Pitágoras e os “Versos de Ouro”

Por em 12/03/2010


PitágorasAcima, gravura representando Pitágoras.

Sempre é importante, em nosso mundo chamado de pós-moderno, um mundo tão conturbado e com tanta “relatividade ética e moral”, lembrarmos daqueles antigos princípios que antigos pensadores nos legaram. Pitágoras é um daqueles personagens da história que ficaram para a posteridade, e que deve sempre ser lembrado não apenas pelas suas obras e influências, mas também pelos conceitos éticos que deveriam permear a qualquer sociedade. Os “Versos de Ouro” aqui listados são eternas palavras de sabedoria que poucos conhecem, e muito menos praticam.

Pitágoras nasceu na ilha grega de Samos, a leste do mar Egeu, aproximadamente em 565 A.E.C. (antes da era comum). Alguns pesquisadores datam sua data natalícia em 572 A.E.C.. Pitágoras teria morrido em Metaponto entre os anos 490 e 492 A.E.C. de maneira ignorada. Apenas admite-se que teria desaparecido, ou foi assassinado, após as perseguições impostas a ele e aos seus discípulos quando sua Escola, na cidade de Crotona (atual Itália), foi condenada a fechar. Sua escola ficou conhecida na Antigüidade por Escola Pitagórica, Escola Itálica ou Escola de Crotona. Para algumas correntes históricas teria sobrevivido à perseguição e se escondido por muito mais tempo. Não se sabe com absoluta certeza de várias passagens de sua vida, pois infelizmente muitos documentos se perderam ao longo dos séculos que poderiam trazer mais luz à sua obra. O desastre com a Biblioteca de Alexandria, por exemplo, foi determinante neste aspecto. Diz-se que uma biografia sua e de Aristóteles, também Filósofo, chegou a ser redigida na Antiguidade, mas que também acabaram se perdendo no fogo que consumiu a famosa biblioteca. Através dos anos que se seguiram, porém, seus discípulos e outros comentaristas legaram-nos muitos fatos, alguns de maneira indireta, que permitiram traçar os principais aspectos de sua vida e de sua doutrina.

pitagoras

O trabalho pitagórico é vastíssimo, pois o “Filósofo de Samos” atuou nos mais variados campos do conhecimento, a saber: medicina, física, matemática, música, filosofia, religiosidade. Em todos mostrou a sabedoria dos verdadeiros Mestres gregos. Pode-se dizer, sem exagero, que se deve a este grande personagem da cultura humana muito do desenvolvimento nas citadas áreas do saber.

Viveu numa época muito próxima a Lao Tsé, Buda e Confúcio, quando nosso planeta viu-se visitado por grandes luminares. Estes certamente influenciaram todo o trabalho pitagórico, pois é sabido que assim como vários outros místicos e filósofos da história grega e européia em geral, Pitágoras viajou por todo o Oriente para trazer de lá a sabedoria necessária ao desenvolvimento da civilização ocidental. Trouxe o conhecimento da Tradição Primordial, já com o ideal de fundar o seu centro de estudos, como vários outros fizeram, a exemplo de Platão com a sua Academia e Aristóteles com o Liceu.

Provavelmente teria passado pela Índia, segundo alguns historiadores modernos. Em Creta estudou os mistérios gregos. Admite-se que Pitágoras esteve na Babilônia, pois os babilônios eram profundos conhecedores da astronomia, da astrologia e da magia, tendo influenciado inclusive a formação do que hoje conhecemos como a Cabala judaica. No Egito, em especial, teria sido Iniciado aproximadamente em abril de 531 A.E.C. nas Escolas de Mistérios de Tebas, centro iniciático de profunda importância da antigüidade e detentor dos maiores segredos da cultura humana. Importante frisar, só para citar os mais conhecidos, que antes de Pitágoras já haviam passado pelo Egito em busca da sabedoria Sólon, fundador do Areópago grego (Areópago: conselho daqueles que tivessem desempenhado todas as funções administrativas e legislativas) e importante legislador; Tales de Mileto, fundador da filosofia Jônica. Existe certa controvérsia se Tales de Mileto teria influenciado Pitágoras como seu Mestre direto, mas a diferença de mais de 50 anos entre eles diminui em muito este possibilidade. Mais certo seria afirmar que, se existe semelhança em suas transmissões do saber, deve-se em grande parte por terem viajado pelos mesmos centros de estudos.

