O meu primeiro amor

Quando eu o vi naquela festa em uma chácara, ele estava dançando, no meio de tantas pessoas parece que um corredor se abriu e fiquei imediatamente encantado com a sua brandura e delicadeza, seus gestos eram suaves, seus olhos eram meigos e seu sorriso de uma doçura inesquecível.

Meus olhos fixaram-se na sua direção, um pouco de longe, não parava de ficar observando seus movimentos ao ritmo da música. Sim, fiquei hipnotizado com o brilho da sua luz. Aos poucos fui notando que timidamente ele começava a me olhar. Lembro-me, como se fosse ontem: Jean vestia um macacão e uma camisa xadrez verde, estava frio, e eu estava com uma jaqueta preta.

Lentamente fui me aproximando dele, e como percebi que estava sendo correspondido lhe falei próximo ao seu ouvido: “gostei de você!” e ele confuso apontou os dedos para si e me disse: “de mim?!”. Respondi-lhe então: “sim, de você!”. Só me lembro que pegamos um na mão de outro e fomos conversar em um lugar mais calmo.

Logo nos abraçamos e começamos a nos beijar. Jean se aquecia dentro da minha jaqueta, enquanto nossos corações pulavam dos nossos peitos. O encontro fora realmente mágico, desses que são extremamente raros de acontecer. Com o passar das horas além do desejo começou a emergir uma admiração mútua, uma sintonia de idéias e uma vontade de aprender um com o outro.

Além da beleza, Jean me fascinava pela sua sede de conhecer e saber sobre as coisas. Finalmente havia encontrado uma pessoa que me entendia, que acompanhava o meu raciocínio e que me ensinava a magia da vida. A sua alegria e o seu alto-astral me contagiavam.

Nesta época não havia celulares e nem internet, nós morávamos em cidades diferentes, mas isso não impediu que uma paixão nascesse entre nos dois. Nosso namoro depois deste primeiro e marcante encontro (que durou a eternidade) continuou por cartas, foram várias cartas escritas, cada uma delas trazendo a expectativa de um novo reencontro.

Nós marcávamos um horário para conversar no “orelhão”, quase sempre a noite, às vezes chegava ansioso no telefone, mas me deparava com outra pessoa usando o aparelho e eu ficava então mentalizando: “que essa pessoa pare de falar… meu namorado está esperando lá do outro lado da linha…”

Algumas semanas se passaram e Jean viria de ônibus para minha cidade e passaríamos o final de semana juntos. A paixão, sem dúvida, estava no ar. Nós nos completávamos em todos os sentidos, foram vários momentos lindos, até quando se está almoçando no shopping com alguém que se ama o nosso olhar brilha.

O momento inesquecível foi quando já tarde da noite ele adormeceu no sofá da sala. Eu cheguei carinhosamente perto do seu rosto e lhe disse sussurrando: “Jean vamos para o quarto…”. E quase que o carregando em meus braços ele delicadamente foi se entregando a mim… Nós estávamos vivendo um sonho.

Na rodoviária, depois de longos beijos e abraços apertados de despedida, ele já dentro do ônibus sentou-se no primeiro banco e me sorria o tempo todo. A felicidade era visível em sua face. Nosso namoro durou por alguns meses, cheguei a visitá-lo em sua cidade, conheci seus pais, sua família, amigos e amigas.

Eu ficava admirando a sua espontaneidade e a sua alegria de estar comigo. Como uma pessoa irradia tanta alegria simplesmente por estar ao lado de alguém? Hoje eu entendo que isso era o amor.

Na rua, caminhando com Jean, ele me apresentava a sua cidade como se estivesse me apresentando o paraíso. Conversávamos sobre o agora, o passado e o nosso futuro, mas uma coisa estava na nossa frente: a descoberta do mundo. Nós éramos muito jovens.

Eu estava vivendo intensamente o mundo da universidade, isso era tão forte que cheguei a influenciá-lo a ingressar na universidade também. Para o seu desespero, eu não tive a maturidade suficiente de compartilhar as duas situações: o amor por Jean e o mundo que se abria diante de mim.

Um único pensamento passou a tomar conta do meu ser: “primeiro eu precisava conhecer o mundo e no futuro voltaria a viver esse amor…” e foi assim que depois de alguns encontros e desencontros terminei com Jean.

*Ricardo Hirata Ferreira é doutor em Geografia Humana, FFLCH, USP, e pesquisador do Núcleo de Estudos de Gênero e Diversidade Sexual, NEGDS, UFSCar, Sorocaba, SP.

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