O homem da ganja

Por em 21/04/2012

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Afora aquele inconfundível cheiro que exalava pela janela quatro ou cinco vezes por semana, não havia nenhum outro motivo para reclamações na vizinhança. Dona Íria e Seu Jacinto que o digam. Moravam ao lado da cabana de madeira envernizada que pertencia ao inofensivo maconheiro, novo morador daquela pacata rua das Bromélias. O casal de anciãos era freqüentemente acudido pelo rapaz, que possuía avançados conhecimentos de eletricidade e conserto de eletrodomésticos em geral. Foi ele quem recuperou, sem cobrar qualquer tostão, a batedeira, o aparelho de som e o ferro de passar roupas dela. Em pouco tempo, tornou-se Cauã o mais confiável quebra-galhos da rua. Quando o assunto era rede elétrica, quase todos, exceto a família do Humberto, requisitavam-no em suas horas de folga. A todos acolhia com um semblante sempre tranqüilo e agradável que conquistava crianças, adultos e idosos. Trabalhava de sol a sol, de segunda a sábado, na Instalsul Engenharia Ltda., firma solidamente estabelecida no centro da cidade. Mesmo assim, atendia a vizinhança sem demonstrar cansaço ou contrariedade, pelo simples prazer de ajudar.

Dona Íria, que adorava conversar sobre plantas, chás e ervas medicinais, encontrou nele um perfeito parceiro para a troca de receitas e novas fórmulas contra as mazelas do corpo. Aprendeu a usar o capim cidrão para elevar a sua pressão e a espinheira santa para combater a úlcera do Seu Jacinto. Também, graças ás dicas do moço, conseguiu finalmente curar a cistite da neta apenas com o chá de cavalinha e pata-de-vaca. Ela e o marido admiravam-no, mas andavam um tanto confusos pelos comentários surgidos em torno dele.

Apesar de viver honestamente, com o suor do próprio trabalho, respeitando cada morador vizinho sem distinção, Cauã e a sua cabana nº 12 da rua das Bromélias andavam na mira da lei. O tal cheiro que incomodava, cheiro de erva queimada, atiçava, dia após dia, a inimizade de Humberto, proprietário de uma granja situada na descida da rua. O eletricista era um sujeito caseiro, que muito raramente recebia visitas, contudo, boatos começaram a associá-lo ao tráfico de drogas. Não tardou ele a perceber que a vizinhança começava a tratá-lo com certa frieza e que alguns pais já não deixavam os seus filhos pequenos demorarem-se para ouvi-lo em frente á cabana. Isso naturalmente incomodou-lhe um pouco, mas não o suficiente para fazê-lo mudar a postura com todos eles, pois era incapaz de guardar ressentimentos. Mudara a menos de um ano para o bairro, tendo em si a mesma determinação de um João-de-barro quando constrói o novo ninho. Fez questão de pregar, do assoalho ao telhado, cada tábua de sua casa. O trabalho lhe consumiu os domingos de folga durante dois meses inteiros. Nesse período, enquanto pacientemente erguia as paredes do “lar doce lar”, começou a cativar os vizinhos com o seu jeito simples, calmo e atencioso. Comprara aquele terreno com recursos que vinha ajuntando na caderneta de poupança à cerca de quatro anos.

Inicialmente, logo que se transferiu para o novo núcleo residencial, o odor da cannabis sativa foi atenuado pelo forte cheiro do verniz que ele ia aplicando à madeira. Com o tempo, porém, os olfatos mais apurados não tiveram muitas dificuldades para notarem que ele fumava maconha. Foi Dona Íria, a sua amiga de ar maternal, quem procurou abordar de frente o assunto durante uma conversa sobre a infusão das benditas ervas que curam. A explicação dada por ele tranqüilizou-a um pouco, pois afastou a hipótese do tráfico de drogas.

A sua relação com a ganja* tinha um caráter totalmente místico. Fumava para refletir melhor sobre problemas e esquecer experiências negativas, obtendo paz de espírito e coragem. A erva era para ele um canal de acesso ao Pai, deixando-o na freqüência certa para entoar os seus cânticos devocionais e preces ao mundo extrafísico. Além disso, auxiliava-o a exercitar o seu lado músico, que nunca, em nenhuma fase da sua vida, deixara de lado. Tinha um violão Giannini vermelho e nesses momentos de inspiração conseguia compor e aperfeiçoar as canções que escrevia. A ganja que consumia, comprava-a diretamente no sítio de um plantador anônimo na região metropolitana de Porto Alegre.

