Os exterminadores do presente
Outro dia, lendo (inevitavelmente) matéria sobre o caso Bruno/Eliza Samudio, lembrei-me de uma das últimas entrevistas do Professor Milton Santos, geógrafo da Universidade de São Paulo.
O tema abordado pelo Professor naquela entrevista era a “brutalização da vida social”. Para ele, as causas da crescente brutalização das relações sociais no mundo são basicamente duas: a competitividade sem ética e a falta de diálogo. Segundo Milton Santos “o centro de tudo é a competitividade sem ética: atitude que exclui toda a compaixão e que leva os participantes do processo a desconhecerem qualquer sentimento em relação ao outro. O outro é apenas alguém a ser abatido na primeira oportunidade”. A razão do outro não deve ser escutada.
Ora, quando temos competidores surdos, que não querem o diálogo, as ações violentas de um contra o outro são inevitáveis. E terceiros, que não estão diretamente envolvidos, acabam colhendo também os frutos dessa brutalização das relações, seja entre indivíduos, seja entre grupos, seja entre Estados.
Não é difícil observar, em nosso dia a dia, como a competitividade sem ética entre indivíduos leva ao envenenamento das relações pessoais, a ponto de conduzir a comportamentos agressivos, ao crime, à banalização da vida.
È fácil perceber como interesses de grupos conduzem á formação de verdadeiros exércitos particulares e ao crime organizado, impondo a violência como norma de convivência.
A violência institucionalizada é notória quando governos preferem a guerra à diplomacia ou quando o sistema de poder se arroga o direito sobre a vida humana, através da pena de morte.
Pois lendo, outro dia, matéria on-line sobre o crime do momento, li também postagens de internautas que, além de pedirem pena de morte para os suspeitos, negavam aos mesmos qualquer amparo dos direitos humanos.
Ora, um dos suspeitos é também acusado de participar de um grupo de extermínio. Os grupos de extermínio acreditam fazer o trabalho sujo que os direitos humanos impedem a Justiça de executar.
As opiniões daqueles internautas e a auto-justificativa dos matadores profissionais se encontram dentro uma mesma lógica: a brutalização da vida social.
*Afonso Guerra-Baião é professor, vive no município de Curvelo, no estado de Minas Gerais desde 1976 e desenvolve um projeto de tradução de poetas de língua inglesa.
Por Afonso Guerra-Baião, em 04/08/2010 - 00:01. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.

























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