se transfigurou para tornar-Se Homem
E aqui vir para dizer o que teimas em esquecer?
Teu sofrimento significa a reconciliação com Ele;
Não houve injustiça praticada contra teu ser.
Não te revoltes!
Por trás do comprometimento de Deus há um motivo profundo.
O mal é o produto do processo vital de formação de tuas cascas.
Não te apoquentes com o termo “queda dos anjos no mundo”,
Ou com a inquietação do inconsciente,
Nem com o diluvio que ocorreu sobre teu consciente.
A instabilidade divina é condição para criação; é Energia emergida.
O processo expansionista pleromático é o cerne da Árvore da Vida;
É tão doloroso quanto o retorno ao Uno.
Transforma-te no Homem-Espírito
Mediador entre Deus e o homem-animal!
Não represes tuas afeições repulsivas;
Não vês que jamais seremos perfeitos?
Não esqueça de nenhum pesar degenerado em tuas reflexões,
Pois serão transmutados em ressentimentos.
Só servem para fazer irromper negatividades essas paixões
E impedem a manifestação de emoções positivas:
Humildade, tolerância, Amor Cristão…
Não vês que para Jerusalém ser construída
É necessário que destruas a Babilônia corrompida?
Se queres ser um eleito tens de tornares a virgem Sofia.
Caminhamos para as núpcias sagradas em que o céu se unirá à terra.
Deus voltará a ser o hermafrodita primordial em máxima universalidade
Mas cuidado com a ampliação súbita de tua consciência,
Esse segundo nascimento é a vitória de Deus sobre Si mesmo.
Ele quer que voltes a ser criança, em quem os opostos são magia
De uma perfeita e singela harmonia. (Luiz Carlos Fraga)
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Gavetas da vida
Resolvi arrumar as gavetas da minha vida.
Um novo ano se aproxima e preciso jogar todo o lixo fora.
Fiquei com medo de abrir algumas, confesso.
Mas, preciso ser forte e encará-las de frente.
Nessa cômoda cheia de pequenas gavetas guardei muitas alegrias, frustrações, decepções, amores, uma história de vida.
Não resisti e corri para abrir a que guardava os meus sonhos de menina.
Aquela que via um mundo tão cor-de-rosa.
Ah! Como tudo vem à tona como se estivesse vivendo aquele momento…
A menina que sonhou com o príncipe encantado no cavalo branco,
Quis ser astronauta, viajar mundo afora e tinha a curiosidade no olhar.
Cresceu, mas nunca desistiu de sonhar e alcançar as estrelas.
Na segunda gaveta encontrei uma adolescente rebelde,
Que brigava pela liberdade com toda a sua força juvenil.
Mergulhou nos estudos e não parou mais.
Queria mais e mais da vida. Tudo que ela pudesse lhe oferecer.
Começou a trabalhar ainda muito jovem, amadureceu rápido.
A vida fez dela uma mulher, não sei se ainda preparada para isso.
Na outra gaveta: os amores. Talvez a gaveta mais temida…
Não foram tantos, mas tão intensos quanto os sonhos de menina.
Muitos erros, dores e pranto.
Fechei-a rápido… Não é fácil abrir essa gaveta
Há um grande amor perdido nela.
Talvez seja a caixinha de Pandora que ainda espera a volta do amor perdido.
A gaveta que guardou a mulher que se casou e constituiu família
Parecia emperrada…
Mas, muito cedo essa mulher descobriu que pra sempre, sempre acaba.
Enfrentou de frente todas as traições, jogou tudo fora para recomeçar sem olhar para trás.
Acreditando na força dessa mulher e contando apenas com ela.
Não foi fácil, é verdade. Mas, sempre há tempo para recomeçar e tudo valerá a pena.
Outra gaveta: a profissão.
Uma estrada sinuosa para encontrar a verdadeira vocação.
Muito tempo perdido? Não sei… Acho que não me arrependo de nada.
O mais importante dessa gaveta é a louca coragem de largar uma carreira já estabelecida
Para investir numa nova e cheia de desafios em busca da felicidade.
Muitas pedras no caminho, mas retirei-as rapidamente para continuar a caminhada.
Acreditando todos os dias no meu talento.
Ah! A gaveta da família…
Complicada, com muito mofo, traças e preconceitos.
Uma batalha para provar para todos o talento de uma artista.
Essa gaveta merece uma limpeza extra.
Já quebrei muitos padrões de família, mas eles parecem não ter fim.
A cobrança é interminável.
A gaveta da aparência…
Não gosto mais do que vejo.
Vivi para o outro e esqueci de mim.
Preciso recuperar o tempo perdido e investir em mim imediatamente.
Quero voltar a ver a menina que sempre fui.
Preciso me dedicar mais a essa gaveta no próximo ano.
Tenho de abrir a gaveta do tempo.
Mas, estou com medo… Há um passado que não gosto de relembrar.
Será que as feridas já estarão cicatrizadas? Estou paralisada.
As decepções da vida me impedem de encarar a gaveta do tempo.
Prefiro deixá-las lá onde estão.
Que fiquem guardadas a sete chaves, bem no fundo da gaveta!
