O ensino da língua italiana como língua estrangeira, em escolas públicas do Rio de Janeiro.

Por em 20/07/2009


Uma proposta para a educação e a cultura

Este texto tem por objetivo refletir sobre algumas características do ensino de L.E. (leia-se língua estrangeira) em escolas públicas, sobretudo no Estado do Rio de Janeiro, mas comparando com outros estados quando possível.

A partir de questionamentos de alunos do Colégio Estadual Prefeito Mendes de Moraes na Ilha do Governador (onde faço estágio para a prática de ensino em língua portuguesa) parei para pensar em alguns aspectos que nos fogem no dia-a-dia. Por exemplo: porque somos obrigados a estudar somente a língua inglesa como L.E. no ensino fundamental e médio? Porque, infelizmente, não é em toda escola que temos a opção e podemos escolher entre inglês, espanhol ou francês?

Fabrini, Mondaini, Santini, Scamparini, Mastrangelo, Sebollela, etc. Observa-se na televisão ou nas listas de presenças nas escolas que muitos nomes e sobrenomes no Brasil têm origem italiana e, no entanto, essa língua não tem prestígio perante as outras, visto que não são populares os cursos de língua e cultura italiana assim como são os de francês, inglês e mais recente o espanhol. A Itália e sua famosa capital, Roma, foram o berço do Renascimento, do Império Romano, da Literatura, da Arte, etc… Milão é a capital mundial da moda. No entanto, sua língua não é tão difundida como as outras já citadas.

Nos séculos XIX e XX houve um número muito grande de imigrantes italianos que vieram para o Brasil, assim como alemães e outros povos em menor quantidade, principalmente para o Espírito Santo, São Paulo e estados do Sul do Brasil. Já li certa vez que não vieram muitos italianos para o Rio de Janeiro porque aqui era a capital e não foi permitida a permanência deste povo que era tido como miserável e quase substituiu os escravos nos cafezais, mas este é um tema para outro trabalho. Sendo assim, deveríamos ter a opção de se estudar a língua italiana e a alemã como L.E., mas focalizo o meu tema na língua italiana porque foram alunos descendentes de italianos que me perguntaram sobre o ensino da língua dos seus ancestrais na rede pública de ensino e, naturalmente, porque elegi esta língua como estudo no curso de graduação em Letras (português-italiano).

Diferentemente de São Paulo e estados da Região Sul, onde se inclui a língua italiana no ensino fundamental e médio em algumas escolas da rede pública, o Rio de Janeiro perde em termos culturais a oportunidade de estar em contato com a cultura e a sociedade italiana que são riquíssimas. Faz-se necessária uma reforma em termos de grades curriculares para que possamos inserir outras línguas no nosso estudo e no estudo de nossos adolescentes. “O acesso às línguas estrangeiras tem um papel importantíssimo no processo de ampliação da cultura e da visão de mundo do aluno”. (Moita Lopes, 2005).

Inicialmente estuda-se o inglês devido ao imperialismo dos Estados Unidos e da Inglaterra, globalização e outros interesses. Estuda-se o francês devido à cultura e à literatura francesa que são de maior importância ou simplesmente porque é “chic” falar francês como se dizia na época da Corte no Brasil. Atualmente estuda-se a língua espanhola por causa dos nossos vizinhos mais próximos e por causa do MERCOSUL que nos integrou aos países de colonização espanhola e que aumentou a procura dos estudos de espanhol e vice-versa, porque na Argentina também aumentou a procura pelo estudo da língua portuguesa devido ao grande número de brasileiros que visitam o país anualmente. Então, já foi “chic” falar francês agora é “in” falar inglês. Vamos ver se os brasileiros param de seguir modismos e decidem estudar uma língua de fato pela sua cultura e porque língua é poder. Quanto mais soubermos melhor seremos tratados pela sociedade e melhor compreenderemos o mundo ao nosso redor.

Diversidade cultural e democratização do saber são o que nossos alunos devem ter para que possam se tornar pessoas com visão de mundo ampla e com um vasto conhecimento de sociedade, cidadania e cultura. Estados como Santa Catarina já adotaram ensino de língua italiana na rede pública e ficou constatado que não se trata de uma língua que se estuda apenas para viajar e/ou arrumar emprego, mas sim um instrumento de cultura e saber. O aprendizado do idioma pode se estender ainda para outras áreas como aulas de teatro, artes plásticas, literatura, música, etc.

