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O novo ensino médio e o aumento do analfabetismo científico

O sociólogo italiano Domenico de Masi, com muita propriedade, afirma que o desenvolvimento de um país não deve ser medido pelo seu PIB ou por outros indicadores econômicos, mas sim pelo número de pessoas graduadas de sua população. Por outro lado, nos ensina também ser impossível uma adequação aos novos mercados de trabalho daqueles que são analfabetos científicos, em uma sociedade cada vez mais dependente da tecnologia e da ciência.

Nesse sentido, mesmo os mais otimistas em relação ao futuro do Brasil, percebem que há duas sérias barreiras a se vencer com urgência: o ingresso na universidade e o analfabetismo científico. Entretanto, caminhando exatamente na contramão do que deveria ser a solução para esses dois sérios problemas, o Senado da República acaba de aprovar a reforma do Ensino Médio. Nela está previsto um núcleo de conteúdo comum em todo o território nacional, correspondente a 60% do total programático. Os restantes 40% seriam de livre escolha dos alunos que teriam, assim, o direito de escolher disciplinas afins com a da carreira que pretendem seguir no nível superior de ensino. Quatro são as grandes áreas: ciências humanas, ciências da natureza, linguagens e matemática.

Talvez alguns defensores dessa proposta vejam nisso uma vantagem que acabaria facilitando o ingresso na universidade. Entretanto, vejo mais desvantagens e algumas ponderações devem ser feitas. Em primeiro lugar, quem é professor universitário vê com muita clareza que é bastante significativo o número de jovens que passam no vestibular e se dão conta de que escolheram a carreira errada. Ora, imagine o que vai acontecer se tal escolha foi antecipada de três anos. Muitos cursos universitários têm exatamente o básico comum de dois anos exatamente para dar tempo ao jovem de refletir, com mais maturidade, sobre seu futuro profissional. Resta ainda saber se essa pretensa facilitação no ingresso não contribuirá para o abandono do curso, por falta de uma educação mais sólida e mais generalista. Ou ainda, não se pode prever como esse aluno assim formado no ensino médio estará preparado para ter uma sólida formação. Isso tudo sem falar nos problemas inerentes à situação atual das universidades.

O problema da alfabetização científica, por sua vez, deve ser considerado uma parte integrante essencial da problemática geral da Educação. Lamentavelmente, há muito tempo, a educação deixou de ser entendida como instrumento indispensável na formação do cidadão e vem sendo praticada como mero treinamento. Agora, com essa proposta aprovada pelo Senado, um treinamento ainda mais direcionado.

A alfabetização científica, por outro lado, é importante para o pleno exercício da cidadania. Para que essa afirmativa não parece simplesmente como mais um daqueles chavões comuns por aqui, podemos dar alguns exemplos do quotidiano em que o analfabeto científico tende a ter sérias dificuldades. Por exemplo, é difícil (e às vezes quase impossível) fazer com que um anticoncepcional (ou um medicamento) seja utilizado corretamente. Muitas mulheres e seus parceiros não conseguem ver qualquer tipo de relação de causa e efeito que efetivamente justifique o uso da pílula com regularidade, mesmo nos dias em que eles não têm relação sexual. É aceita, quando muito, uma relação de causalidade estrita, muito imediata: se a gravidez pode vir da relação sexual, “então” é preciso tomar a pílula quando se tem uma relação, e é só. Além disso, os medicamentos em geral são receitados esperando-se que o paciente tenha a noção de ciclo, de continuidade e de intervalo de tempo. Poderíamos dar uma lista enorme de exemplos, mas preferimos ressaltar que a importância da alfabetização científica não deve se restringir a melhorar pontualmente o quotidiano das pessoas; ela deve mudar as próprias pessoas.

Espera-se que do estudo de Ciências o cidadão possa constatar a relevância de valores tais como: curiosidade, humildade, honestidade, verdade, razão e ética. O cientista, assim como o velho alquimista ao mexer com a Natureza tentando compreendê-la e transformá-la, está, sobretudo, mudando a si mesmo, crescendo como ser humano. Esse processo contribui para tornar o ser humano mais crítico, mais sonhador e, muitas vezes, importa tanto ou mais do que o próprio resultado alcançado. É esse tipo de processo criativo que prepara o individuo para enfrentar os desafios do novo, a não temê-lo.

Dito isso, imaginemos que a escolha entre os quatro grandes grupos do saber seja uniforme (em uma primeira aproximação), ou seja, admitamos que apenas 25% dos alunos optem por ciências da natureza. Isso quer dizer que há uma enorme chance dos demais 75%, a partir da implantação do novo Ensino Médio, sejam analfabetos científicos. É assim que pretendemos formar mais gente? É essa a Escola que vai mudar o país?

