O que não mata engorda!

Por em 14/06/2010


PesoJá repararam como a sociedade não perdoa as pessoas que estão “acima do peso”? Não importa o grau de intimidade entre as partes, certos indivíduos sentem-se à vontade para palpitar na forma física alheia. São tantas as investidas em denunciar a todos ao redor quem está fora de forma, que, aquele que está distante do padrão, pressionado pelos comentários do grupo, só encontra duas saídas: o bom ou o mau humor.

É curioso notar que esta sociedade que pressiona quem está “acima do peso” a emagrecer rapidamente é a mesma que conduz, muitas vezes, as pessoas a ingerirem as mais diferentes marcas de cerveja e a consumirem, pela pressa dos afazeres, alimentos nos chamados fastfoods que tanto mal fazem ao organismo quanto ao bolso. Nossa comunidade pós-moderna induz ao consumo de altas calorias, mas rechaça o resultado que é o aumento de peso.

Num mundo pautado pelas aparências, estamos criando mais e mais fobias como o medo de sermos considerados gordos e não sermos aceitos pelo que somos, mas pelo o que aparentamos. Isso porque nossa sociedade, que a tudo rotula, imprime na pessoa gorda algumas características reguladas numa estética globalizante. Assim, a anorexia e a bulimia são doenças advindas também do medo de estar distante do padrão ditado pelas passarelas e academias.

Na verdade, ser gordo implica ser marginalizado, estar fora de um centro que movimenta todo um mercado da beleza imposta pelos canais midiáticos. Estar gordo para muitos significa que o sujeito, com camadas lipídicas acima do recomendado, não se ama, não ama a vida, de modo que acreditam que ele é um ser inferior, medíocre por não saber lidar com seus impulsos, por se fazer render a seus desejos alimentares. Dessa forma, quem está gordo também tem medo de não ser aceito pelo grupo por destoar fisicamente dele. O sociólogo polonês Zygmunt Bauman em seu livro A arte da vida atenta para essa questão:

Embora a ambivalência seja a companheira constante da condição existencial humana, as relações humanas provavelmente não assumiriam a forma de desordens relacionadas à alimentação não fosse pela atual preponderância do impulso “centrípeto” e a resultante tendência a identificar o souci de soi (cuidado de si) e l’amour prope (auto-estima) com, básica e exclusivamente, o cuidado do corpo: mais precisamente, com o cuidado da boa forma corporal, ou seja, a capacidade do corpo de produzir e absorver os prazeres que podem ser oferecidos pelo mundo e pelos outros seres humanos que o povoam, e com a aparência do corpo, destinada a atrair potenciais doadores de sensações prazerosas. (2009:146)

O preconceito com a pessoa “acima do peso” é tão grande que chega às vias da crueldade, da deselegância, principalmente daqueles que se julgam finos (no sentido literal e figurado). Acreditar que uma pessoa, porque está gorda, não se ama, não se considera bonita, charmosa, envolvente, capaz de seduzir é de uma extrema ignorância e prepotência.

O mais preocupante nisso tudo acontece quando as pessoas associam excesso de peso com carência de intelectualidade, inteligência. Não precisamos ir muito longe para observarmos que há, entre nós, pessoas preguiçosas, com baixa auto-estima, depressivas, medianas intelectualmente, com pouca tendência ou resistência à criatividade, pessoas que, de fato, não se amam, que, muitas vezes, não conseguem estabelecer relações interpessoais duradouras e verdadeiras e que isso não tem nada a ver com o fato de elas serem ou estarem magras.

Chega a ser picaresco observar como algumas pessoas não se importam em tecer comentários sobre a gordura alheia na frente de quem quer que seja, sem notar que isso pode gerar constrangimento ao objeto de críticas que não tem como se defender a não ser pelas vias da ironia e do humor. Há pessoas que, não conseguindo emagrecer para chegar ao modelo de referência e não aguentando que outros olhem para elas mais pelo aspecto físico do que pelo intelectual, se assumem gordas, com tudo que este rótulo pode designar e ficam, de certa forma, mais livres para que, a partir de então, percebam que inteligência não está, definitivamente, atrelada a um corpo esbelto.

