O exemplo da Europa

Por em 22/07/2010


EurosA Europa vive uma crise profunda e conhecida. Vinha gastando muito mais do que podia. Fazia lembrar o Uruguai de moeda forte, chamado de “Suíça da América Latina”, quando começou a gastar o que não podia, viu seus produtos, como a lã, perderem mercado e valor. Não deteve o empreguismo oficial que chegou a um terço da força de trabalho. Vive, há décadas, desde que perdeu o encanto da paz social, com o advento do terrorismo tupamaro, uma crise sem fim, vendo sua mocidade emigrar. E o que foi uma democracia esclarecida acabou elegendo um antigo militante radical.

Na verdade, os países da Europa, nos anos 50 e 60, construíram fortes bases econômicas, com poupança e reservas, como foi o caso de Portugal, do Escudo estável, com a política de que “poupar é prosperar”, defendida pelo professor Salazar. O mesmo que, no final dos anos 20, resgatou o país do caos político, econômico e social para um longo período de ordem e muita dignidade. O fim do regime, após sua morte, só trouxe o beneficio da entrada na União Europeia, pois a legislação trabalhista e fiscal conspiram contra o investimento e o emprego. O país não tem condições de competir nem com o Leste Europeu nem com os Tigres Asiáticos.

A Espanha também soube superar dificuldades, depois de um isolamento cruel imposto pelos países comunistas na ONU e sob a indiferença das democracias. Mas, a partir de 55, iniciou a grande arrancada dos últimos 20 anos do General Francisco Franco, que aplicou, na ocupação dos cargos, a meritocracia em lugar de seus companheiros de Guerra Civil. Encontrou bons quadros entre os membros do OPUS DEI, que reunia tecnocratas cristãos de alto nível acadêmico.

Os demais países, envolvidos na guerra, foram beneficiados pelo generoso Plano Marshall, com que os americanos re-ergueram França, Alemanha, Itália, Holanda e Inglaterra. A França é um país dominado por sindicatos violentos, economia com grande influência estatal, legislação trabalhista do atraso, mas que sobrevive por algumas indústrias de alta tecnologia. Como é o caso dos setores aeronáutico e energético, além da agricultura forte e bem subsidiada e do turismo – divide com a Itália a destinação mais disputada do mercado mundial de maior renda. A Inglaterra vive entre o crescimento quando dos conservadores no poder e o déficit natural dos trabalhistas. Agora, vai se re-erguer, como ocorreu nos anos Thatcher.

A saída na Europa é política. Dependerá da coragem dos governantes para cumprir o que já estão fazendo no tempo necessário. E coibirem a baderna que só pode agravar a situação.

O Brasil sabe o que fazer e vem fazendo, sob o comando competente do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, e do ministro Guido Mantega. Sem falar na influência positiva desta figura extraordinária que é o ex-ministro Antonio Palocci, que, na verdade, foi o arquiteto dessa política fiscal séria – agora ameaçada pelos gastos públicos exagerados e pelas distorções da política cambial e fiscal. Nada de novo estimula o investimento em nosso país.

Por tudo isso, talvez, os ventos estejam virando – embora não esteja sendo devidamente percebido. E, com dois candidatos de esquerda em campanha, o ano parece perdido. A vantagem é que a candidata oficial, Dilma Rousseff, tem o respaldo do trio Meirelles-Mantega-Palocci, o que representa uma certeza de que não haverá surpresas ou alteração substancial de rumos. O candidato tucano, José Serra, tem ideias próprias e, nos anos FHC, exerceu preocupante oposição à política correta (corretíssima, diria) de Pedro Malan.

A contribuição mais positiva das últimas semanas foi o relatório do deputado Aldo Rabelo, que se consolida como um político de primeira categoria, sobre o campo, que vem livrando a nossa economia do caos. Só que ainda é pouco. Temos de mostrar ao mundo que a nossa performance recente não foi um fenômeno ocasional, mas para valer. O mundo capitalista, dos donos do dinheiro e do poder de decidir investimentos, pensa duas vezes diante da política externa que hoje é um desgaste inquestionável. Temos apenas atenções para Irã, Síria, Venezuela e Bolívia. Ou seja, países longe de serem confiáveis e muito menos democráticos. O sinal vermelho foi aceso.

*Aristóteles Drummond, jornalista, é vice-presidente da Associação Comercial do Rio de Janeiro.




Por Aristóteles Drummond, em 22/07/2010 - 00:03. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.

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