O legado de Bush
Lembro-me, pouco mais de oito anos atrás, de uma conversa que tive com um velho amigo americano; um republicano de “carteirinha”. Eu o conheci na década de oitenta quando trabalhava para uma empresa de consultoria transnacional chamada Business International Corporation. A mesma em que Barack Obama estagiou. Para ser mais exato, no escritório em Chicago. Provavelmente tenhamos nos cruzado por lá, mas não me lembro de termos sido apresentados. Que pena. A empresa foi vendida para o The Economist e tanto eu como Axel, passamos um bom tempo atuando como uma espécie de correspondentes para essa grande organização. E, como não poderia deixar de ser, tínhamos nossas diferenças quando analisávamos os diversos aspectos ligados à economia e política internacional, principalmente nos assuntos relacionados a Brasil e Estados Unidos. Foi exatamente por ocasião das primárias em que Bush e Algore disputavam a indicação dos seus nomes para concorrer à presidência, que discutimos o assunto, em particular. Lembro-me muito bem dessa conversa, porque o Axel ria muito e dizia que eu estava parecendo Nostradamus. Segundo ele, eu (e a minha “bola de cristal”) deveria ser internado num hospital psiquiátrico! Tudo porque disse a ele que Bush iria ganhar as eleições, começaria uma guerra estapafúrdia, iria levar o país à bancarrota e junto com ele o resto do mundo.
Bush não só ganhou como foi reeleito. Arrumou uma guerra e transformou o superávit de mais de US$ 400 bilhões, deixado por seu antecessor Bill Clinton, em um déficit trilhionário ao final do seu governo. Primeiro, cuidou para que grandes corporações de diversos segmentos fossem arrastadas, criando uma bolha imobiliária e uma falsa imagem de uma política econômica mais do que acertada, conduzida pelo mago da economia Alan Greenspan. Depois… Bom, depois é história.
Mas acho que o verdadeiro legado de Bush, e de sua administração, vai além da crise econômica mundial. O bem maior é a prova de que o mal causado não implica responsabilidade. O velho clichê permanece: capitalizar os lucros de poucos e repassar os prejuízos a muitos. E ao seu sucessor, a hercúlea tarefa de encontrar meios de colocar o “trenzinho” nos trilhos. Um desafio e tanto, no sentido de resgatar a confiança, re-regulamentar o capital, promover a reforma das instituições globais, criar e desenvolver programas que minimizem os efeitos da mudança climática e, graças ao legado de Bush e Bin Laden, Barack Obama inicia seu mandato tendo duas frentes de batalha: Iraque e Afeganistão. A guerra do Iraque que se propôs a terminar e a guerra do Afeganistão que prometeu ganhar. Além, é claro, o desafio singular de tirar a America da recessão.
Em meio a esse tsunami sócio-político e econômico, dentre tantas outras na história dessa nação que, mesmo com a desastrosa administração Bush, concede ao mundo um legado maior, legitimado desde os primórdios de sua história com George Washington, John Adams e Thomas Jefferson, que moldaram aquele país com seus ideais democráticos. Queiramos ou não aceitar essa realidade, a verdade é que em nenhum momento, apesar de Lincoln e Kennedy, apesar de Nixon, nunca houve golpe de estado, e a constituição – sua carta magna – permanece como o bastião, guardiã exemplar e referência de um povo que não tomou, mas conquistou o poder e a hegemonia com inteligência e astúcia.
Julio Cesar Pitombo, 57, é formado em Administração de Empresas, com cursos de extensão e especialização em Economia, Recursos Humanos e Marketing, no Brasil e no exterior. Exerceu funções de nível superior no Grupo Financeiro Ipiranga, Bloch Editora, TV Globo, Xerox do Brasil, Cia. de Navegação Johnson Line, Interbras e Secretaria Estadual de Educação e Cultura do Rio de Janeiro. Foi Gerente de Planejamento e Operações do Centro Internacional de Imprensa do Fórum Global 92 – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), Diretor de Recursos Humanos para a Business International Corporation. Como consultor, hoje atua na área de Gestão Transcultural. Conheça o Instituto IDG: www.institutoidg.org
Por Julio Cesar Pitombo, em 03/04/2009 - 03:38. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.

























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