O excesso de peso também vem, em sua grande maioria, relacionado à doença. Vale lembrar que nem sempre e, recentemente, quase nunca, mente sã está em um corpo são. Isso porque um corpo são não é, e os médicos sérios sabem disso, necessariamente, um corpo magro, elegante, esguio ou sarado. Afinal de contas, nem sempre as pessoas chegam ou mantêm um corpo em forma de modo natural. Muitos indivíduos, desta sociedade líquida da aparência, se rendem a pílulas e a dietas que trazem malefícios à saúde. Para manter o corpo magro, alguns causam estragos irremediáveis à saúde. Além disso, o número de remédios que se toma hoje para conseguir dormir, ou para se manter acordado, para evitar depressão, ansiedade, enxaqueca e outros males da contemporaneidade é cada vez maior.

É comum ouvirmos comentários em relação às mulheres com mais peso como: “você tem o rosto tão bonito…” Neste momento, é inevitável não lembrarmos de Brás Cubas ao saber do “defeito” de Eugênia: “Por que bonita, se coxa? Por que coxa, se bonita?” Machado de Assis já chamava atenção para as mesquinhezas humanas. Tudo que escapa ao (pré)-estabelecido é alvo de nossas críticas e, dessa forma, podemos ouvir ecoar uma nova versão do pensamento de Brás Cubas: “Por que bonita, se gorda? Por que gorda, se bonita?”.

Graças a esse pensamento do culto ao belo, entendendo belo como corpo magro, muitos se sentem à vontade para externalizar sua objeção ao fora do preestabelecido. Há sempre “um puxão de orelha”, um “você precisa se amar mais”, um “não coma isso” e dificilmente um olhar para as causas que levam ao excesso de peso que são muito individuais. Não podemos generalizar a causa do acúmulo de peso, pois cada pessoa engorda por um motivo diferente, cada pessoa opta por alimentos de alto teor calórico por motivos diferentes, pressa, desejo, ansiedade, compulsão… Há pessoas que são ansiosas e quase não conseguem se alimentar e emagrecem a olhos vistos, já outras compensam na comida toda essa correria da vida atual.

Por enquanto, proponho refletirmos sobre o fato de nossa sociedade não gerar somente pessoas com excesso de peso, mas outras tantas com excesso de angústia em perceber que, mesmo estando dentro da chamada beleza padrão, mesmo tendo um corpo aparentemente aceitável e magro, encontram-se doentes. Isso para uma comunidade marcada pelo culto ao corpo deve ser realmente uma fobia, pois reforça aos que se consideram em equilíbrio com o mundo de que somos todos (gordos e magros) humanos e que o ser humano está sujeito à morte, independente de sua massa corpórea.

Para terminar, quero que fique bem claro que não estou fazendo apologia à gordura, mas provocando uma reflexão à falta de gentileza com o outro que está gordo, obeso ou “acima do peso” (Não chamem a atenção de uma pessoa acima do peso em lugares públicos, sendo amigo ou não dela. Isso é, como já mostrei, deselegante). Procuro ainda que continuemos pensando sobre a busca incessante por um corpo “perfeito”. O importante, a meu ver, não é estar com mais ou menos peso, o que é, de fato, relevante é estar com saúde, de bem com a vida e manter a alegria e a esperança em dias melhores apesar de. Urge ao ser humano, mais do que a aparência, a transcendência.

*Cintia Barreto é poeta e professora de Língua Portuguesa da rede estadual de ensino do Rio de Janeiro e da universidade privada, atuando nos cursos de Pedagogia e Letras. Mestra em Literatura Brasileira pela UFRJ. Pesquisadora do Núcleo Interdisciplinar de Estudos da Mulher na Literatura (NIELM-UFRJ). www.cintiabarreto.com.br




Por Cintia Barreto, em 14/06/2010 - 00:03. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.

8 respostas to “O que não mata engorda!”

  1. Cristina Silveira

    Querida amiga, brilhante suas observações sobre o preconceito e discriminação sofridos pelas pessoas gordinhas. Quando tocamos nesse ponto, de imediato, lembramos das pessoas negras e dos homossexuais, esquecendo que os muito gordos, os muito magros, os muito altos, os muito baixos, os pobres e tantos outros grupos tb são discriminados nessa sociedade pós-moderna que tenta “encaixar” todos na forma da perfeição, como se ela fosse algo “atingível”. Sociedade utópica e que, por isso mesmo, eternamente insatisfeita e infeliz.
    Amei o texto! Meus parabéns pela clareza na abordagem!

