Oxalá

Por em 10/01/2010


Oxalá1O Grande Orixá, ou Obatalá, Orixalá, Orixanlá ou simplesmente como é mais conhecido na Umbanda, Oxalá é a capacidade fecundadora (masculina) e geradora (feminina) da vida, sendo por isso, sexualmente ambivalente. Identificado, no Candomblé, com as figuras de Oxalufã (Orixá Velho) e Oxaguiã (Orixá Novo), na Umbanda sua representação é única e sua divindade é atribuída por sua majestade como Ser Superior. Por essas características, apesar de não ser considerado mais poderoso do que os demais, Oxalá é o Orixá cultuado com maior veneração no terreiros em sinal de respeito devido o seu caráter criador.

Se Exu é o principio da vida, Oxalá é o principio da morte. Equilíbrio positivo do universo é o pai da brancura, da paz, da união, da fraternidade entre os povos da Terra e do Cosmo. Pai dos Orixás é considerado o fim pacífico de todos os seres. Orixá da ventura, da compreensão, da amizade, do entendimento, do fim da confusão.

Oxalá é o Orixá que vai determinar o fim da vida, o fim da estrada do ser humano. Oxalá é o fim da vida, é o momento de partir em paz, com a certeza do dever cumprido, Exu inicia, Oxalá termina. (http://tabadeoxossi.tripod.com/id24.html, acessado no dia 23/07/2009).

Oxalá2

Selecionar uma lenda sobre o “Rei do Pano Branco”, como Verger se refere à Oxalá, é uma tarefa difícil, pois são inúmeras. Optamos por uma considerada tradicional, já que se tornou referência em inúmeros trabalhos. Vejamos:

Oxalufã era o rei de Ilu-ayê, a terra dos ancestrais, na longínqüa África. Ele estava muito velho, curvado pela idade e andava com dificuldade,apoiado num grande cajado, chamado opaxorô.Um dia, Oxalufã decidiu viajar em visita a seu velho amigo Xangô, rei de Oyó.Antes de partir, Oxalufã consultou um babalaô, o adivinho, perguntando-lhe se tudo ia correr bem e se a viagem seria feliz.O babalaô respondeu-lhe:”Não faça esta viagem!

Ela será cheia de incidentes desagradáveis e acabará mal.”Mas, Oxalufã tinha um temperamento obstinado,quando fazia um projeto, nunca renunciava.Disse, então, ao babalaô:”Decidi fazer esta viagem e eu a farei, aconteça o que acontecer!”Oxalufã perguntou ainda ao babalaô,se oferendas e sacrifícios melhorariam as coisas.

Este respondeu-lhe:”Qualquer que sejam suas oferendas, a viagem será desastrosa.”

E fez ainda algumas recomendações:”Se você não quiser perder a vida durante a viagem, deverá aceitar fazer tudo que lhe pedirem.Você não deverá queixar-se das tristes consequências que advirão.

Será necessário que você leve três panos brancos.Será necessário que você leve, também, sabão e limo da costa.”Oxalufã partiu, então, lentamente, apoiado no seu opaxorô.Ao cabo de algum tempo, ele encontra Exu Elepô, Exu “dono do azeite de dendê. “Exu estava sentado à beira da estrada, com um grande pote cheio de dendê.

“Ah! Bom dia Oxalufã, como vai a família?”"Oh! Bom dia Exu Elepô, como vai também a sua?”

“Ah! Oxalufã, ajude-me a colocar este pote no ombro.”"Sim, Exu, sim, sim, com prazer e logo.”

Mas de repente, Exu Elepô virou o pote sobre Oxalufã.Oxalufã, seguindo os conselhos do babalaô, ficou calmo e nada reclamou.foi limpar-se no rio mais próximo.Passou o limo da costa sobre o corpo e vestiu-se com um novo pano; àquele que usava ficou perto do rio, como oferenda.Oxalufã retomou a estrada, andando com lentidão, apoiado no seu opaxorô.Duas vezes mais ele encontrou-se com Exu.

