O medo de todos nós

Por em 31/05/2009


Na semana passada, assistí ao filme Medos privados em lugares públicos (Coeurs/2007), que se passa em Paris, onde seis pessoas estão em busca do amor, embora nunca tenham sido bem-sucedidas em suas tentativas. É a história do fracasso afetivo, mas, mais do que isso, é a história dos desencontros. O diretor Alain Resnais, de Ano Passado em Marienbad e Hiroshima, meu amor, retrata com maestria a problemática sempre atual da solidão, mas desta vez como conseqüência de uma série de mal-entendidos e desencontros. A narrativa do filme é lenta, mas sua construção é bem feita e aos poucos vamos conhecendo com mais detalhes a vida aparentemente tão diferente dos seis protagonistas e percebendo que seus dramas têm muito em comum.

Thierry (André Dussollier), corretor de imóveis, é irmão de Gaëlle (Isabelle Carré) e trabalha com Charlotte (Sabine Azéma). Ele tenta alugar um apartamento para Nicole (Laura Morante) e seu noivo, Dan (Lambert Wilson), que, desempregado, passa o dia no bar onde Lionel (Pierre Arditi) trabalha em vez de procurar um trabalho, para desespero de Nicole. Lionel, por sua vez, cuida do pai, um velho rabugento que não sai da cama e é cuidado, à noite, por Charlotte. Algumas interpretações equivocadas dos relacionamentos aproximam e afastam os protagonistas, remetendo-os novamente para a solidão.

Apesar de morarem em uma cidade que no imaginário coletivo lembra romance, amor, paixão, eles são seres solitários na essência da palavra. Não se sentem temporariamente sozinhos, mas sós. Em várias passagens do filme, parecemos ouvir Nietzsche dizer: “odeio quem me rouba a solidão sem em troca me oferecer verdadeira companhia”. Ou o compositor Tom Jobim, para quem “fundamental é mesmo amor; é impossível ser feliz sozinho”. É dessa impossibilidade que trata o filme.

A impossibilidade de conviver dia após dia com a solidão de alma, aquela solidão que maltrata, que parece sem solução. Como dizia o sociólogo Roberto Freire, de Ame e dê vexame e Sem tesão não há solução, não é a vida o contrário da morte e sim o amor. O filme, então, nos abre essa possibilidade: a de refletirmos sobre nossas escolhas tendo em vista a ocorrência de “acidentes”, “casos fortuitos” que podem surgir no percurso, e pede que não sejamos tão rigorosos nos nossos julgamentos. Afinal de contas, o ditado é antigo: as aparências enganam.




Por Luciana Mendina, em 31/05/2009 - 00:09. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.

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