A seguir demonstro um questionário que utilizei como base para uma breve pesquisa entre alunos do colégio onde estagio. A priori, preferi fazer entre alunos descendentes de italianos, mas me dei conta de que outros alunos também estavam interessados em sair da “mesmice” de estudar inglês como L.E. e queriam uma mudança, talvez essa mudança possa vir para seus filhos ou netos, já que se trata de uma turma do segundo ano do Ensino Médio.

Questionário de pesquisa para trabalho na disciplina sociologia da educação.
Foco: ensino de língua italiana como L.E. em escolas públicas do Rio de Janeiro.
1) Porque você acha importante (se você achar) o estudo de uma língua estrangeira no ensino fundamental e médio?
2) O que você entende por imigração? O que a ocasionou?
3) Como você percebe no dia-a-dia a influência da cultura italiana em nosso meio?
4) Qual a relação cultural entre o Brasil e a Itália?
5) Você gostaria de conhecer mais sobre outras culturas ao estudar uma língua estrangeira na escola?

A intenção foi verificar aspectos sócio/culturais dos alunos, mas infelizmente alguns tiveram dificuldade em interpretar o que estava escrito e eu tive de explicar o que queria saber com cada pergunta. Dessa forma, eles expuseram algumas questões sociais, econômicas, etc. que justificariam o aprendizado de outra língua diferente da inglesa. Interessante que os descendentes citam sempre o parente que imigrou, seja a avó e/ou o avô e contam suas histórias. Alguns alunos (aqueles que levaram o questionário para responder em casa) devem ter tido alguma ajuda dos pais ou outros parentes e citaram as guerras, a pobreza, como causas para a imigração.

Conclui que os alunos estão interessados em estudar e conhecer outras culturas e cabe a nós professores lhes proporcionar este tipo de estudo e de conhecimento. Trabalhando com textos educativos e culturais, com aulas dinâmicas e livres de “mesmices” nossos alunos recuperarão a motivação e nós professores também e que cultura nunca é demais. Estudo de língua e cultura só nos enriquece e que a variedade é tudo para abrirmos nossas mentes e nos livrarmos um pouco da ignorância.

Bibliografia

MOITA LOPES, L.P. Oficina de Lingüística Aplicada. Campinas: Mercado das Letras, 2005.

SOARES, Magda. Linguagem e Escola. Uma perspectiva social. São Paulo: Ática, 1992.

HOUAISS, Antonio. Dicionário da Língua Portuguesa. Editora Objetiva. Rio de Janeiro, 2001.

http://www.belasantacatarina.com.br/noticias.asp?id=1659

*Elias da Mota Ferreira, brasileiro, nascido em Duque de Caxias, é bacharel e licenciado em Letras Português/Italiano pela UFRJ e atua como professor.




Por Elias da Mota Ferreira, em 20/07/2009 - 11:23. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.

1 resposta to “O ensino da língua italiana como língua estrangeira, em escolas públicas do Rio de Janeiro.”

  1. Maria Clara Capiberibe Azedo

    Olá, professor Elias

    Realmente, a língua italiana não é tão solicitada e reverenciada como o inglês e o espanhol desde que foi aberto o Mercosul. Conheço inúmeras pessoas que têm o sobrenome em italiano. Sou graduada e pós-graduada lato sensu em língua italiana e tradução pela Uerj tendo Flora Simonetti Coelho como uma das minhas professoras da pós além de Franca Zuccarello. Estudo esta língua desde os 21 anos e a minha base foi adquirida em diversos cursos do IICC. Minha grande dificuldade é encontrar um trabalho nesta área e vivo de aulas particulares, incertas e inconstantes. Se por algum acaso, conhecer um curso que esteja necessitando de uma professora de italiano, gostaria de que entrasse em contato. Não tenho mestrado, motivo pelo qual não posso ensinar em universidades. Agradeço a sua atenção e cordiali saluti.

    Maria Clara Azedo

    #2140

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