Não é hora de tocar nas feridas.
É preciso estar muito forte para encará-las sem medo.
Abro num outro momento… Que criem mofo e estraguem…
A gaveta dos amigos!
Nossa! Está repleta! Que gaveta linda! Que amigos lindos!
Como foi bom conhecê-los.
Eles são meus tesouros. Presentes que a vida me deu.
Estão sempre ao meu lado e me fazem rir e chorar.
Quantos amigos conquistei! Sou uma afortunada!
Ainda há muitas gavetas: da saúde, do trabalho, dos prazeres, dos inimigos, dos fãs, da palavra não dita, do arrependimento, do isolamento, da solidão, das viagens, do amor não correspondido…
Não quero mais abri-las. Quero encher novas gavetas! Quero o futuro!
Quero a vida! Quero novos amores, novas viagens, novos amigos!
E que venha o ano novo com todas as suas maravilhosas incertezas e esperanças. (Solange Diniz Filgueiras)
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Chamas
As nuvens atropelam-se…
Raios explodem…
Todos procuram o néctar da vida…
E a grande jornada prossegue…
Roberto reorganiza o fogo, que crepita,
Enviando um aviso claro de que é impossível,
Alguém se desligar de seu mundo interior.
Jane olha-o interrogativa…
Em silêncio permanecem, protegendo-se um do outro,
Temem as muralhas de hostilidade.
As chamas confirmam vitalidade,
E ordenam que se repense a realidade,
Tal como ela é,
Sem desvios… sem fugas …
- Jane, vou te fazer uma confissão…
- Não agüento mais, estou implodindo de tensão…
- Ninguém tem culpa alguma…
- Obrigatoriamente, eu carrego esta sina pesada…
- Necessito revolver-me para me libertar deste suplício…
- É assim que amplio as motivações criativas.
- Ficar em prontidão subjetiva…
- Então surgem as expressões de sentimentos fortes…
- Então surgem as expressões de sentimentos profundos…
- Reencontro vigorosamente a minha consciência interior.
- Queria ser mais direto em renovações motivacionais…
Ultrapasso estágios…
Torno-me no que sou…
O maior patrimônio é a mente…
Responsabilizo-me pelas suas chamas…
- Jane, eu tenho certeza absoluta,
- Que acreditar nos meus sinais interiores
- É fundamental…
- Eles pululam no meu imaginário…
- É o meu subconsciente que exige impulsos sábios…
- Então as auto-realizações não acontecem…
- O caminho é acreditar nas minhas intuições.
- Elas querem expressar-se…
- Elas exigem a minha concentração…
- Se eu conseguisse relacionar-me com elas,
- Eu seria feliz…
- Eu me respeitaria muito mais, seria mais alegre…
- Demonstraria mais talento de viver.
- Mas não desistirei jamais…
- Desenvolverei passo a passo mais abertura
- A esta experiência renovadora de ser.
- Exercito a maior paciência do mundo,
- Para aceitar esta modificação de emoções…
- E escolher entre cem mil possibilidades,
- As melhores que me tornarão mais consciente…
- Aquelas que me gratificarão…
- Preciso achar os sentimentos de felicidade…
- Quero conhecer as suas raízes…
- Sentir-me-ei bem humorado…
- Enfrentarei tudo o que vier corajosamente,
- As minhas sinapses não entrarão em desordem…
- E eu mesmo me darei um diploma:
- “Troféu interioridade magicamente saudável”.
- Então vivenciarei paz duradoura.
- Admiro as pessoas que participam adequadamente
- De formas sãs de vida.
- Decidi não ser uma pessoa invejosa,
- Acho a coisa mais triste do mundo…
- Com muito esforço aprendo a ser responsável
- Por meus sentimentos de inferioridade,
- Conscientizando-me de que também tenho dons…
- Reconheço que são simples,
-Mas são os meus dons…
- Reconheço que o amadurecimento emocional pode surgir
- Respiro fundo e deixo que aconteça…
É maravilhoso
Sentir o palpitar
Das impressões positivas.
Só elas me motivam…
- Jane, ontem, enquanto fazia a corrida matinal,
- Admitia ter atingido um degrau social bom…
- Sou economicamente independente…
- Sei que o meu forte é ser responsável…
- Só o que me falta,
- É compreender-me melhor…
- Não me agrada a minha rebeldia imprópria…
- Quero transformá-la numa potencialidade positiva…
- Tirar de dentro dos meus pensamentos
- O medo e a hostilidade com as outras pessoas…
- É uma raiva que se avoluma…
- E às vezes vejo-me em dificuldades,
- De tal jeito que chamo secretamente,
- Todos os que cruzam o meu caminho
- De antas, e grito alto dentro de mim:
- São burras, então se estrepem…
- Fiquem bem mal, não estou nem ligando…
- Depois eu penso e repenso,
- E vejo que ninguém tem culpa…
- São defesas que me atropelam com violência…
- É o triunfo do impulso sobre a razão…
- Esta mágoa corrói a minha alma…
- Tenho que ser eu mesmo…
- Ser honesto com as minhas emoções negativas e trocá-las.
- É preciso lutar para ser equilibrado.
