O cristianismo arrancado pelas raízes

As elites europeias, com o seu desinteresse pelo destino da cristandade oriental, admitem que o multiculturalismo está condenado no Médio Oriente. Por que pensam então que terá futuro na Europa?

No passado Dia de Ramos, os jihadistas mataram 45 cristãos no Egipto. Legitimamente horrorizados pelos atropelamentos na Europa, esquecemos que a maior parte das brutalidades do fundamentalismo islâmico se exerce fora da Europa, sobretudo no Médio Oriente. Os alvos são as comunidades religiosas condenadas pelo Islão sunita, como os muçulmanos xiitas e, claro, os cristãos (os judeus já foram, na sua maioria, empurrados para Israel). A perseguição e o massacre das comunidades cristãs do Médio Oriente e do norte de África é uma das grandes tragédias do nosso tempo. A Europa, no entanto, parece indiferente ou pelo menos evita reconhecer um caso específico. Talvez valha a pena reflectir nisso hoje, Sexta-Feira Santa.

Há quem atribua a indiferença dos governos ocidentais a cautelas estratégicas (evitar marcar as comunidades cristãs com uma solidariedade comprometedora, por exemplo). Mas talvez haja outras dificuldade, como a errada assimilação entre o Médio Oriente e o Islão, que fará alguns encarar o desaparecimento do cristianismo na região como algo de inevitável. Acontece que os cristãos do Médio Oriente, que representam a mais antiga das cristandades, não estão a extinguir-se “naturalmente”. No princípio do século XX, apesar de séculos de discriminação e repressão islâmica, cerca de um quinto das populações do Médio Oriente ainda eram cristãs. No Egipto e na Síria de hoje, aliás, continuam a ser 10%. É essa heterogeneidade cultural e étnica que está a ser eliminada por repetidos apelos à jihad, como o que os Otomanos lançaram durante a I Guerra Mundial. Os cristãos foram as suas principais vítimas. Primeiro, houve o genocídio dos cristãos arménios (1,5 milhões de mortos?) e assírios. Depois, a matança e a expulsão dos cristãos gregos (700.000 mortos e 1 milhão de refugiados?). Os jihadistas de hoje propõem-se completar essa limpeza pelos mesmos métodos.

No século XIX, as potências europeias ainda protegeram os cristãos sob domínio islâmico no Médio Oriente. Depois da I Guerra Mundial, quando exerceram mandatos na região em nome da Sociedade das Nações, desenharam um Estado para os cristãos, o Líbano. Acabaria subvertido pela demografia e pela violência sectária (os cristãos, que eram a maioria, são hoje a minoria). No Médio Oriente, resta hoje aos cristãos esperar a benevolência de algum ditador militar interessado em dividir para reinar, ou convencido de que uma minoria perseguida, à mercê do poder, será sempre mais leal. Por isso, na Síria estão com Assad, e no Egipto com Al-Sisi. Mas por isso também, os jihadistas os atacam especialmente, para deslegitimarem os poderes estabelecidos como protectores do cristianismo.

É verdade que o Islão é diverso e não tem uma história de maior intolerância do que outras religiões ou ideologias seculares (na Birmânia, são os budistas que perseguem violentamente os muçulmanos). Também é verdade que o maior confronto religioso no Médio Oriente passa por dentro do Islão (sunitas contra xiitas). O ponto aqui é que a religião, sobretudo depois do fracasso dos nacionalismos árabe e turco, é hoje o fundamento identitário principal no Médio Oriente. Essa é a segunda dificuldade das elites europeias, profundamente secularizadas, perante o martírio dos cristãos orientais: não conseguem levar a sério a religião como identidade cultural e base de uma comunidade. Ao Islão, ainda respeitam, como relíquia terceiro-mundista, com cuja salvaguarda tentam expiar velhas culpas coloniais; mas não ao cristianismo, que na Europa julgam ter substituído de vez, enquanto razão de pertença e de lealdade, pela nação ou pela lei secular. No Médio Oriente, porém, a religião é a cultura, é a comunidade, é até a lei.

No fundo, as elites europeias, com o seu desinteresse pelo destino da cristandade oriental, estão a admitir que o multiculturalismo está condenado no Médio Oriente. Porque pensam então que terá futuro na Europa?

Fonte: OBSERVADOR

*Rui Ramos nasceu em 22 de Maio de 1962, licenciou-se em História na Universidade Nova de Lisboa, e doutorou-se em Ciência Política na Universidade de Oxford. É professor e investigador no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e professor convidado do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica. Escreveu, entre outros livros, “A Segunda Fundação” (1890-1926), volume VI da História de Portugal dirigida por José Mattoso (Círculo de Leitores), e a “História de Portugal” (Esfera dos Livros, em co-autoria com Bernardo de Vasconcelos e Nuno Monteiro), que recebeu o Prêémio D. Dinis em 2009. Na imprensa, teve uma coluna semanal no “Diário Económico” (2005), e depois no “Público” (2006-2009), “Correio da Manhã” (2009) e “Expresso” (2010-2013). Colaborou em programas de debate semanal na RTP-N, TVI-24, SIC-N e Canal Q, e foi autor da série de doze episódios “Portugal de…”, da RTP-1 (2006-2007).

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