O Romantismo e o Realismo do ponto de vista histórico

Por em 16/06/2009


O Romantismo, como fenômeno literário, surgiu, em Portugal entre o final do século XVIII e o início do século XIX e trazia consigo o desejo a livre inspiração e estilo, quebrando com a rigidez que antes imperava na forma de se fazer literatura. Inclusive, os literatos de antes do período romântico, eram taxados de meros imitadores de modelos clássicos. Outra importante característica do Romantismo era o sentimentalismo presente nas obras, onde se expunha um grande apelo ao patriotismo e as tradições culturais de Portugal. O Romantismo surgiu em um momento no qual o Mundo passava por uma profunda transformação, em parte provocada pelo Iluminismo, que buscava entender o próprio Homem e o seu meio. As novas concepções sociais originadas a partir da Revolução Francesa ganharam bastante apreço dentre os intelectuais da época, também colaborando com as transformações iluministas. O século XIX foi riquíssimo de novas idéias e formas de pensar, principalmente nos aspectos políticos e sociais, como já citado, mas também no campo econômico, tendo como um exemplo clássico dessas novas formas de pensamento a publicação de “O Capital” de Karl Marx, onde o autor disseca a sociedade de então, baseando-se na sociedade inglesa e suas relações de poder.

O Romantismo não ficava indiferente às transformações pelas quais o mundo estava passando. Tanto que, no intuito de registrar fatos e passagens históricas, muitas obras foram criadas, porém não se detendo a mera exposição dos fatos, mas se utilizando desses fatos como alicerce para a criação de situações, fictícias, que se mesclavam. Batalhas, traições políticas e intrigas eclesiásticas foram cenários muito utilizados como pelos românticos.

Outra grande fonte de inspiração dos românticos eram as viagens, que acabam por serem narradas e despertavam grande curiosidade do público leitor, já que na época não era comum a prática do turismo, como fazemos hoje em dia. Conhecia-se o Mundo por intermédio das páginas dos livros e, neste contexto, deve-se citar Almeida Garret que em seu livro “Viagens na Minha Terra” narra suas experiências em viagens ao longo de terras portuguesas. O Romantismo ainda “redescobre” a Idade Média, buscando neste momento histórico todo um lirismo, uma ingenuidade, uma inocência e um espiritualismo que foram preteridos até então.

Ainda no advento Romântico, desenvolvem-se atividades ou modalidades literárias até então postas de lado, num segundo plano, que eram confinadas a determinados ambientes. Assim o Jornalismo passou a ter uma importância fundamental junto à sociedade, representando um papel fundamental junto à revolução romântica, passando a ser o veículo responsável pela formação de uma consciência social independente dos rígidos quadros administrativos e educando as massas quanto aos seus direitos e deveres.

Pode-se afirmar que o Romantismo, graças ao advento do surgimento do Jornalismo, foi um período marcado pela democratização da cultura e das relações sociais, formando uma nova mentalidade quanto a Portugal e também quanto ao mundo. Deve-se frisar que já em 1641 havia sido publicado o primeiro jornal em Portugal, no entanto, com uma forma de fazer jornalismo ainda bastante arcaica. Foi então somente no século XIX que os jornais passaram a ter o formato parecido com o que temos hoje em dia, com artigos relacionados a viagens, a assuntos políticos, críticas literárias e com a publicação, pelos folhetins, de obras literárias publicadas em capítulos.

Outras manifestações intelectuais que se manifestaram por ocasião do Romantismo foram a Oratória, o Teatro e a Historiografia, por exemplo. Dentro da própria arte de escrever uma estória, encontramos o Conto, a Poesia, e Novela e o Romance, como técnicas e formatos literários específicos. Convém expor que a Oratória, como prática, surgiu em conseqüência do ambiente político onde se fazia necessário se destacar e melhor expor suas idéias. Logo os discursos políticos e/ou acadêmicos passaram a ter uma grande importância, estimulando inclusive que, desde então, oradores, renomados pela sua capacidade, publicassem seus discursos, tanto parlamentares com até mesmo acadêmicos.