- Deixar que as minhas boas intenções libertem-se,
- Então eu me sentiria mais purificado.
- Admito que a mudança é ameaçadora.
- Admito que a percepção de si mesmo,
- Desperta fortes reações emocionais.
- É aqui que eu acho que erro gravemente.
- Compreender-me melhor é complexo…
- Mas não têm nada a ver
- Em detonar as outras pessoas…
- Aonde será que aprendi a ser destrutivo?
Estímulos interiores
Forçam o auto-conhecimento.
São tempos
De confiar no próprio valor.
- Roberto, eu não penso outra coisa,
- A não ser valorizar os meus esforços.
- Hoje, em São Francisco de Paula,
- Caminharei em trilhas com obstáculos,
- Mais ou menos duas horas…
- Sozinha com minhas abstrações…
- O meu tema é conhecimento e sentimento…
- Li bastante sobre o tema, e já elaborei as conclusões…
- As quais são absolutamente positivas.
- Isto eu faço uma vez por mês
- Há longos dez anos…
- É assim que fortaleço a minha identidade…
- Sinto necessidade imensa de nutrir
- O sistema imunológico da minha consciência.
- Invisto na harmonia espiritual
- Para elevar os meus padrões de pensamento…
A maravilha de viver…
É considerar-se solidária…
Livre totalmente
Da cultura competitiva…
- Roberto, o que eu acho importante
- É dedicar um bom tempo da minha vida
- Para nutrir a minha capacidade de imaginação,
- Só esta competência pode me salvar.
- Aceitar as minhas auto-avaliações…
- Buscando sempre novos desafios,
- Ativando uma mentalidade de continuada melhoria.
- O que vale?
- É o que eu acredito, aqui é o ponto essencial,
- É neste porto seguro que eu me agarro
- Com todas as minhas forças…
- Sem vacilações…
- Invade-me um receio extremo,
- Imaginar-me fracassando espiritualmente…
- É uma irresponsabilidade brutal…
- Construir a própria derrota.
- Apelo-me por capacidade de imaginação solidária,
- Tenho o maior cuidado…
- Cobro-me um alto preço
- Pela habilidade de estruturar idéias alicerçadas na bondade,
- Elevo o nível da consciência…
- E vou levando.
- De vez em quando caio fora da estrada.
- Imagine se eu me descuidasse.
- Mas reconheço que construir um imaginário sadio,
- Numa cultura deprimida e que se materializou,
- E que esqueceu de Deus…
- Não é fácil viver sem as forças transcendentais…
- Porque o padrão vibratório negativo é muito alto.
- E eu sinto que eles só faltam me dizer:
- “Estás comemorando o quê”?
- Em pensamento eu respondo:
- Só quero sobreviver espiritualmente.
- Almejo reencontrar-me
- Como alma que acredita em Deus.
O jardim está florido…
É emocionante…
A alegria das flores.
Que me ensina como ser feliz…
- O tempo melhorou,
- O sol surgiu…
- E trouxe a harmonia energética…
- Ideal para um passeio introspectivo.
- Roberto, gostei muito da tua visita.
- Fazia tempo que não nos víamos.
- Mas falamos de metas do presente,
- Ampliando possibilidades de experiência,
- Desenvolvendo novos sentidos de olhar a vida,
- Aumentando a capacidade de contato com os outros,
-Interpretando os acontecimentos de crescimento espiritual…
- Eu sou um ser que precisa espairecer…
- Não consigo ficar confinada…
- Necessito da natureza selvagem…
- Roberto, eu te desejo tudo de bom…
- Volte sempre quando quiseres…
Sentir-se autêntica
Para entrar
Nos caminhos motivantes
Da capacidade de auto-realização…
Caminho sobre cascalhos, a subida é longa…
A tarde é acolhedora,
Em uma hora chegarei ao centro de estudos.
Trocarei idéias com outras pessoas,
Que também buscam cultivar a autoconfiança.
Aqui valem a autocrítica e a auto-expressão,
A auto-apreciação é básica…
É preciso dar espaço para que as idéias surjam,
Que aparecem com boa qualidade,
Quando procuro formas de motivação interiores.
Elas chegam límpidas e profundas,
Percebo que cresço nas dimensões do ser.
Fica fácil alcançar a autonomia…
Estou certa, em nível consciente avanço…
Descubro significados para acreditar em novas opções…
Eu mesmo quero resolver os meus problemas,
Porque transferir problemas
Tristemente é a marca de meus tempos…
A saída triunfal.
É concentrar-se positivamente,
E assim arrancar
Mudanças e mudanças…
A caminhada continua árdua…
Além do calor…
Além de buracos nas trilhas…
É o cansaço que me ameaça…
Diminuo o ritmo e vou tocando,
Enfrentarei abertamente os meus conflitos,
Não adianta sepultá-los, pois voltam sempre.
Os auto-enfrentamentos são benéficos.
A vida muda para melhor.
Preciso aceitar idéias de renovação,
E também sugerir algo novo…
Preciso evoluir espiritualmente.
Centrar-me numa visão otimista de vida.
Não há limites para o conhecimento interior,
Estou procurando orientar-me para a verdade,
Em novos modos de procedimento reflexivo.