Através de suas muitas peregrinações Pitágoras fundamentou suas concepções religiosas, místicas e pessoais, nas quais o amálgama dessas idéias é que se tornariam o corpo de sua doutrina. Sua vida se tornou lendária, pois a Escola Itálica fundada por ele em Crotona tinha não apenas o ideal da formação do conhecimento filosófico, mas também o estabelecimento de uma espécie de Fraternidade mística, muito comum séculos mais tarde na Europa

Os mistérios Órficos, com sua diferenciação em graus de conhecimento, ajudaram a determinar que, por exemplo, os ensinamentos pitagóricos fossem também divididos em diferentes etapas ou graus. Estes eram três, em essência: no primeiro, o estudo dos números e de todas as suas relações matemáticas e físicas; no segundo grau, a moral e a política eram vistas como de grande importância; e em seguida estudavam-se as leis cósmicas.

Falava tanto em público quanto aos seus discípulos diretos em forma de parábolas. Admite-se que tinha um círculo interno de discípulos e outros admiradores externos, não iniciados em suas práticas. Interessante o fato de muitos Mestres de nossa história terem optado por instrução igual ou similar. Jesus falava por parábolas aos gentios. Sócrates usava a maiêutica (método de responder a perguntas com outras perguntas, levando à reflexão o primeiro interlocutor) para ensinar e debater com seus opositores. Também Heráclito, o filósofo do “puro devir” (devir: tudo está em constante mutação, onde nada é fixo; o “vir a ser”), falava por enigmas aos seus seguidores.

Passo a listar abaixo, para reflexão dos leitores, os famosos “Versos de Ouro” de Pitágoras, antigos e ao mesmo tempo sempre atuais.