Uma vez, com Exu Onidu, Exu “dono do carvão”; Outra vez, com Exu Aladi, Exu “dono do óleo do caroço de dendê.” Duas vezes mais, Oxalufã foi vítima das armadilhas de Exu,ambas semelhantes à primeira.

Duas vezes mais, Oxalufã sujeitou-se às conseqüências.Exu divertiu-se às custas dele,sem que, contudo, conseguisse tirar-lhe a calma.Oxalufã trocou, assim, seus últimos panos, deixando na margem do rio os que usava, como oferendas.E continuou corajosamente seu caminho, apoiado em seu opaxorô,até que passou a fronteira do reino de seu amigo Xangô. Kawo Kabiyesi, Sango, Alafin Oyó, Alayeluwa!

“Saudemos Xangô, Senhor do Palácio de Oyó, Senhor do Mundo!”

Logo, Oxalufã avistou um cavalo perdido que pertencia a Xangô. Ele conhecia o animal, pois havia sido ele que, há tempo, lhe oferecera. Oxalufã tentou amansar o cavalo, mostrando-lhe uma espiga de milho,para amarrá-lo e devolvê-lo a Xangô.Neste instante, chegaram correndo os empregados do palácio.

Eles estavam perseguindo o animal e gritaram: “Olhem o ladrão de cavalo! Miserável, imprestável, amigo do bem alheio!Como os tempos mudaram; roubar com esta idade!! Não há mais anciãos respeitáveis! Quem diria? Quem acreditaria?”Caíram todos sobre Oxalufã, cobrindo-o de pancadas.Eles o agarraram e arrastaram até a prisão.Oxalufã, lembrando-se das recomendações do babalaô,permaneceu quieto e nada disse.Ele não podia vingar-se.Usou então dos seus poderes, do fundo da prisão.Não choveu mais, a colheita estava comprometida, o gado dizimado;as mulheres estéreis, as pessoas eram vitimadas por doenças terríveis.Durante sete anos o reino de Xangô foi devastado.

Xangô, por sua vez, consultou um babalaô,para saber a razão de toda aquela desgraça.”Kabiyesi Xangô, respondeu-lhe o babalaô,tudo isto é conseqüência de um ato lastimável.Um velho sofre injustamente, preso há sete anos.Ele nunca se queixou, mas não pense no entanto…

Eis a fonte de todas as desgraças!”Xangô fez vir diante dele o tal ancião. “Ah! Mas vejam só!” – gritou Xangô. “É você, Oxalufã! Êpa Baba! Exê ê! Absurdo! É inacreditável, vergonhoso, imperdoável!!!Ah! você Oxalufãna , prisão! Êpa Baba!!Não posso acreditar e, ainda por cima,preso por meus próprios empregados!Hei! Todos vocês!Meus generais!Meus cavaleiros, meus eunucos, meus músicos!Meus mensageiros e chefes de cavalaria!Meus caçadores!Minhas mulheres, as ayabás!Hei! Povo de Oyó!

Todos e todas, vesti-vos de branco em respeito ao rei que veste branco! Todos e todas, guardai o silêncio em sinal de arrependimento! Todos e todas, vão buscar água no rio!

É preciso lavar Oxalufã!Êpa Baba! Êpa, Êpa!

É preciso que ele nos perdoe a ofensa que lhe foi feita!!”
(http://tabadeoxossi.tripod.com/id24.html, acessado no dia 23/07/2009).

A inexistência do nome Oxalá na lenda apresentada acima revela que, nas tradições africanas, é o Orixá Obatalá o responsável, sob o comando de Olorum, o Senhor do Orun, por criar o ser humano e agir diante da humanidade, dada à superioridade de Olorum, que impede contatos mais próximos com a vida humana. No templo umbandista, Obatalá passa a ser associado a Deus, perdendo seu caráter de divindade africana, com a substituição das lendas africanas a respeito da criação humana pelo livro do Gênesis, da Bíblia Cristã. O sincretismo do Criador nas tradições católicas com Obatalá gerou alguns conflitos, pois o Orixá africano é visto como uma força cósmica e impessoal, o que vai de encontro à imagem do Deus católico, pessoal e eterno (COSTA, 1983, p.109-127).