Tudo no mundo é espiritual…
Sempre peço a Deus com fervor
Para conhecer a realidade da alma.
A evolução do ser é um fato…
O prazer de saber é tudo…
A expansão da consciência
É gradual…
Meu anseio é forte…
Receberei esta graça…
Cheguei após uma hora e quarenta minutos.
O Dr. Felter nos recebeu com alegria.
Somos em três moças e dois rapazes.
Todos nós procuramos padrões individuais criativos,
Em pedacinhos desconhecidos de nós mesmos…
Discutiremos a lei dos fatores,
Que diz:
O pensamento é conhecimento e sentimento.
O que dá força ao pensamento é o sentimento…
E se faltar nada de novo acontecerá.
É a verdade afetiva em nossas experiências.
A purificação de nossos sentimentos
Faz brotar as excelências internas.
Entraremos num mundo de amor…
Entraremos num mundo de luz…
Seguiremos em novas direções…
Abriremos tudo à indagação pulsante…
Objetivos existenciais,
Ciclos com beleza e qualidade.
A batida da fé
Ecoa forte… (Lúcia Regina Diniz Trindade)
.
Excelsa
Então, ela se deu conta:
a vida só lhe trouxera sofrimento,
desgosto, lamento,
cansaço e maltrato.
Para quem ansiava pela glória,
contava a si mesma
a prosaica história
do anonimato.
Quem precisa de glória, afinal?
Na pensão pobre – um respeitável teto –
tinha por companhia e carinho
um gato rejeitado e magrinho,
à guisa de afeto.
Lavar a transformação da face
na água fria da torneira a cada manhã,
encolher-se sob o velho cobertor na cama vasta.
Para quem amava viver,
alimentava a ilusão de que na vida
a própria ilusão da vida basta.
Um caderno grosso
- ah, velho amigo! –
lotado de poesias escritas pelos rodapés e margens,
era seu guardado mais antigo.
Para quem idealizou a sorte
da imortalidade,
restava a certeza de encontrarem seus versos
após sua morte,
íntimo legado à posteridade.
Avental puído, esperança gasta,
partiu desta vida ingrata,
não deixou ouro nem prata,
era um anjo etéreo.
Sem atrativos e sem sucesso,
sem nunca ter cometido o menor excesso,
penando na terra as anemias,
brandiu seu espírito no céu
à procura de melhores dias.
Deus surgiu no patamar da entrada celestial
e abraçou-a de um jeito especial,
dizendo: “Entra, aqui tua glória será eterna,
és bem-vinda,
terás um pódio para cada perna.
Escreveste em silêncio a anônima dor,
aquela que honra o Meu amor
e receberás o prêmio eterno.
Aqui todos te conhecem, amada,
publicou-se no céu o teu caderno”. (Marisa Bueloni)
.
Águas Poluídas
Arvores queimadas,
Pássaros sem ninhos,
Rios sem peixes,
Crianças com fome,
Animais em extinção,
Fontes escassas,
Culpa do homem
Por essa destruição.
Águas da vida,
Natureza divina…
Tão maltratada
e mal compreendida,
Imbecilidade crônica
Cegos ele não enxergam…
Essa exterminação!
Que venha uma luz
Em forma de poesia ou oração,
Uma metamorfose,
despoluição de mentes… ação!
Salvação do planeta
Ou sua fragmentação. (Amaro Pereira)
.
Fim
Interesses, mentiras, maniqueísmo?
Ou desinteresse, sinceridade, altruísmo,
Ego, um, muitos, próximos ou não
Tudo, junto, separado, oposição
Apenas filhos amo
Nos sentimentos que derramo
Acabou, onde antes havia eternidade
Resta traição e saudade
Tempo que não volta
Paixão que não volta
Alegria que se perdeu
Amor que se perdeu
De graça, sem luta
Quase tudo, na disputa
Mas, restou alguma esperança?
Talvez, no coração de criança… (Adílio Jorge Marques)
.
Nosso Amor Proibido
Digo que partirei meu amor, não posso ficar
ao seu lado, nosso lindo romance é proibido!
Já não posso hesitar, vacilei bem sei, sonhar
não é permitido a nós, vivemos noutro mundo.
Restrições encontrei no meu caminho,
vivo outra vida, outras crenças, obedeço
minha raça, sigo regras do pergaminho
ditado por antepassados, permaneço
firme dentro da minha fé! Há a ilusão
dentro da vida, não posso ficar, partir
é o destino levando comigo a paixão,
cárcere de minha escolha, me consumir
de amor por longos anos, não hesito,
sinto medo de fraquejar, por isto parto,
sombras andarão comigo de momento
a momento recriminando, será tormento! (Marta Peres)
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Liberdade
Liberdade é o mar que beija a areia,
O céu livre em espaço triunfal.
A noite plena de estrelas, a lua derradeira,
O dia imenso de luz, o toque divinal.
Liberdade é um sonho SEM FRONTEIRAS,
Um coração que pulsa, vibrando de emoção.
Um amor intenso, rompendo barreiras,
vencendo os limites do próprio coração.
Liberdade é o amor que renuncia,
Em benefício de um outro amor igual.