    #842
  2. Ricardo Braga

    Achei ótimo o texto! Em uma sociedade, onde o que vale hoje é a forma física e os lucros, estamos em um graaande dilema: Ficamos “magros” e morremos por falta de vitaminas e outras substâncias necessárias para o nosso corpo funcionar, ou nos enchemos de “pocarias gostosas” que fazem mal ao nosso corpo, mas por serem extremamente lucrativas, continuam com as propagandas cada vez mais massivas para o consumo delas; sem falar das propagandas de cervejas, que sempre aparece como um “slogan”, onde sempre ela esta associada a diversão e pessoas de forma física invejável. Já que ela faz com que você distenda o seu abdôme,seria bem melhor colocar as pessoas que beberam essa “mardita” e ficaram com o corpo com o farmato de pêra. não é?
    Tenho o corpo sarado, mas não gosto da enganação feita por essas propagandas.

    #843
  3. Cristina

    Cintia,
    Você está cada vez mais autonoma. Isto é maturidade! Assumir seu gosto, suas preferências, sua linguagem, sua afetividade e, aqui não falo de emoção, mas de se permitir afetar pelas coisas e, desta manifestar-se, são demonstrações de que a mulher esta tomando conta da alma de menina, sem dela esquecer.
    Grande abraço
    Criskoff

    #844
  4. Maravilha de texto : coeso, fluente, bem estruturado, coerente com seu estilo brilhante de ser!
    Grande reflexão, Cíntia!
    Amélia Alves

    #845
  5. Mariangela ALmeida

    Lindo texto! Que bonito ver crescer uma escritora de tanto talendo, ver uma menina/mulher e de repente ver uma mulher/menina. Beijo grande! Brincando com as palavras de Drummont, amo esse velhinho. Um presentinho para você.

    Menina/Mulher
    Por muito tempo achei que permanecia a menina/mulher.
    E lastimava essa falta mulher/menina.
    Hoje não lastimo mais.
    A ausência é um estar em mim.
    E sinto-as, brancas, tão pegadas, aconchegadas nos meus braços,
    que rio e danço e invento exclamações alegres,
    porque a ausência assimilada,
    ninguém a rouba mais de mim.

    Mariangela Almeida.

    #846
  6. Ana Mesquita

    Você, heim Cintia, como sempre muito autêntica, além de muito expressiva, inteligente e altamente pertinente em suas colocações! Adorei mais essa! Engraçado, a medida que lia o texto não tive como não pensar em mim! Sempre escuto o seguinte comentário: “Ah! Gostaria tanto de ser igual a você! Maniquim 34…!” O que muitos não sabem é que padeço de uma terrível diabetes tipo 1, sendo “magrinha” ou “magrela” não por opção, mas por ser necessário manter o “lindo?” corpinho de 45 quilos!!! Apesar de ser o padrão exibido (e exigido) pela sociedade, o que eu mais desejo é ser saudável!! Beijos Cintia! E parabéns por sua incrível capacidade de se amar!!!

    #847
  7. José Roberto Cascelli

    Cara Cintia:
    Lamento apenas o fato de conhece-la só no meu último período na Unigranrio. Mas seu astral contagiou-nos de tal forma que, mesmo à distâcia, e, agora mais do que nunca continuarei a admirá-la. O que faz mal não é o que entra pela boca das pessoas, sim o que sai. Beijos

    #849
  8. Marta Nogueira

    Excelente matéria! As pessoas realmente precisam parar de se preocupar o que as pessoas acham dela, se está gorda ou magra, precisam parar de agradar os outros e se agradar, se amar. Isso só enriquece as academias, as indústrias de produtos quimicos para emagrecer (verdadeiros venenos)ou engordar, sim porque, os magros também sofrem preconceitos, sou magra por natureza e às vezes me perguntam se tenho alguma doença, se estou aidética, o que é um absurdo, a minha magreza sou interessa a mim, só a mim, sou feliz, não me importo se tenho corpão ou não, não malho, não faço dieta para emagrecer ou engordar, como e bebo o que não me faz mal, por prazer,tenho uma saúde perfeita. O importante é voce ser FELIZ com vc mesma!

    #858

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