A construção do nome Oxalá, segundo os estudos de Arthur Ramos, citado por Costa (1983), deve-se ao atributo (título) orixalá dado à Obatalá. A partir daí, o Orixá começa a ser chamado de Oxalá, criando um paralelo entre Obatalá, Orixalá e Oxalá. A associação com Jesus Cristo se deu por conta do texto do Novo Testamento, que descreve a revelação de Deus na Santíssima Trindade, onde Pai, Filho e Espírito Santo eram unos e trinos, causando grande confusão entre os praticantes do Candomblé e, posteriormente, da Umbanda. A fim de simplificar, os negros personificaram Oxalá com Jesus, através da imagem do Senhor do Bonfim na Bahia, diferenciando o Pai (Obatalá) do Filho (Oxalá), este passando a ser o próprio Jesus Cristo no Brasil.

Na Umbanda, além da influência católica, a presença do kardecismo vai reforçar a identificação de Oxalá com o Cristo. No entanto, como para a doutrina espírita Jesus é um espírito iluminado que rege o planeta, ou como muitos acreditam, o maior de todos os médiuns, a divindade do Cristo não existe, ao contrário do catolicismo, que vê Jesus como o Verbo de Deus. Entra em choque, também, a crença na ressurreição através de várias reencarnações, defendida pelo kardecismo, com a doutrina católica que prega a ressurreição a partir de uma única vida. Em ambos os casos (espírito puro ou divindade) é inconcebível o Orixá “baixar” num filho-de-santo. Apesar das controvérsias, ocorre a manifestação da vibração de Oxalá/Jesus nos cultos umbandistas, sem, no entanto, ocorrer incorporação, pois seria incompatível com a densidade da matéria, que não suportaria o elevadíssimo nível espiritual do Orixá/ Filho de Deus/ Espírito Puro.

*Marcelo Alonso Morais é professor de Geografia do Colégio Santo Inácio, no Rio de Janeiro, e tem mestrado em Geografia das Religiões.




Por Marcelo Alonso Morais, em 10/01/2010 - 00:01. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.

2 respostas to “Oxalá”

  1. Adílio Jorge Marques

    Parabéns, Marcelo! Texto claro e objetivo sobre uma das facetas mais interessantes da Tradição africana.

    #285
  2. ANGELIQUE

    Como podem comparar Jesus Cristo, o ùnico Filho de Deus, com orixás, guias, espiritos iluminados e outras baboseiras. Esta sempre foi a vontade do Diabo,fazer com Jesus seja reconhecido e trazido ao nivel baixo e sujo dele. MAS NUNCA SERÁ pois o que Ele tinha que fazer aki, já fez, nasceu, viveu,foi crucificado, por que se entregou para isso, se não nehum homem ou força qualquer tocaria NELE, e RESSUCITOU E AGORA VOLTARÁ PARA REINAR ETERNAMENTE E JULGAR à todos quanto não creêm que ELE é único e suficiente Salvador, só um caminho que leva à Deus Pai, JESUS.
    MEU JESUS MARAVILHOSO É REI sobre todos os reis e SENHOR sobre todos os senhores……quero ver quem pode tocá-lo, enm o Diabo tem esse poder……SATANÁS já está condenado e o que ele puder fazer para levar mais gente com ele. VAI FAZER, infelizmente as pessoas creêm em suas enganações. ele é o pai da mentira – Deus/Filho o chamou assim – S. JOÃO 8:44. TODO AQUELE QUE NÃO RECONHECE A JESUS COMO FILHO DE DEUS NÃO TEM COMO PAI À DEUS.

    #884

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