Um gesto simples que abafa o egoísmo,
Apaga o ódio, perdoa todo o mal.
Liberdade é enxergar além dos olhos,
Olhar o mundo com total compreensão.
É ver a vida além da própria vida.
E libertar-se de si mesmo,
Grilhão por grilhão! (Eurídice Hespanhol)
Poema premiado no IV Festival do Sindicato dos Escritores do estado do Rio de Janeiro(SEERJ).
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Regresso ao Lar
Ai, há quantos anos que eu parti chorando
Deste meu saudoso, carinhoso lar!…
Foi há vinte?…há trinta? Nem eu sei já quando!…
Minha velha ama, que me estás fitando,
Canta-me cantigas para eu me lembrar!…
Dei a volta ao mundo, dei a volta à Vida…
Só achei enganos, decepções, pesar…
Oh! a ingénua alma tão desiludida!…
Minha velha ama, com a voz dorida,
Canta-me cantigas de me adormentar!…
Trago d’amargura o coração desfeito…
Vê que fundas mágoas no embaciado olhar!
Nunca eu saíra do meu ninho estreito!…
Minha velha ama que me deste o peito,
Canta-me cantigas para me embalar!…
Pôs-me Deus outrora no frouxel do ninho
Pedrarias d’astros, gemas de luar…
Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!…
Minha velha ama, sou um pobrezinho…
Canta-me cantigas de fazer chorar!
Como antigamente, no regaço amado,
(Venho morto, morto!…) deixa-me deitar!
Ai, o teu menino como está mudado!
Minha velha ama, como está mudado!
Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!…
Cante-me cantigas, manso, muito manso…
Tristes, muito tristes, como à noite o mar…
Canta-me cantigas para ver se alcanço
Que a minh’alma durma, tenha paz, descanso,
Quando a Morte, em breve, ma vier buscar!… (Guerra Junqueiro)
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Jovens, amantes e apaixonados
A Ninfa sempre presente,
nos bosques..rios e fontes,
inspiração de jovens amantes
aprendizes e apaixonados,
cantantes e falantes…
adorados,desejados e amados.
Grandes amores da história,
Tristão e Isolda… Romeu e Julieta…
de Abelardo e Heloísa,
Todos viveram uma grande paixão..
e esses jovens amantes…
dão vida ao coração.
Os Deuses Gregos e Romanos,
Zeus…Jupiter….Apolo…Vênus…
Artemis…Diana…Dionisio..Baco…
em defesa dessa nação,
jamais serão derotados,
defendendo esses Jovens,
Amantes e Apaixonados. (Amaro Pereira)
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O Sal da Terra
O que é o sal no corpo das salinas?
O sal é a morte vestida de branco
Cheia de encantos
O sal é lágrima desta viagem em mim
Através de outros prantos
Poço da alma
Fundo de só se chegar despido e só…
O que é o sal na alma?
O sal é o fundo e a superfície de estar não estando
Cor e luz e corte e planos
O sal é chama invisível
Como a palavra
O sal não engana: mata e conserva
Sim, o sal é também ausência de objeto
Quando vem diluído nos temperos
De só se sentir
Mas não se ver
Mas o sal, nas salinas, é mais:
Obra de arte geométrica
Concebida pela ação dos homens
Obra viva, inacabada, faminta…
Porém, o sal fora das salinas é mais ainda:
Viaja refinado em pequenos sacos
Entra no sangue de todas as classes
Retém a água, aumenta a pressão e mata.
O sal tem um lado bom?
Lágrimas do coração!
O sal tem muitos lados:
O lado de fora e o lado de dentro
O lado que está atrás e o lado que vem à frente…
Eu passarei, tu passarás –
Nos tornaremos o sal da Terra. (Cacau Leal)
Poesia publicada no Perfil 2007, da APPERJ – Oficina Editores (trecho extraído do livro “Cabo Frio: o vento fala” – 2005).
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Satisfação
Eu almoço sonetos
De sobremesa uma quadra
Bebo tercetos
Lancho Haikais
Coloco na xícara
Rimas de sonhos
Sinto no rosto
a brisa leve de um
dodecassílabo inusitado…
Aborto todas as métricas,
Dissimulo réplicas.
E a noite,
Embriago-me com todos os goles
De versos livres
Da forma mais sã
Porque poesia
Tem que ter todo dia
E ainda sobrar pro café da manhã… (Eurídice Hespanhol)
.
Esperança
Já se avizinhava a noite e chovia, rodava
com violência águas do mar, paisagem
no tom cinza quase negro emprestava
ao céu uma tristeza soturna, miragem
deitava dentro dos olhos fazendo lágrimas
rolarem cascateando o rosto. Imensidão
meu sofrer, já não divisava lá fora gaivotas
passeando nos céus, cobrindo a imensidão.
Flores do jardim se quebravam pelo soluço forte
do vento, pétalas caídas sendo machucadas,
jogadas de lado para outro, dolorosa sorte
vivia naquele momento, borboletas cansadas
partiram em busca de novo sonho dourado,
busquei no pensamento meu viver risonho,
o amor calmo e terno, senti frio, vi acabado
quimera e ilusão, me agarrei na esperança. (Marta Peres)
.