OS VERSOS DE OURO DE PITÁGORAS

1. Honra em primeiro lugar os deuses imortais, como manda a lei.
2. A seguir, reverencia o juramento que fizeste.
3. Depois os heróis ilustres, cheios de bondade e luz.
4. Homenageia, então, os espíritos terrestres e manifesta por eles o devido respeito.
5. Honra em seguida a teus pais, e a todos os membros da tua família.
6. Entre os outros, escolhe como amigo o mais sábio e virtuoso.
7. Aproveita seus discursos suaves, e aprende com os atos dele que são úteis e virtuosos.
8. Mas não afasta teu amigo por um pequeno erro,
9. Porque o poder é limitado pela necessidade.
10. Leva bem a sério o seguinte: Deves enfrentar e vencer as paixões:
11. Primeiro a gula, depois a preguiça, a luxúria, e a raiva.
12. Não faz junto com outros, nem sozinho, o que te dá vergonha.
13. E, sobretudo, respeita a ti mesmo.
14. Pratica a justiça com teus atos e com tuas palavras.
15. E estabelece o hábito de nunca agir impensadamente.
16. Mas lembra sempre um fato, o de que a morte virá a todos;
17. E que as coisas boas do mundo são incertas, e assim como podem ser conquistadas, podem ser perdidas.
18. Suporta com paciência e sem murmúrio a tua parte, seja qual for,
19. Dos sofrimentos que o destino determinado pelos deuses lança sobre os seres humanos.
20. Mas esforça-te por aliviar a tua dor no que for possível.
21. E lembra que o destino não manda muitas desgraças aos bons.
22. O que as pessoas pensam e dizem varia muito; agora é algo bom, em seguida é algo mau.
23. Portanto, não aceita cegamente o que ouves, nem o rejeita de modo precipitado.
24. Mas se forem ditas falsidades, retrocede suavemente e arma-te de paciência.
25. Cumpre fielmente, em todas as ocasiões, o que te digo agora:
26. Não deixa que ninguém, com palavras ou atos,
27. Te leve a fazer ou dizer o que não é melhor para ti.
28. Pensa e delibera antes de agir, para que não cometas ações tolas,
29. Porque é próprio de um homem miserável agir e falar impensadamente.
30. Mas faze aquilo que não te trará aflições mais tarde, e que não te causará arrependimento.
31. Não faze nada que sejas incapaz de entender.
32. Porém, aprende o que for necessário saber; deste modo, tua vida será feliz.
33. Não esquece de modo algum a saúde do corpo,
34. Mas dá a ele alimento com moderação, o exercício necessário e também repouso à tua mente.
35. O que quero dizer com a palavra moderação é que os extremos devem ser evitados.
36. Acostuma-te a uma vida decente e pura, sem luxúria.
37. Evita todas as coisas que causarão inveja,
38. E não comete exageros. Vive como alguém que sabe o que é honrado e decente.
39. Não age movido pela cobiça ou avareza. É excelente usar a justa medida em todas estas coisas.
40. Faze apenas as coisas que não podem ferir-te, e decide antes de fazê-las.
41. Ao deitares, nunca deixe que o sono se aproxime dos teus olhos cansados,
42. Enquanto não revisares com a tua consciência mais elevada todas as tuas ações do dia.
43. Pergunta: “Em que errei? Em que agi corretamente? Que dever deixei de cumprir?”
44. Recrimina-te pelos teus erros, alegra-te pelos acertos.
45. Pratica integralmente todas estas recomendações. Medita bem nelas. Tu deves amá-las de todo o coração
46. São elas que te colocarão no caminho da Virtude Divina,
47. Eu o juro por aquele que transmitiu às nossas almas o Quaternário Sagrado.
48. Aquela fonte da natureza cuja evolução é eterna.
49. Nunca começa uma tarefa antes de pedir a bênção e a ajuda dos Deuses.
50. Quando fizeres de tudo isso um hábito,
51. Conhecerás a natureza dos deuses imortais e dos homens,
52. Verás até que ponto vai a diversidade entre os seres, e aquilo que os contém, e os mantém em unidade.
53. Verás então, de acordo com a Justiça, que a substância do Universo é a mesma em todas as coisas.
54. Deste modo não desejarás o que não deves desejar, e nada neste mundo será desconhecido de ti.
55. Perceberás também que os homens lançam sobre si mesmos suas próprias desgraças, voluntariamente e por sua livre escolha.
56. Como são infelizes! Não vêem, nem compreendem que o bem deles está ao seu lado.
57. Poucos sabem como libertar-se dos seus sofrimentos.
58. Este é o peso do destino que cega a humanidade.
59. Os seres humanos andam em círculos, para lá e para cá, com sofrimentos intermináveis,
60. Porque são acompanhados por uma companheira sombria, a desunião fatal entre eles, que os lança para cima e para baixo sem que percebam.
61. Trata, discretamente, de nunca despertar desarmonia, mas foge dela!
62. Oh Deus nosso Pai, livra a todos eles de sofrimentos tão grandes,
63. Mostrando a cada um o Espírito que é seu guia.
64. Porém, tu não deves ter medo, porque os homens pertencem a uma raça divina,
65. E a natureza sagrada tudo revelará e mostrará a eles.
66. Se ela comunicar a ti os teus segredos, colocarás em prática com facilidade todas as coisas que te recomendo.
67. E ao curar a tua alma a libertarás de todos estes males e sofrimentos.
68. Mas evita as comidas pouco recomendáveis para a purificação e a libertação da alma.
69. Avalia bem todas as coisas,
70. Buscando sempre guiar-te pela compreensão divina que tudo deveria orientar.
71. Assim, quando abandonares teu corpo físico e te elevares no éter,
72. Serás imortal e divino, terás a plenitude e não mais morrerás.

Referências

- Os “Versos” foram retirados de “O Exotérico”, nº 25, de junho/98.
- Marcondes, D. Introdução à História da Filosofia. Dos Pré-Socráticos a Wittgenstein; Jorge Zahar Editor; 1997.
- Strathern, P. Pitágoras e seu Teorema em 90 Minutos; Jorge Zahar Editor; 1998.

*Adílio Jorge Marques é professor de Física e História da Ciência da rede pública e particular de ensino do Rio de Janeiro. Pesquisador em História da Ciência luso-brasileira e história das Tradições.




Por Adílio Jorge Marques, em 12/03/2010 - 00:04. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.

1 resposta to “Pitágoras e os “Versos de Ouro””

  1. Caro Adílio

    parabéns pela escolha de divulgar a obra e princípios de Pitágoras. O momento é oportuno, sem dúvida. Grande abraço,
    Caruso

    #533

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