O famoso “causo” da bordadeira.
As tardes sempre eram vazias quando Madalena não bordava. Já fazia parte do cenário da pacata vila de Coronel Feliciano do Araçá, a presença religiosa de Madalena, bordadeira das mais requisitadas, emoldurada pelos roliços pilares de Jequitibá da varanda de sua casa, vespertinamente de segunda a segunda, chovesse ou fizesse sol.
Aprendera a domar as linhas, esticar o tecido nos bastidores e a compor belíssimos e perfeitos desenhos desde menina moça. No início, era a mais pura obrigação, imposta pela mãe, para montar seu enxoval de núpcias. Com o passar dos anos, precisaram construir um “puxadinho” nos fundos do quintal pra guardar tantas e tantas peças bordadas, pois Madalena e o enxoval não conseguiam mais ocupar o mesmo espaço no quarto. Bordar acabou se tornando um vício em sua vida. Vez por outra um vizinho, saindo pra roçar logo cedo, a avistava já na varanda de agulhas e tecidos em punho, em plena 5 da manhã.
Enquanto Madalena bordava, o tempo passava à sua volta com uma rapidez cruel. Uma noite, durante o jantar, enquanto molhava o pão numa água com três batatas cozidas, seu pai levantou os olhos pra ela e declarou:
- Hoje vais conhecer teu noivo. Teje aprumada e não me faça passar vergonha.
Espantada, virou seu lindo par de olhos azuis pra mãe, pedindo socorro. De nada valeu. Noite dos infernos seria aquela. Já moça passada (como cochichavam na vila), Madalena teve um desarranjo nervoso que não conseguia se levantar da patente do banheiro. As batidas na porta e o ranger dos dentes de seu pai podiam ser ouvidos quase que no quarteirão inteiro.
O desarranjo custou-lhe um marido, além da oportunidade de finalmente inaugurar as peças do enxoval, ao invés de somente aumentar as dúzias dos bordados. E como em qualquer vila pequena, o causo do desarranjo ganhou fronteiras além do território de sua casa. Pior. O pai ficou tão desgostoso da situação que não conseguia mais pretendente pra Madalena. Ter uma filha encalhada numa família era pior que praguejar por mais de sete gerações. A vergonha só aumentava seu desejo de morrer. Até que um dia, o sino da igreja badalou fora de hora. Era a notícia que o pai de Madalena tinha ido desta pra melhor por puro desgosto.
Mesmo durante o velório, Madalena não largava o bastidor, as linhas e agulhas. Rezou o Terço inteirinho (sabia todos os Mistérios de cor) terminando um “caminho de mesa” de linho vermelho. Em um dos beirais, escreveu com perfeição: só Jesus salva. Quando fecharam o caixão, deu um jeito de colocar a peça bordada dentro.
Só cumpriu luto nos trajes. Continuou seus afazeres e alimentava seu vício com mais alegria de viver que antes. Era até de se estranhar. O tempo passou mais rápido ainda depois da morte do pai. Jamais se ouviu falar na redondeza de algum novo pretendente. Mas ela continuava a bordar um enxoval que nunca terminava (e nunca iria usar). O espaço no “puxadinho” já não era mais suficiente. A mãe, já pensava em abrir uma lojinha, um bazar pra vender as peças e ajudar nas despesas da casa e de gastos com mais linhas, mais tecidos e agulhas. E assim o fez.
A fama da riqueza, qualidade e perfeição dos bordados de Madalena correu mundo. Recebia encomendas de várias cidades da região, alguns estados e até do exterior. Bordava cada dia mais rápido, mais perfeito e tinha uma variedade de desenhos que impressionava qualquer um que chegasse a sua lojinha.
Aumentou o puxadinho, tornando-o um galpão. A mãe teve que aprender a dirigir e Madalena presenteou-a com uma Caravan 1980 muito conservada. Assim, ficava mais prático e rápido de fazer as entregas.
Um dia acordou com um mal estar e febre muito alta e depois da visita do médico, ganhou o diagnóstico de Dengue. Pronto. A cidade não falava em outra coisa senão na ausência de Madalena na varanda, bordando. Foram quase 15 dias de furdunço de gente frente ao portão da casa. A mãe acabou acostumando a servir um café com bolo de laranja todas as tardes pra aquele povaréu. Acreditava que estavam orando pelo restabelecimento de Madalena. Que nada! Sem Madalena na varanda da casa, bordando, a cidade ficava sem graça, perdia seu prestígio de Capital do Bordado (e olha que era só Madalena que bordava ali).
Por fim, ficou encalhada mesmo. Na vida, um único pretendente e ainda posto à prova pelo desarranjo nervoso da futura noiva. Quando fez 40 anos, perdeu a mãe (que já passava dos 80) por conta de uma pneumonia mal curada. Continuou bordando, mas como não dirigia, não entregava mais as encomendas. O galpão ia se enchendo a cada semana, a cada mês, a cada ano com mais e mais peças bordadas. Mas Madalena começou a se recusar a vender sequer uma toalhinha de mão.
Um dia, a cidade acordou mais cedo. Um clarão enorme cobria o céu naquele início de manhã. Fogo! Fogo! Gritavam os vizinhos assustados. O galpão da bordadeira queimava e labaredas vermelhas gritavam com o estouro de algumas pedras dos bordados. Precisaram chamar caminhão pipa de duas cidades vizinhas pra conter o fogo e não deixar que tomasse uma proporção maior e um estrago mais incalculável ainda. Foi então que se lembraram da bordadeira: onde está Madalena? Procuraram-na pela casa inteira meio a fumaça e fuligem que trafegava com o vento. Encontraram-na sentada em sua cadeira na varanda, olhos esbugalhados e o corpo balançando pra frente e pra trás sem cessar. As mãos vazias tinham o movimento do bordar, só que sem bastidor, sem linhas e agulhas.
Nunca mais Madalena segurou com firmeza uma de suas agulhas. Nunca mais bordou seu vício num caminho de linho. Encalhada e solitária, terminou seus dias arqueada na cadeira da varanda de sua casa, emoldurada pelos roliços pilares de Jequitibá. A cidade nunca mais teve o título de Capital do Bordado.
*Fátima Venutti é paulista de Osasco (1965). Reside em Blumenau desde dezembro de 2002. Formada em Letras, escreve desde os 11 anos e possui textos premiados em diversos Concursos literários; co-autora e organizadora de antologias da Sociedade Escritores de Blumenau-SEB (presidente em 2007); membro da Academia Catarinense de Letras e Artes (ACLASC), ocupando a cadeira nº 11, cujo patrono é o poeta Lindolf Bell. Publicou Último Beijo – poesias (Ed. THS Arantes, 2007) e Terceiro Apito -contos e crônicas (Ed. Nova Letra, 2008), ambas as obras bilíngue (português/espanhol). No prelo: Estação Catarina: O Trem Passou Por Aqui (contos e crônicas) – Ed. Nova letra – Blumenau/ SC. Lançamento em março/2010.
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Por Fátima Venutti, em 21/12/2009 - 00:01. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.

























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