Pecador contrito aos pés do Cristo crucificado
Ofendi-vos, meu Deus, é bem verdade,
verdade é, meu Senhor, que hei delinquido,
delinquido vos tenho, e ofendido
ofendido vos tem minha maldade.
Maldade, que encaminha a vaidade,
vaidade, que todo me há vencido,
vencido quero ver-me e arrependido,
arrependido a tanta enormidade.
Arrependido estou de coração,
de coração vos busco, dai-me abraços,
abraços, que me rendem vossa luz.
Luz, que claro me mostra a salvação,
a salvação pretendo em tais abraços,
misericórdia, amor, Jesus, Jesus! (Gregório de Matos Guerra)
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A Jesus Cristo Nosso Senhor
Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,
Da vossa piedade me despido,
Porque quanto mais tenho delinqüido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.
Se basta a vos irar tanto um pecado,
A abrandar-nos sobeja um só gemido,
Que a mesma culpa, que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.
Se uma ovelha perdida, e já cobrada
Glória tal, e prazer tão repentino
vos deu, como afirmais na Sacra História:
Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada
Cobrai-a, e não queirais, Pastor divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória. (Gregório de Matos Guerra)
.
Caralho do Muleiro é feito de papelão, arreita pelo inverno, para foder no verão.
O Muleiro, e o Criado
tiveram grande porfia
sobre qual deles teria
mor membro, e mais estirado:
pôs-se o negócio em julgado,
e botando ao soalheiro
um, e outro membro inteiro,
às polegadas medido,
se viu, que era mais comprido
O caralho do Muleiro.
Disto Criado apelou,
e foi a razão, que deu,
que o membro então mais cresceu,
porque então mais arreitou:
logo alegou, e provou
não ser bastante razão
a polegada da mão
para vencer-lhe o partido.
que suposto que é comprido,
É feito de papelão.
Item sendo necessário,
disse mais, que provaria,
que se era papel, se havia
abaixar como ordinário:
que o membro era mui falsário
feito de um pobre quaderno,
tão fora do uso moderno,
que se uma Moça arreitada
lhe dá no verão entrada,
É para foder no inverno.
E que depois de se erguer,
é tão tardo, e tão ronceiro,
que há de mister o Muleiro
seis meses para o meter:
porque depois de já ter
aceso como um tição,
engana a putinha então,
pois pedindo a fornicasse,
lhe dizia, que esperasse
Para foder no verão. (Gregório de Matos Guerra)
.
A Razão do Poema
Do que é feito o poema?
Barro de essência invizível?
Nuvem de tons arcoirizados?
Elementos dispersos,
Pelo poeta magnetizados?
Ou densa identidade
de expressão incontida?
O poema é amante,
Sentimento levitante
Viagem santa e atrevida
Pulso de um sonho em prece
Aborto, parto, nascente.
O poema é só palavra
E o poeta: inconseqüente… (Euridice Hespanhol)
Poema premiado no Concurso Francisco Igrejas (APPERJ), Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro – 2007.
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Cabo Frio:o vento fala
Cena XXVI
Ali na Costa do Sol,
o anjo negro Gabriel,
arquiteto do inconsciente redemoinho
de muitas vozes a indicar-lhe um caminho
para além da morte,
petrificou flores fora que o petrificavam dentro,
deu formas a flores ignotas.
Os moinhos em movimento, flores suspensas girando no ar,
ele pôs lá na “Casa da Flor”;
seu espírito girando, seus sonhos,
sua imaginação crescendo e girando e o sol girando,
crescendo num sem fim circular de hélices
ele pôs lá na “Casa da Flor”;
um deus que precisa ter os seus pedaços reunidos,
colados explodidos em flores,
“tudo caquinho transformado em beleza”,
ele pôs lá na “Casa da Flor”;
e quem viesse, de onde viesse
com os seus ossos quebrados,
as suas linguagens incompreendidas,
as suas almas despedaçadas,
ele colava ali na “Casa da Flor”.
Gaudí daqui, de uma obra só.
Aquela casa é o espírito do anjo negro Gabriel.
Aquela casa é a sombra que lhe faltava sob o sol implacável.
Num incerto dia de 1923,
Gabriel Joaquim dos Santos embarcou no barroco sonho
de colar visões, mensagens divinas, mergulhos oníricos e coisas:
os cacos desta e de outras vidas
submetidas ao chicote invisível do sal nas salinas.
O sal que entrou no sangue, na mente
De Gabriel Joaquim dos Santos
ergueu lá dentro uma pirâmide feita com restos de outros restos humanos.
Se era inteligente? De ir fundo: doido de pedra, de cacos de telhas,
de conchas, de azulejos, de pratos, de anzóis,
pedaços de manilhas, de lâmpadas, de faróis…
E quem não o foi? Picasso? Augusto dos Anjos? Van Gogh? Oiticica? Miro?
Os mesmos nós. (Cacau Leal)
(Cena extraída do livro homônimo, publicado em 2005 – prosa-poética).
.
… eu nada tenho com isso!
