O corpo é a alma.

Por em 22/09/2009


Corpus
Lá estava eu, massageando o rosto de Denise, quando, de repente, me deu um estalo. Sabe aquelas coisas que nos vêm, assim de súbito, sem precisarmos raciocinar, analisar, mas que vêm em bloco, dando aquela sensação do é isto? Pois foi assim. Denise estava deitada na maca, relaxada, totalmente entregue, enquanto eu realizava sobre ela as manobras em massagem facial, e me veio aquilo, como um clarão, num zash!, e, então, eu entendi.

Explico melhor… Há alguns meses tenho me dedicado, com grande motivação, ao curso técnico de Massoterapia, do IBMR, o conhecido Instituto Brasileiro de Medicina de Reabilitação. Era uma idéia antiga, um sonho que eu não conseguia pôr na prática, por causa da minha vida maluca, do corre-corre de jornalista, dos projetos do escritor, da batalha como editor e tradutor. Cheguei a me inscrever no exame de seleção para o curso, em outra instituição, mas, na última hora, tudo foi cancelado. De modo que adiei aquela idéia meio que indefinidamente. Esse indefinidamente foi indefinido mesmo, e durou alguns bons anos. Até que soube do curso do IBMR e fiquei em cima, claro. A Nívia, lá da Secretaria do Instituto, já não me agüentava mais. Toda hora era aquela coisa de enviar emails, telefonar, sempre perguntando quando é que seriam abertas as inscrições para a turma 2009. Com toda a paciência do mundo, ela dizia que aquilo ainda não estava definido, que me avisaria, tão logo houvesse algum sinal no horizonte. Mas eu, só lá, ligando, emailando, o tempo todo, perguntando se agora já não haveria alguma definição. Sabe aquele personagem, o burrico do filme Shrek, perguntando, o tempo todo, ao longo da viagem, “já chegamos? Já chegamos? Já chegamos?”, e enchendo a paciência de todo mundo? Pois era mais ou menos por aí.

Terapeuta… uma questão de atitude

Enfim… chegamos! Nívia telefonou-me, e avisou que as inscrições estavam abertas. Feita a inscrição e confirmada a turma, comecei os estudos. Primeiro módulo, segundo módulo, e lá estava eu, com meus colegas, entrando na fase de prática de massagem, que se estenderá até o fim do curso, ali por maio do ano que vem. Mas, ainda no comecinho de tudo, alguns colegas me perguntaram o que é que eu estava fazendo ali, num curso de massô. Para eles — a maioria dos quais oriundos, ligados ou pretendendo ainda ligar-se à área universitária da saúde, à fisioterapia, à enfermagem — não fazia muito sentido um escritor, um jornalista, um poeta, colocar na cabeça a idéia de se tornar massoterapeuta. E, pior, tentar concretizar essa idéia! Eu sempre explicava que, sendo o meu interesse a alma, o sutil, a filosofia, o essencial, acabei sendo lançado à manifestação disto tudo, que era, na minha leitura, o corpo. Que o denso é o destino do sutil, a sua doação, e que o sutil era a inteligência do denso, a sua realização. Meus colegas não se convenceram muito, com aquela explicação tão filosófica, quase metafísica. Principalmente sabendo que eu pretendo adotar a massoterapia como profissão… Acrescentei, então, que ser terapeuta, para mim, era, sobretudo, uma questão de atitude. Que eu já era terapeuta havia algum tempo. Um terapeuta social, para usar do conceito e da idéia da Unipaz, inspirada pelo Colégio Internacional de Terapeutas. Agora, eu me candidatava a me tornar, também, um terapeuta clínico. Não como médico, não como enfermeiro. Mas como massoterapeuta.

O que eu não disse a meus colegas — até mesmo porque aquilo não me passava pela cabeça muito claramente — é que eu andava embatucado, havia muitos anos, com o poema de William Blake*, intitulado A voz do demônio:

Todas as bíblias ou códigos sagrados têm sido as causas dos seguintes Erros.

1. Que o homem possui dois princípios reais, a saber: um Corpo e uma Alma.

2. Que a Energia, chamada Mal, está isolada do corpo, & que a Razão, chamada Deus, está isolada da Alma.

3. Que Deus atormentará o Homem pela eternidade, por haver seguido suas Energias.

Mas os seguintes contrários a estes são Verdadeiros.

1. O Homem não tem um Corpo distinto de sua Alma: pois o que é chamado Corpo é a porção da Alma discernida pelos cinco Sentidos, a principal passagem da alma nesta Era.

