O real e o imaginário de Machado de Assis e Dalton Trevisan.
Este trabalho tem por objetivo refletir sobre algumas características do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis, e do conto A Casada Infiel, de Dalton Trevisan. A partir da leitura das obras supracitadas e de outras leituras críticas que serviram de base para se obter uma visão crítica destas obras-primas da literatura brasileira, sendo que uma do final do século XIX, mais precisamente 1899, e outra mais contemporânea, datada do século XX, 1988.
Primeiramente, podemos pensar se tais obras são atemporais, devido ao longo espaço de tempo entre elas. Sim, são intemporais porque apresentam uma problemática ainda atual na nossa sociedade e remonta a fatos que aconteciam em outras épocas, porém continuam a se perpetuar em nossa sociedade contemporânea. Como por exemplo, o formalismo, o convencionalismo, etc. Ambos os autores fazem com que seus leitores percebam um certo humor no trágico e que possam rir da sociedade e ao mesmo tempo pensar em algumas contradições: humor/trágico; imaginário/real; fidelidade/infidelidade, etc.
Ao analisarmos os textos, percebemos muitas características peculiares e outras discrepantes. Por exemplo, o narrador participa da história; o que prende o leitor é a reflexão (apesar de alguns capítulos em Dom Casmurro serem bem presos uns aos outros, o que é privilegiado é o ponto de vista do leitor); mas a linguagem é bem diversa: em Dom Casmurro, privilegia-se a norma culta, um linguajar bonito, enquanto em A Casada Infiel, o léxico escolhido pelo autor é bastante coloquial, típico das camadas mais populares da sociedade; linguagem com conotação sexual, etc. Tanto em Dom Casmurro quanto em A Casada Infiel, o que prende o leitor é a reflexão. Ou seja, não se sabe quem está certo ou errado no conto (se o homem ou a mulher), e também, não fica claro até que ponto Bentinho se faz de coitado ao julgar Capitu por causa do seu ciúme exacerbado. Interessante que o trágico ocorre em A Casada Infiel devido ao suposto adultério da mulher, mas este fato fica bem mais evidente do que no caso de Capitu em Dom Casmurro. Há uma enorme diferença entre o acontecido e o narrado, e o leitor fica sem saber em quem acreditar, sobretudo no conto em que existem as duas narrações, as duas versões do fato (a do homem e a da mulher). Já em Dom Casmurro, só conhecemos a visão de Bento Santiago, pois o livro é narrado por este em primeira pessoa (ora na figura de narrador, que simplesmente conta a história; ora como narratário em que narra os fatos, está incluído no enredo e conta sua história do seu próprio ponto de vista).
Importante em ambos os textos é que não importa tanto a verdade absoluta dos fatos porque de qualquer maneira os lares são desfeitos e o trágico acontece, seja em uma simples separação (Capitu e Bentinho), seja em um caso mais grave, de agressão, como acontece no conto de Trevisan. Não existe tal verdade senão não existiria o tão famoso enigma entre Bentinho e Capitu.
O que ocorre de fato é que os homens viviam de maneira patriarcal, onde eles eram os provedores. Hoje em dia, isso mudou. A mulher também passou a ser provedora, porém o homem permanece em seu pensamento antiquado, arcaico … e acredita que a mulher tenha de desempenhar várias funções e ser mantenedora do lar e de suas obrigações de mulher.
O homem, não acostumado a essa nova mulher, torna-se invejoso e se sente ameaçado pela mulher que se fortalece ao sair para trabalhar e ganhar o seu espaço.
Existem várias interpretações em relação à obra machadeana e o mais importante é sempre surgirem novos estudos, novas hipóteses para pensarmos sempre em algo de novo sobre a obra de Machado de Assis, tornando-a imortal e infinitamente estudada. Para isso serve a hermenêutica, que estuda a interpretação de textos e pode nos levar a pensar no por que do ciúme de Bentinho. Seria ciúme de Capitu? Seria ciúme de Escobar? Existem estudos que pensam até em uma possível bissexualidade do protagonista de Dom Casmurro. Tudo porque no capítulo 118 intitulado A mão de Sancha, Bento Santiago apalpa os braços de Escobar e diz que sente inveja sobretudo porque até sabiam nadar. Há também, ainda no mesmo capítulo, uma declaração de Bentinho em que ele se sente atraído por Sancha e fica pensando em suas mãos, o que torna dependendo do ponto de vista, uma traição do próprio ciumento que agora passa a pecar e a desejar a mulher do seu melhor amigo Escobar. Depois ele se faz de coitadinho, mas Bentihno sente ciúmes de Capitu e ao mesmo tempo sente-se atraído por Sancha. Coisa de doido.
Marta de Senna (1998), fala dessa “loucura oblíqua e dissimulada” evidenciada no capítulo 25, quando José Dias fala do olhar de cigana de Capitu que se trata de um olhar malicioso e dissimulado, mas ao mesmo tempo em que Capitu é massacrada por possuir tal olhar, o mesmo ocorre com Bentinho. Enfim, fica evidenciado o que acontece ainda hoje: a mulher não pode nada e o homem pode tudo.
Ainda segundo Senna (1998), o narrador nos convida (nós leitores) a preencher as lacunas que faltam no texto. Sendo assim, o próprio Machado de Assis nos dá total liberdade para exercitarmos a nossa interpretação dos fatos. O que não fica tão explícito no conto de Dalton Trevisan, mas logo nos questionamos sobre em quem acreditar, na versão do homem ou na da mulher.
Façamos a nossa escolha.
Bibliografia:
ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. Coleção livros O Globo. Editora Klick.
TREVISAN, Dalton. A Casada Infiel. In: —— Pão e Sangue. Rio de Janeiro: Record, 1988.
CANDIDO, Antonio. Esquema de Machado de Assis. In: ——– . Vários Escritos. São Paulo, Duas Cidades, 1970.
SENNA, Marta de. O olhar oblíquo do bruxo. ; ensaios em torno de Machado de Assis. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998.
SOUZA, Ronaldes de Melo e. O romance tragicômico de Machado de Assis. Rio de Janeiro: EDUERJ, 2006.
MEYER, Augusto. Machado de Assis 1935-1958. Livraria São José. Rio de Janeiro, 1958.
SCHÜLER, Donaldo. Plenitude Perdida. Formas da narrativa – II. Uma análise das sequências narrativas no romance Dom Casmurro de Machado de Assis. Editora Movimento. Porto Alegre, 1978.
SAMPAIO, Maria Lúcia Pinheiro. A interdição do desejo. Leitura psicanalítica de Dom Casmurro. João Scortecci Editora. São Paulo, 1989.
HOUAISS, Antonio. Dicionário da Língua Portuguesa. Editora Objetiva. Rio de Janeiro, 2001.
*Elias da Mota Ferreira, brasileiro, nascido em Duque de Caxias, é bacharel e licenciado em Letras Português/Italiano pela UFRJ e atua como professor.
Por Elias da Mota Ferreira, em 03/08/2009 - 00:10. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.

























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