Triste realidade…fome presente,
miséria se proliferando…saúde matando,
violência se alastando…educação não educando,
demagogos no poder…corruptos e mandando.
Um trilhão de impostos…que carga,
ao povão dão esmola…no poder se perpetuam,
o Ministerio Público…denuncia corrupção,
blindados eles estão…no poder continuam.
Esquecida está a ética… o caráter e a honra,
sorria…isso não serve para bandidos,
o povo sempre esquece que unidos…não serão vencidos,
também esquece que são roubados e iludidos.
Eu nada tenho com isso…denuncio,
dou os nomes dos ladrões…em vão,
e em todas eleições..de volta eles estão,
destruindo o patrimônio da nação. (Amaro Pereira)
.
Sou assim:
Mistura de mim,
tímidos demais,
detalhistas demais,
inquietos demais,
rebeldes demais,
questionadores demais,
responsáveis demais,
misteriosos demais,
românticos demais,
tagarelas demais,
muitas vezes moleques,
peraltas, alegres, tristes, melancólicos.
Amo meus familiares.
Apaixonada pelo marido,
sou mãe amorosa,
avó extremamente boba
melhor papel no palco da vida…
Professora apaixonada pelos alunos e pela profissão.
Toda esta mistura
depois de separada
formam meus eus… (Marta Peres)
.
Bolinha de sabão
Ainda ontem,
Na calçada,
Amarelinha,
Ciranda e pique-pega
Eu era princesa, plebéia e rainha!
Ainda ontem,
Vestido rodado,
Fita no cabelo,
Passos encantados e pique estátua!
Pique alto, pique baixo,
Pique-bandeira pra correr a vida inteira.
A vida é um pique…
O tempo brinca de pique,
Brinca de passar o anel das horas…
O tempo é pipa subindo ao vento,
Chama viva no cachimbo do balão…
A vida é assim:
Fugaz e eterno colorido
Que se apaga como se fora sempre
Bolinha de sabão… (Eurídice Hespanhol)
.
O Poço
Cais, às vezes, afundas
em teu fosso de silêncio,
em teu abismo de orgulhosa cólera,
e mal consegues
voltar, trazendo restos
do que achaste
pelas profunduras da tua existência.
Meu amor, o que encontras
em teu poço fechado?
Algas, pântanos, rochas?
O que vês, de olhos cegos,
rancorosa e ferida?
Não acharás, amor,
no poço em que cais
o que na altura guardo para ti:
um ramo de jasmins todo orvalhado,
um beijo mais profundo que esse abismo.
Não me temas, não caias
de novo em teu rancor.
Sacode a minha palavra que te veio ferir
e deixa que ela voe pela janela aberta.
Ela voltará a ferir-me
sem que tu a dirijas,
porque foi carregada com um instante duro
e esse instante será desarmado em meu peito.
Radiosa me sorri
se minha boca fere.
Não sou um pastor doce
como em contos de fadas,
mas um lenhador que comparte contigo
terras, vento e espinhos das montanhas.
Dá-me amor, me sorri
e me ajuda a ser bom.
Não te firas em mim, seria inútil,
não me firas a mim porque te feres. (Pablo Neruda)
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Fome
Não vou falar de Ruanda, Guiné,
Tanzânia…países da fome e da pobreza ,
Eu vou falar de Jordão e Manari,
Território brasileiro…país da nobreza.
Você sabe o que é “Jacuba”?
É angú de água,sal e óleo…que tristeza,
Mães e filhos …comem ou morrem,
Isso tudo no país de tanta riqueza.
Filhos programados …1500 reais,
Mortalidade infantil…uma realidade,
Proliferação da miséria ..do sofrimento,
e da morte…essa é a grande verdade.
Gente conformada com a miséria,
crianças morrendo de desnutrição,
o vento sonoriza a morte…
vergonha de uma rica nação. (Amaro Pereira)
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Desejo de mulher
Teu desejo é meu querer insano
Que invade meu corpo em suave ternura
São mil pecados entre dois profanos
E em pleno ato, minha alma é pura…
São teus toques tormenta sublime
Madrigais de beijos em prosseguimento,
Êxtase, emoção, enlace que redime,
Cálice repleto, compartilhamento…
Meu corpo é primavera em plena fluorescência
Sob tuas mãos, libertas que não temem,
Doação Divina, mel de efervescências
Mar do teu amor, praia do teu sêmen. (Eurídice Hespanhol)
Este poema é em homenagem a todas as mulheres que através dos séculos tiveram seus anseios, desejos e emoções descritos através do olhar masculino. Dedico-o a todos os homens que assim o fizeram sob a égide do amor e a todas as mulheres que lutaram para que suas vozes tivessem eco. Este poema está editado na agenda Anima- Oficina Editores – 2006.
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Soneto do Amor Presente
Se o coração transpôs tanta distância
havida entre minh’alma e teu destino
é provável que eu torne à tua infância
e retome os meus sonhos de menino.
Às vezes fim e às vezes circunstância
vez por outra esperança ou desatino,
vai meu amor num rio de abundância
como a infância num gozo repentino.
Prometo não deixar que essa tristeza
descendente da ausência de nós dois
seja herdeira comum dessa saudade.