Quem dera vivêssemos em uma sociedade na qual a escola ensinasse que se cria assim como o artesão trabalha o barro: transformando a matéria e, ao mesmo tempo, transformando a ele próprio. Essa é uma atitude que deveria ser o fulcro de todo projeto de alfabetização científica. Só assim, o país poderia enfrentar os desafios do terceiro milênio (que já começou, lembre-se) de cabeça erguida, pois, como afirma ainda Domenico de Masi, a sobrevivência na sociedade pós-moderna, eminentemente científica, reside fundamentalmente na criatividade e, acrescentaríamos, no sonho. Sendo assim, com que futuro se pode acenar a quem não for alfabetizado em Ciências?

*Francisco Caruso é físico, escritor e bibliófilo, pesquisador titular do CBPF e professor associado da Uerj. Co-autor do livro Física Moderna: Origens Clássicas e Fundamentos Quânticos, que recebeu o Prêmio Jabuti em 2007. Membro do Pen Club do Brasil e agraciado com a Ordem do Mérito Científico da Academia Roraimense de Ciências.

Comentários

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Comentários

  1. O avanço do analfabetismo científico patrocinado por fundamentalistas religiosos tacanhos é preocupante. A internet pulula com pseudociências, irracionalismo, misticismo envolvendo Terra Plana, Terra Jovem, criacionismo fixista dos 6 mil anos, máquinas de “free energy”, “cura quaântica”, astrologia …

    Urge uma educação científica obrigatória!

  2. Roberta disse:

    Acabei de passar paga meu coordenador geral de ensino. Será assunto na próxima reunião pedagógica de nossa unidade IFAM

  3. De acordo. A questão aqui me lembra muito os Estados Unidos, onde hoje temos uma sociedade ignorante que luta para manter o país e sofre para inovar, dependendo de talentos estrangeiros. Passei por aquele sistema de educação e sei das críticas de velhos e novos professores.

    Existe porém algo mais preocupante, é o fato de que o nosso país precisar crescer em diversas áreas e para isso depende muito da ciência, algo que se hoje já é considerado algo inútil por boa parte da população, será pior nas próximas gerações.

  4. Marcello Santo Nicola disse:

    Gosto da idéia de deixar uma parte do currículo livre para escolha, ocorre assim em muitos países. Meu problema é com as disciplinas escolhidas como obrigatórias, particularmente na dupla filosofia & sociologia, quando ciências fica como facultativo. Ora, num país repleto de problemas de infraestrutura sanitária e logística, que importa médicos (e não vi ninguém clamando pela importação de filósofos, sociólogos, advogados, historiadores, etc para resolver os problemas que assolam o Brasil), num mundo onde a inovação tecnológica é o maior motor do desenvolvimento não apenas econômico mas humano e político (ou alguém discorda que a popularização da internet está na raiz da dificuldade atual de ocultar maracutaias?) essa opção das autoridades pelo esoterismo pode ser considerada um crime de lesa pátria. Mais um…

  5. marli moraes disse:

    A nova reforma do ensino vai acentuar o analfabetismo do brasileiro, realmente fiquei preocupada quando li sobre o assunto.

  6. CICLAMIO BARRETO disse:

    O projeto que efetivou o impeachment da Presidente Dilma Rousseff foi grandioso. Aqui, essa palavra significa nada mais, nada menos que a abrangência de afetação do seu sucesso. Os danos na educação, per se, são grandiosos, mas se olharmos exclusivamente para o ensino médio e apreciarmos esse nível de ensino sob a perspectiva dessa reforma, então outra palavra diz pouco. O ensino médio foi grandiosamente deturpado. O tempo integral inserido na reforma é só um canto de sereia. O essencial é que o ensino médio deixa de ser uma etapa de ensino para formar verdadeiros cidadãos. Passa a desovar uma maioria alienada de jovens para servir à sociedade. Do tipo que vão exigir que seja a sociedade que os sirva. O exemplo mencionado pelo autor, da aniquilação da alfabetização científica, é uma tragédia já existente, que irá se aprofundar ainda mais, protagonizada pelos egressos desse novo ensino médio. Os problemas da implantação dessa reforma ainda não estão devidamente dimensionados. Só para exemplificar, como se vai deixar de ensinar biologia, física e química e passar a ensinar ciências da natureza, se todos os professores em atuação que são formados obtiveram seu grau em licenciaturas por área? Que professor de biologia estará capacitado para ensinar física? que professor de química estará capacitado para ensinar biologia? Enfim, o ensino médio foi posto no mato sem cachorro por esse governo que, com essa reforma, visou tão somente atender os interesses de corporações privadas atuantes na área da educação.