2. A Energia é a única vida e é derivada do corpo e a razão é a fronteira ou a circunferência externa da energia.

3. Energia é Eterno Deleite**

O poema mexe comigo, altera a minha consciência e faz-me pressentir tudo o que ainda não conheço. Mas há um verso, em especial, que tem me perseguido desde sempre. Aquele que diz que o que é chamado Corpo é a porção da Alma discernida pelos cinco Sentidos. Minha própria vivência com as experiências exomáticas, as tais experiências fora do corpo, têm, se não colocado em cheque, pelo menos atuado como um ponto de interrogação, diante das assertivas de Blake. Pelo menos algumas vezes, eu tenho flutuado em consciência para fora do corpo, e olhado para ele, deitado sobre meu tatame, adormecido, inerte, como se eu não precisasse mais dele para viver. Embora eu já tivesse realizado em minha cabeça a idéia da interdependência entre o sutil e o concreto, não tinha muito como sintetizá-los, e entender o que dizia o poeta. Mesmo meus estudos e reflexão sobre o tema do corpo glorioso, em que corpo e alma sintetizam-se no Anthrôpos teleios — o equivalente alquímico da individuação — não faziam senão arranhar aquela compreensão, aquela realização, que me espreitava em algum ponto de mim mesmo, como se dissesse mexa-se e me verá.

Energético X Mecânico

Quando comecei as aulas de prática de massagem, ainda não me dava conta de que tudo estava se tornando mais claro pra mim. Tanto quanto massageava os colegas e as colegas, eu era massageado por eles. Estávamos, finalmente, com a mão na massa. Mas ainda muito atentos à técnica, à aprendizagem, à necessidade de não errar. Ou, pelo menos, a não errar além da conta. Além disto, havia também os conhecimentos de shiatsu, que nos eram ministrados, como instrução complementar, ao lado da massagem sueca, ocidental, que é a nossa técnica central, preferencial. Aquela discussão toda, sobre o sutil e o denso, que andava de férias, voltou-me às idéias. Exatamente por causa daquele conceito que se tem (eu pelo menos tinha!) de que as técnicas orientais eram, sobretudo, energéticas. Que trabalhavam o corpo sutil e por aí ajudavam a curar, a minimizar o sofrimento e aperfeiçoar a qualidade de vida das pessoas. Em contraposição a isto, a concepção de que, ao contrário, as técnicas ocidentais — aqui representadas pela massagem sueca — trabalhavam mais o corpo, eram mais mecânicas, porque funcionavam como elementos facilitadores dos processos orgânicos e, portanto, trabalhavam o corpo físico.

Foi só quando realizamos a primeira oficina de massagem, para convidados, é que alguma coisa aconteceu. À medida em que já estamos funcionalmente familiarizados com determinadas técnicas, organizamos um evento semi-público, em que pessoas que conhecemos, convidadas por nós mesmos, vêm aos alunos para receber massagem, sob a supervisão do professor e seus monitores. Diferentemente de nossas aulas, em que tanto massagista, quanto massageado estudam a própria massagem, durante as manobras executadas por quem está massageando, na noite de oficina não há propriamente estudo. Há aplicação supervisionada.

Epifania do corpo

E lá estava eu, massageando o rosto de Denise, quando de repente me deu o tal estalo. Apesar de Denise ser uma amiga muito especial, de nos conhecermos tão bem, ali não há discussão sobre técnicas. Ela apenas se entrega, enquanto eu apenas a massageio. Sem discussões teórico/práticas, com a música suave e os movimentos conscientes, mas fluidos, do massagista, foi como que, tocando Denise, tocando o seu corpo, eu tocasse a sua alma. Como se ela estivesse ali, tornada visível, numa epifania, para que eu, ou a minha alma, também a tocasse. Como se a massagem sueca, pela sua natureza, não precisasse se utilizar dos meridianos com que trabalha o shiatsu, e atuasse diretamente nas energias, pelo toque em sua concretização. Ou como se, de repente, vindo sabe-se lá de onde, o rosto de William Blake se mostrasse para mim, e me perguntasse, não sem alguma ironia: entendeu agora?

* Poeta e artista plástico inglês, nascido em 1757 e falecido em 1827.

** All Bibles or sacred codes, have been the causes of the following Errors.

1. That Man has two real existing principles Viz: a Body & a Soul.

2. That Energy, call’d Evil, is alone from the Body, & that Reason, call’d Good, is alone from the Soul.

3. That God will torment Man in Eternity for following his Energies.

But the following Contraries to these are True.

1. Man has no Body distinct from his Soul; for that call’d Body is a portion of Soul discern’d by the five Senses, the chief inlets of Soul in this age.

2. Energy is the only life and is from the Body and Reason is the bound or outward circumference of Energy.

3. Energy is Eternal Delight

*Marco Antonio Coutinho é escritor, mora no Rio de Janeiro e anima o blog “E por falar nisto…” (http://eporfalarnisto.blogspot.com). Suas crônicas são publicadas aqui com autorização expressa do autor..




Por Marco Antonio Coutinho, em 22/09/2009 - 12:28. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.

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