Quiçá o amor nos seja uma surpresa
em que sonhar não seja mais depois
mas agora em tamanha eternidade… (Afonso Estebanez)
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Nasci para ser feliz
Nasci pelas mãos de uma parteira
num lar onde morava o amor
mesclavam musicas e poesias
cheguei nas rimas do trovador.
Passei a minha infância
em sintonia com a natureza
o céu, a lua e as estrelas
completava o cenário…que beleza.
A juventude foi o meu tesouro na vida,
amei a mais linda cabocla da cidade,
escrevemos uma linda história de amor
que levamos para a eternidade.
O mundo cinza tem pressa,
aprendiz de poeta me fiz
da paz e do amor faço meus versos
só tenho que agradecer…nasci para ser feliz! (Amaro Pereira)
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Meu beijo
Se te dou beijos de sal
É batismo, virei santa!
Se tens sede
Beijo mais
Não por ser mulher profana
É que sou de muitas águas
Yemanjá quase sacana
Mas meu beijo é apenas distante
Afinal sou todo um quase
E por ser quase
Sou de brinquedo
Pião de roda, folguedo
Meu beijo é de cabra cega
Viagem do meu pensamento
Pipa de vôo duvidoso
Meu beijo é infância atrasada
Nesta mulher fugidia
Meu beijo é vento rasante
Correndo a rua, brincante
É pura telepatia… (Eurídice Hespanhol)
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Sentimentos
Mar revolto, feroz,
ondas levantavam
você e eu ante o belo dia,
a linda paisagem, mar
arrebentando nas pedras.
O mar vem…o mar vai…
nossos olhos se encontrando
e nossas bocas num longo beijo.
O mar vai…o mar vem…
suas mãos passeiam em meu corpo
num vai e vem… Minha vida entrego
em suas mãos, mar turbulento lambe
as areias da praia, as pedras choram
cada açoite e é mágico o momento.
Sentimentos afloram e o mar nem
intimida. O mar vem… o mar vai… (Marta Peres)
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Se tu fosses meu mundo
Se eu fosse teu mundo eu te indicaria o caminho
Da ponte do meu coração e deixaria tu entrar
Eu te daria um castelo feito de amor- perfeito
Se eu fosse teu mundo eu te pediria para
Deitar em mim e adormecer olhando as estrelas
Eu te mandaria uma brisa morna falaria as luas
Que elas cantassem para ti a musica do amor sem fim
Se eu fosse teu mundo te daria um céu infinito azul
De nuvens faceiras a desenhar teu nome,
Um sol brilhante, uma chuva fina para te molhar
Assim eu te aqueceria com beijos a secar teu corpo
Se eu fosse teu mundo eu te faria um poema na areia fina
Pediria ao mar que deixa se ali para sempre que não o apague
Porque nele esta, descrito o meu amor por ti
Se eu fosse teu mundo eu te deixaria perdido em mim
E eu amor, não te permitiria ir embora. (Sandra Mello-Flor)
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Cigana Enamorada
Saias vermelhas
Lenços que anunciam sonhos
Um par de ouro nas orelhas
E um tangente violão cigano…
Rodas, bailando em circular transe
Música transbordando séculos errantes…
Passos que declaram eterno amor
Alegria nos olhos,
Na mão esquerda o diamante mais raro,
Na direita o lenço, o laço, o gesto, a vida…
O toque no tablado,
A etnia ancestral,
A marca delirante…
Palmas marcando os compassos
Mais um passo, um giro,
Vento soprando em viajante alma
Delírio que acalma
Festa que eleva…
Sapateados sobre a terra em prece
Doação de fogo que de amor se oferece…
Porta aberta que não se tranca
Sangue trocado que jamais estanca… (Eurídice Hespanhol)
In imagens de uma alma cigana
Poema em homenagem a poeta Ivone Landim, que de alma cigana desperta toda ancestralidade deste povo errante que mora em todos nós.
Está editado na Antologia do POVEB (Poesia, você está na Barra)
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Convite
Vem irmão, convido-te às Verdades;
Avaliaremos prudentemente dignidades.
A observação atenta, comum, do homem,
Não tem capacidades que as tomem.
Revela-te, pois tua manifestação
Será o modelo de nossa aceitação.
Milhares mil vezes já apelaram,
Outros tantos mil vezes se apresentaram,
Mas Deus ordenou que nossos ouvidos
Se ensurdecessem ante seus alaridos.
Estamos envoltos em nuvens divinas,
Protegidos dos golpes que abominas,
Escondidos da visão de um qualquer.
Tens que estar imbuído de nobre mister.
Vem irmão, certamente merecimentos tens;
Compartilharemos benefícios e bens.
Mas só se compreenderes o Livro da Natureza
E conseguires avaliar o valor de sua riqueza.
Os conhecimentos que estão fora do alcance
Daqueles que esperam obtê-los em relance,
Contra a santa vontade divina,
Se for chegada a hora que vaticina,
Serão encontrados na felicidade a que conduz
A mui amada Fraternidade da Rosa-Cruz. (Luiz Carlos Fraga)



























