O deserto fértil

Por em 11/04/2010


OásisQuem foi mesmo que disse: “As idéias demasiadamente repetidas não são mais idéias, nada penso quando as falo.”? Ainda nem chegou um torpedo com a resposta e já uma outra frase à procura do autor se apresenta: “O homem é aquele que diz”. A palavra dizer, com suas raízes profundas, alcança o sentido de fazer aparecer. Quem repete nada diz, pois nada faz surgir: apenas reproduz o já visto, o já estabelecido. A aldeia global, na era da comunicação, é uma verdadeira babel de palavras. Porém grande parte do que é falado e do que é escrito não passa de mera repetição. Livros, jornais e revistas são viveiros do estereótipo; televisão, rádio e internet são latifúndios do lugar-comum; as canções e o cinema são searas do clichê; os discursos são monoculturas do chavão. No complexo ambiente da comunicação, ao excesso de palavras corresponde a escassez do sentido. No seu habitat característico (a linguagem) o homem luta contra a progressiva aridez da afasia, pois “O homem apenas sabe falar na medida em que é aquele que diz”.

Mas (quem disse?) “o deserto é fértil”: há minas d´água no agreste, há oásis no areal. Em meio à repetição brota o dizer, entre o já visto nasce o novo, nas brechas do lugar-comum surge a criatividade.

Engana-se quem pensa que esses oásis do dizer são monopólios das elites e que o deserto da repetição é habitat exclusivo das massas.

Grupos de uma elite altamente especializada – a dos economistas – repetiram como dogmas, durante as últimas décadas, as receitas neoliberais da atrofia do Estado e do advento do reino divino do Mercado. A crise que abalou o sistema financeiro internacional veio revelar: o que se vestia de ciência não passava de ideologia, era crendice o que se repetia como se fosse a voz da razão.

Por outro lado, o povo tem mostrado que é capaz de dizer a sua palavra, deixando a falar sozinhos os “formadores de opinião”, empenhados em inculcar, pela repetição, o catecismo neoliberal. Ao eleger Lula, Correa, Chavez, Morales, Mujica, Obama, o povo das Américas afirmou que um mundo novo é possível, que o sonho não acabou, que a História (a luta) continua.

*Afonso Guerra-Baião é professor, vive no município de Curvelo, no estado de Minas Gerais desde 1976 e desenvolve um projeto de tradução de poetas de língua inglesa.




Por Afonso Guerra-Baião, em 11/04/2010 - 00:01. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.

7 respostas to “O deserto fértil”

  1. Marisa Bueloni

    Parabéns pelo belo texto, por essa proposta filosófica do deserto fértil. Oxalá encontremos fertilidade na aridez dos tempos atuais!… Um forte abraço da Marisa

    #670
  2. silvia

    Gostei muito do texto.Abraços

    #672
  3. Marilande Bertolini

    Parabéns pelo texto. Vale pensar que a Linguagem faz-se mais sustentável a cada dia. Vive e se expande, projeta-se e, como é instrumento natural de todos, e todos é que são o seu instrumento, amplia-se formando um corpo imenso, denso, quase uniforme mas que sempre se renova aqui e ali pelo gene dos que querem e gostam de pensar. Grande abraço. Marilande

    #674
  4. Riona Bogliolo Sirihal

    É mais ou menos assim que diz o Epíteto: Se alguém impressionar você afirmando compreender os escritos e as idéias de grandes pensadores, pense que o importante não é apenas ser capaz de falar com fluência sobre assuntos intrincados. O essencial é compreender a natureza e harmonizar intenções e ações com a maneira como as coisas são. A pessoa que compreende verdadeiramente os escritos e preceitos de qualquer grande pensador é aquela que aplica de fato os seus ensinamentos. Existe uma grande diferença entre fazer e dizer coisas valiosas. Não atribua peso excessivo à erudição pura e simples. Valorize o exemplo das pessoas cujas ações são coerentes com os princípios que professam. Estou tendo muito prazer em seguir seus textos no “Debates culturais”, Afonso. Muito mesmo. Um abraço. Rina.

    #675
  5. Dôra Gomes

    O receituário neoliberal sustentado pelas elites, que você muito bem definiu como ideologia vestida de ciência, volta a ocupar com força o cenário, inclusive com o tema das privatizações, rumo ao Estado mínimo. É impressionante a aposta que eles fazem na própria capacidade de formadores de opinião. Acreditam que a repetição de seus credos levará a população a esquecer os abusos cometidos e as duras consequências da prática de seus preceitos.
    Seu texto é muito bonito. Além do mais, certamente contribui para a necessária fertilização do terreno por onde a História irá continuar.
    Um grande abraço.
    Dôra

    #676
  6. Geraldo Armando Martins

    O Deserto é mesmo fértil…
    Permite que igualemos Lula, Mujica, Morales, Correa e Chaves a Obama. Aqueles representam os povos das Américas na suas eternas lutas contra o imperialismo norte-americano. Este representa o imperialismo e sua receita neoliberal.
    De fato, “nas brechas do lugar-comum” as massas buscam um mundo novo, mesmo que para isto tenham que repetir os erros de seu habitat.
    E aí, “o deserto é fértil.. o pensamento… o interior… a alma… !
    Parabéns. Não pude aprofundar o debate em virtude de estar no meu local de trabalho, mas não pude deixar de registrar este pequeno comentário.
    Abraços. Geraldo.

    #679
  7. lucilia

    Ao colocarmos como governantes pessoas vindas das classes baixas da sociedade,acreditamos que sò eles seriam capazes de iniciar a mudança tão esperada.E acreditamos que “o deserto è fértil”. Você brilhou com este texto, Afonso!

    #693

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