Seguindo o rastro do Jornalismo, a Historiografia também se destaca no Romantismo, quando a história passa a ser vista sob um prisma técnico, crítico, destacando-se Alexandre Herculano como um dos mais importantes nomes da Historiografia portuguesa de então.

Em todo o período romântico duas tendências se confrontam e se prolongam até o fim do século, já em pleno naturalismo: o lirismo pessoal, confessional e o de inspiração universalista – seja religiosa, social ou científica. Essa contradição será encontrada ainda em Guerra Junqueiro, embora este pertença, cronologicamente ao Realismo. Da mesma forma, pode-se classificar de romântica a poesia de Antero de Quental. Na verdade, apenas com a obra de Cesário Verde, autor de “O Livro de Cesário Verde” (póstumo), é que o Romantismo foi ultrapassado.

Conforme se avança na segunda fase do movimento romântico, ocorrem manifestações bem distintas, como a do ultra-romântico Soares de Passos, mórbido e convincente, ou a do romantismo social e satírico de Xavier de Novais e a agressiva passagem dos poetas panfletários. Na verdade, paulatinamente se chega ao terreno indeterminado em que a opção romântica dá lugar à vigência das escolas realista e naturalista. Na segunda metade do século XIX, essa mudança pode ser observada na obra de um mesmo escritor, na poesia em que se opõe o lirismo confessional e a poesia social ou, eventualmente, parnasiana.

Realismo

O Romantismo teve no Realismo senão um fenômeno opositor, pelo menos um fenômeno contestador da forma de o “Romantismo” ver e expor o mundo.

No Realismo o herói, ou melhor, a personagem de destaque, principal, era sempre uma figura que retratava alguma realidade, seguindo o fervor da exatidão, ou seja, toda descrição deveria ser exata quando se comparada com a realidade. A realidade deveria ser retratada tal como era, sem visões românticas ou com fundo de moral. Daí as constantes críticas a instituições, quer políticas, quer religiosas. Em países como a França, por exemplo, o Romantismo teve uma importância fundamental em um maior entendimento de sua sociedade. Escritores como Victor Hugo, autor de “Os Miseráveis” e Emile Zola, autor de “Germinal”, ainda hoje são reverenciados como marcos desse período literário, também ocorrido junto à literatura francesa.

Logicamente que todas as transformações e novas formas de pensar rapidamente chegariam em terras portuguesas, até porque a Universidade de Coimbra sempre foi um dos mais fortes e sempre atualizados pilares do saber ocidental. Assim, sob um mundo em que passava por uma profunda análise, Eça de Queirós se destacou como um grande retratista da realidade portuguesa e da alma humana de então. Tanto que em sua obra “A Relíquia”, por exemplo, Eça de Queirós expõe, até com profundo senso de humor, a capacidade do homem de então em não ter pudores, nem ética, fazendo-se uso de artimanhas com o objetivo de se locupletar. Convém salientar que a obra citada também acaba por revelar, quase que como uma descrição historiográfica, um interessante momento que o mundo passava que era a grande importância que neste século teve a Arqueologia, praticamente surgindo como Ciência, e em muito influenciada por Napoleão, que ao se deparar com as pirâmides do Egito, passou a incentivar toda uma série de escavações, tal qual alguns ingleses já faziam, no intuito do incremento de informações sobre nossa História Natural. Logo, a busca por uma relíquia histórica, religiosa, era um dos inúmeros assuntos do momento e ainda dava margem para severas críticas à Igreja Católica Apostólica Romana, que não só detinha grande parte dos acervos históricos, certamente com muitas relíquias, mas como ainda detinha um imenso poder político.

Ainda, como segundo exemplo do enfoque realista da literatura de Eça de Queirós, em sua obra “O Primo Basílio” o autor novamente satiriza a mentalidade e o comportamento da alta-burguesia de Lisboa. Publicado em 1878, representa um dos primeiros momentos de reflexão crítica sobre a organização da sociedade burguesa em Portugal no século XIX. Valores sociais são questionados e não é mais possível fingir que não existe uma sociedade hipócrita, que vive de aparências.

