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Paralelamente, dois Brasis

Este texto não pretende enumerar exemplos que nos levariam a concluir que o Brasil é um país dividido. Tal postura nos deixaria impotentes diante de problemas com soluções inviáveis. Em vez disso, conduzo o leitor a diagnosticar que os dois Brasis a que me refiro caminham de fato como se fossem dois países diferentes dentro do mesmo território. Desse modo, é preocupante a naturalidade como isso acontece e os desafios para os espaços de interação, amplamente conhecidos como espaços públicos.

O primeiro antagonismo que uso no meu argumento é entre o Brasil letrado e o ignorante, entre os bem educados e os mal educados. O primeiro grupo concentra aqueles que têm melhor acolhimento e planejamento familiares, moram em bairros com infraestrutura e localização boas, e valorizam a educação de seus filhos, que são poucos. O segundo funciona através do Deus-dará, pedindo a Jesus que proteja a prole numerosa de cada casal e ao Estado que garanta tudo, absolutamente tudo, menos camisinhas.

Numa ponta, há pessoas que vivem confortavelmente, consomem bem, frequentam lugares entendidos como “culturais”, têm tempo para lazer, e confiam no poder emancipador da educação. Essas pessoas param seus veículos em faixas para pedestres, têm o hábito de leitura de livros e revistas educativos, usam boas maneiras com frequência no trato social. Além disso, grande parte desse perfil de pessoas confia em que o governo é um covil de corrupção e ineficiência que atrapalha o progresso da sociedade.

Na outra ponta, e em número que cresce proporcionalmente, vemos aqueles que têm dificuldade de pagar suas contas básicas, vivem em áreas com deficiência infraestrutural, consomem somente o que for necessário e compram alguns bens supérfluos a prazo. Eles não têm o mesmo interesse e gosto que o outro grupo, por exemplo, em ler materiais educativos, ver exposições artísticas e peças de teatro; seu tempo dedicado a lazer é limitado. Para eles, a educação é um universo nebuloso que segue a obrigatoriedade do governo. Se não fosse por esta exigência, suas crianças estariam noutro lugar, talvez tomando mais parte nos conflitos familiares em casa. O Estado é para eles o Paizão que deve fazer tudo para que sobrevivam, já que não têm ideia clara do que educação e trabalho sejam.

Há muitas implicações culturais e sociais na bifurcação desses dois Brasis. A principal está na interação entre pessoas tão diferentes que ocorre no condomínio, no trânsito, na calçada, na loja, no supermercado, no banco, no restaurante. Devido ao contraste educativo no Brasil, é muitas vezes difícil decidir sobre qual atitude tomar. É também duro de prever as reações a comportamentos tão discrepantes diante de situações vivenciadas em comum. Numa conversa informal que tive com um motoqueiro, disse a ele que motos devem trafegar atrás de carros, como em países mais desenvolvidos, e assim garantir a segurança de todos. Porém, ele me relatou que o motivo principal de ele ter comprado uma moto é o de dirigir sobre as faixas pintadas nas vias, entre os carros, junto deles, entrar pela frente e pelo lado, em transversal, furar filas, e assim chegar mais rápido ao destino.

O paralelismo desses dois Brasis a que me refiro tem na educação seu sustentáculo. Uma instrução sólida daria condições para melhorar aspectos tão diversos como a cultura em torno do trabalho, que rebaixa tanto o Brasil. Muitos se arrepiam quando ouvem a palavra “mérito” e seu qualificativo “individual”, pois querem nadar sobre os benefícios do emprego e sobre as benesses da comunidade em vez de se dedicar ao que gosta de fazer.

Essas gerações que estão chegando são aquelas que talvez começarão a limpar a sujeira que durante tanto tempo se depositou embaixo do tapete.

*Bruno Peron Loureiro é doutor em Políticas Culturais por University of London – Birkbeck, e mestre em Estudos Latino-americanos pela Universidad Nacional Autónoma de México; autor de oito livros em versão eletrônica, incluindo Aresta da razão (2013), Aresta da prudência (2014) e Aresta da desilusão (2015). http://www.brunoperon.com.br

Comentários

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Comentários

  1. Teresinha Winter disse:

    Este governo está fazendo de tudo pra aprofundar mais esse poço. Serão novamente a PLEBE e a NOBREZA. Nada mais.

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