  7. Vitor Manuel disse:

    No Uruguai o caminho para o ensino superior é precedido por dois anos de preparação. A escolha é gradual. São seis anos entre o fundamental e o médio (três para cada). No quinto ano o aluno escolhe entre biológicas, humanas ou científico. No sexto as opções novamente se afunilam e o aluno escolhe mais uma vez.
    Ou seja, os adolescentes charruas teriam o nosso mesmo problema em dobro, escolher duas vezes o seu destino acadêmico e profissional antes de colocar o pé na universidade, porém no Uruguai isso não é um problema.
    A origem do analfabetismo científico, político, ou quantos vocês quiserem encontrar, está em outro lugar. O Brasil tem um sistema de castas. Ponto.
    No Uruguai o cidadão é mais crítico porque não existe vestibular e ninguém com título superior é percebido ou tratado pela sociedade como possuidor de título nobiliárquico.
    Os professores tampouco passam a mão na cabeça de ninguém em nenhum momento da formação do aluno: ou o aluno estuda ou está fora.
    Resumindo: se o aluno recebe educação rigorosa desde cedo, com 16 ou 17 anos será perfeitamente capaz de reconhecer em si próprio aptidões e interesses com os quais pode discriminar que caminho seguir; após isso, não terá que lidar com vestibulares nem com concorrência desleal frente a garotos de castas superiores; e será crítico, e o será desde cedo, pois uma sociedade crítica e lúcida é uma construção dialógica e diacrônica, em que o aluno em sala de aula é apenas uma das etapas em que a conscientização e a cidadania são realizadas.
    Paulo Freire afirmava que os oprimidos costumam imitar os opressores.
    A institucionalização do pensamento crítico no Brasil não reflexo de uma das formas em que o poder se manifesta de forma patente?
    Pensar que a educação entre quatro paredes é a solução para os problemas da população fez com que esta fosse para a universidade, vejam só, para “se dar bem”. E ela, “dando-se bem”, entrou no baile da burguesia, atuou politicamente de forma a beneficiar os seus malfeitores, e não se tem notícia de quando a criticidade que este setor absorveu no Prouni ou na federal por meio das cotas fará o seu trabalho revolucionário.
    E incrivelmente o campo progressista continua pensando a educação crítica dentro do formalismo institucional sem uma análise mais profunda da questão, numa visão marxista quase mecanicista em que o mero acesso às futilidades do poder hegemônico liberal da academia (pois não se encontra muito mais do que isso) garantirá que se conforme da noite para o dia uma “classe para si” (opa, Hegel, não ficou bonito?).
    Há muita mediocridade e apego academicista em toda a sociedade civil brasileira, especialmente na esquerda.
    A reforma aprovada é como muito neutra. O problema dos muitos analfabetismos da sociedade brasileira se apoia em grande parte num sistema de ensino exclusivista que o pensamento progressista se recusa a atacar; e nada, absolutamente NADA de progressista de fato ocorrerá neste país se o sistema de castas culturais não for abalado nas suas bases e demolido para sempre. É primordial. Latir para reforma liberal sem aprofundar a crítica é agir como covarde.

  8. Wagner Costa disse:

    Concordo. E da mesma forma que os 75% do exemplo seriam analfabetos científicos, os 25% também seriam analfabetos em ciências humanas. Todas as áreas são importantes para o desenvolvimento.

  9. Gilberto Olimpio disse:

    Gostei bastante do texto. Ele elucida a gravidade da situação dessa não generalização do ensino. Apesar de algumas visíveis vantagens para o aluno em poder escolher no que focar o estudo, o próprio Enem vai continuar cobrando de forma generalista e isso vai passar na realidade a dar vantagem aos alunos de escolas particulares que continuarão vendo todo o conteúdo da mesma maneira, já que nenhum pai que paga uma escola vai desejar que a criança tenha algum tipo de desvantagem mais a frente.

    Porém, eu percebo que há algumas coisas ditas (e não ditas) no texto que me incomodam. Como colocar que uma criança não ter ensino da natureza a tornariam uma analfabeta cientifica. As ciências humanas não são também ciências? Há um comentário aqui que chega a dizer que o fato de ciências não ser obrigatório faz com que quem estuda ciências humanas é quem “opta pelo esoterismo” e ainda provoca mais ao colocar que ninguém chama os cientistas sociais para solucionar os problemas do país. Eu vejo MUITOS – e a caixa alta aqui é necessária – cientistas humanos serem chamados na tv e darem seus pareceres sobre o assunto para logo em seguida dizerem que estão enganados, mentindo ou coisa que o valha.

    TODAS as ciências são importantes para a elucidação da nossa realidade. Seja você de qual área for. Todo o conhecimento é útil. Mas o Brasil e alguns cientistas naturais ou de matemática simplesmente ignoram o que é dito pela ciência humana como se fosse algum tipo de astrologia. Só para dar uma ideia, imaginem que um engenheiro está conversando com uma pessoa não entendida da área sobre como deve ser a sustentação de uma casa e o sujeito diz ao engenheiro que ele está errado e quem sabe mesmo é o vizinho/pastor/padre/amigo da internet?

  10. Adílio Jorge Marques disse:

    Muito bom, Caruso. Parabéns pela clareza.

  11. Krishnamurti disse:

    Visão romântica da humanidade.

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