Acreditando que apenas baseados na verdade poderiam combater as injustiças sociais do mundo, os realistas negaram a arte pela arte, aboliram a retórica considerada como uma arte de comoção e analisaram os valores sociais baseados na verdade absoluta.

O Realismo, como fenômeno literário teve início a partir de uma série de desagravos e debates principalmente em torno do esgotamento do Romantismo, mas também gerados por questões disciplinares impostas aos alunos da Universidade de Coimbra. Esses alunos que protestavam liam as mais recentes obras literárias de então, que estavam repletas de idéias liberais, logo uma disciplina clerical não era por eles admitida. Foi por isso que, na cerimônia solene de distribuição das premiações acadêmicas de 1862, mal o reitor iniciou o discurso com as palavras sacramentais “Mocidade acadêmica”, a citada mocidade acadêmica lhe voltou às costas, saiu em bloco da sala e foi para o Pátio dos Gerais protestar.

Os jornais políticos levaram isso muito a sério e deram uma enorme cobertura ao fato. A sociedade temia que a falta de ordem na universidade pudesse trazer problemas futuros ao país. A opinião pública assim condenou a atitude dos estudantes e um deles, Antero de Quental, um jovem que gozava de grande prestígio entre seus colegas, veio a público com um manifesto dando explicações sobre as razões dos estudantes. Com o tempo, apenas no campo literário que esta ação se fez sentir.

Em 1865, em nome do status quo, o academicista Antônio Feliciano de Castilho atacou, via carta, a temática de poetas publicados por um editor de Coimbra e, na ocasião, fez comentários depreciativos a Teófilo Braga e Antero de Quental.

Antero de Quental publicou então um livro de poemas, “Odes Modernas”, e incluiu nele uma nota em prosa, nomeada “Bom Senso e Bom Gosto”, na qual escrevia: “A poesia moderna é a voz da Revolução – porque a Revolução é o nome que o sacerdote da História, o tempo, deixou cair sobre a fronte fatídica do nosso século”. Ainda taxou de imobilista e provinciana a poesia de Castilho, defendendo as ciências, as novas idéias e o realismo. Camilo Castelo Branco e Ramalho Ortigão intervieram a favor de Castilho, enquanto Eça de Queirós apoiou Antero de Quental. Essa atitude que desencadeou a famosa “Questão Coimbrã”, uma polêmica puramente literária que fez correr rios de tinta.

Foi um verdadeiro entrave o que ocorreu entre duas tendências opostas; de um lado uma nova corrente de pensamento científica e realista, e de outro lado a antiga corrente sentimental e romântica. Foi um movimento que se apresentou com uma real capacidade de entendimento dos destinos mais nobres e superiores da literatura moderna, contrapondo-se, protestando, contra a banalidade do falso sentimentalismo, defendiam alguns intelectuais da época. Para Teófilo Braga “a Questão de Coimbra significa simplesmente a dissolução final do Romantismo”. Seria este o ponto de partida para o Realismo.

Certamente, a principal diferença entre Romantismo e Realismo é que o primeiro é ficção e sentimentalismo, e o segundo é a busca mais próxima possível do retrato da realidade, sem sentimentalismos. É a própria crítica.

Após essas comparações e digressões, para melhor exemplificar o trabalho, pode-se observar que no Romantismo havia uma idealização enquanto que no Realismo havia uma crítica e com a necessidade de mudança e de inovação, foram surgindo novas maneiras de se pensar literatura e o mundo ao seu redor.

Bibliografia

FERREIRA, Joaquim. História da Literatura Portuguesa. Editorial Domingos Barreira Porto, quarta edição. 1971.

MASSAUD, Moisés. A Literatura Portuguesa. Editora Cultrix, sétima edição. São Paulo, 1969.

*Elias da Mota Ferreira, brasileiro, nascido em Duque de Caxias, é bacharel e licenciado em Letras Português/Italiano pela UFRJ e atua como professor.

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Por Elias da Mota Ferreira, em 16/06/2009 - 12:21. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.

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