Nem todos tiveram a disposição e boa vontade de Dona Íria para ouvi-lo em suas justificativas. O tal Humberto da granja encabeçava a lista dos que desejavam vê-lo bem longe dali. O homem de 44 anos, criador de galinhas, tinha como principal fonte de renda a comercialização de ovos. Tinha também uma micro criação de suínos. Ano após ano ele comprava cinco ou seis porcos, alimentava-os bem e em dezembro, um pouco antes dos festejos natalinos, sangrava-os até a morte, vendendo-os em pedaços para a vizinhança. Do pai, já falecido, herdou a granja e a paixão pelo samba. Samba que não era feito com pandeiro, surdo, cavaco e violão, mas com cachaça e coca-cola, servidas em botecos da periferia. Bebia diariamente e sob o amparo da lei, dois ou três copos do “elixir” que o ajudava a esquecer mágoas, ganhar ânimo e tomar decisões. Costumava dirigir o seu velho Passat cinza em alta velocidade quando se embriagava e ficava violento quando era contestado. Em março de 2005, durante a festa de aniversario da prima, num acesso de fúria, deu um tiro em seu cunhado, que, segundos antes, chamara o Grêmio Foot Ball Porto Alegrense de “timinho mixuruca”. Contratou logo em seguida um bom advogado e alegou, com sucesso, ter agido apenas em legítima defesa.

Numa noite qualquer, ao voltar do boteco, Humberto sentiu o odor proibido exalando da cabana e tomou finalmente a decisão que há algum tempo vinha arquitetando. Estacionou o veículo a dois quarteirões do local, em frente a um orelhão, desceu um pouco cambaleante e daquele aparelho telefônico acionou uma patrulha policial. Vinte minutos após, quando a nuvem de fumaça já havia se desvanecido no ar, uma viatura da Brigada deslocou-se ao endereço apontado para proceder às averiguações. Da cabana escutavam-se apenas os precisos acordes do violão de Cauã, e o único cheiro que exalava desprendia-se da graciosa árvore pitangueira plantada por Dona Íria em sua calçada. Uma brisa fresca encarregava-se de espalhar pela rua o perfume daquele fruto tropical, proclamando aos moradores da Terra o pleno domínio da primavera.

O criador de galinhas, após a frustração, ficou ainda mais obstinado em meter aquele usuário criminoso na cadeia. Gastou aquela madrugada inteira refletindo sobre a melhor maneira de entregar em flagrante delito o eletricista. Quando os primeiros raios de sol romperam as espessas folhagens da cerca verde que circundava a sua granja, Humberto saltou da cama com ar de triunfo. Seus olhos estavam ainda vermelhos e o hálito simplesmente insuportável. Entrou no Passat, que estacionara ao relento no pátio, e tomou o rumo do bairro Floresta, onde morava o seu tio, um policial civil aposentado. Não existia grande amizade ou simpatia entre ambos e havia quase dez anos que não se procuravam. Contudo, a ocasião oportuna lhe fez tomar a iniciativa. Teve o cuidado de comprar antes uma caixa de uísque importado, Ballantines, para amenizar a frieza do reencontro. O velho apreciava as delícias de um bom malte, pois com ele descontraía, ficava ousado com as mulheres e sentia-se jovem. A conversa durou o tempo suficiente para o granjeiro receber das mãos do tio um cartão de recomendações indicando-lhe a certa delegacia que se encarregaria de investigar a denúncia. Sem perder tempo, deslocou-se até o distrito policial indicado e acertou todos os detalhes necessários para a prisão do seu vizinho. Eufórico, tão logo saiu de lá, Humberto começou a desabafar pelos botecos da redondeza que a sua vitória estava próxima.

Durante um mês e meio, agentes civis infiltrados nos arredores monitoraram as noites de Cauã e descobriram a melhor hora para agir. A abordagem certeira foi planejada e no dia e hora marcados o rapaz foi revistado quando chegava em casa com um pequeno embrulho enrolado em papel alumínio. Levou dois tapas na cara e sem reagir conservou-se encostado no muro com as mãos e pés afastados. Dois transeuntes passaram rapidamente naquele instante e sem encará-lo apenas comentaram entre si:

- Finalmente pegaram ele…
– É, já tava na hora.

Para surpresa dos inspetores, no entanto, o embrulho continha Boldo do Chile, uma erva com características diferentes da procurada. Havia junto uma folha de papel manuscrito contendo uma breve instrução medicinal:

Dona Íria, que assistira toda a operação pela fresta da janela, assim que a viatura se foi, surgiu rapidamente no vidro e ambos, ela e o eletricista deram uma cúmplice piscada de olhos.

*Também conhecida como marijüana e cannabis, é uma erva medicinal milenar usada pelos adeptos da filosofia rastafári, não para diversão ou prazer, mas sim para limpeza e purificação em rituais controlados. Muitos sustentam o seu uso através de Gênesis 1:29: “E disse Deus: Eis que vos tenho dado todas as ervas que dão semente e se acham na superfície de toda a terra e todas as árvores em que há fruto que dê semente. Isso vos será para mantimento”.






Por Cesar Soares Farias, em 21/04/2012.

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