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O corpo de Cristo

Sessenta dias após o Domingo de Páscoa ou na quinta-feira seguinte ao Domingo da Santíssima Trindade ocorre a festa católica de Corpus Christi, celebrando o mistério da Eucaristia, o sacramento do sangue e do corpo de Cristo. Em muitas cidades, tradicionalmente, usa-se recobrir ruas principais com materiais coloridos como serragem, farinha e sal, formando motivos e símbolos cristãos, marcando o caminho pelo qual vai passar a procissão de fiéis. A festa foi instituída pelo Papa Urbano IV e a procissão simboliza a caminhada do povo de Deus em busca da terra prometida.

Confesso que para escrever o parágrafo acima eu tive que fazer uma pequena pesquisa para minimamente ser capaz de dar uma informação razoável, pois falta-me o conhecimento mais específico sobre o tema. Por outro lado, tenho várias lembranças especiais envolvendo essa data e hoje, ao escrever sobre o assunto, elas me invadiram o coração e me fizeram viajar pelo tempo.

Recordo-me de que, por algumas vezes, em cidades nas quais morei, inclusive, de ter ajudado a enfeitar a rua junto com outras crianças, encantada ao ver os desenhos tomando forma, dando conta de que o colorido invadia o que antes era somente asfalto. Nunca deixei de ter pena de imaginar tudo apagado no dia seguinte, depois da procissão passar. Ficava tudo tão colorido, tão alegre, assim como deve ser a alma daqueles que acreditam e tem fé no Divino.

Ainda viajando pelas minhas lembranças, encontrei uma que me é especialmente cara. Durante muitos anos, enquanto morei na casa dos meus pais, na cidade de Lins, a procissão de Corpus Christi passava na rua de casa. Não foram muitas as vezes nas quais eu participei da procissão, mas o fiz em algumas oportunidades. Talvez a memória esteja me pregando peças, mas eu me lembro de que em várias madrugadas ouvia a procissão passando e as pessoas em oração, entoando Ave-Marias e Pai-Nossos. Faltam-me palavras para descrever a cena, mas sou capaz de sentir novamente o conforto que as preces uníssonas me proporcionavam enquanto, na minha cama, eu me envolvia nas cobertas, no friozinho das primeiras horas do dia.

A razão maior pela qual as procissões de Corpus Christi guardam espaço privilegiado em minhas memórias afetivas é que invariavelmente dela participava, ano após ano, minha querida e hoje saudosa Tia Edna, minha madrinha, minha mãezinha do coração. Mulher de fé inabalável, tinha um coração que pertencia indiscutivelmente ao Bem, a Deus. Sempre que eu ouvia a procissão passando pela rua de casa, eu sabia que lá no meio seguia alguém em cujas orações eu estava. A festa dela, nesse ano, estou certa, é na Casa do Pai, no lugar no qual as taças sempre transbordam…

Voltando meus pensamentos para data em comento, eu me peguei pensando no mistério da Eucaristia, dentro daquilo que posso compreender. Assim, peço vênia por fazer analogias que provavelmente possam ser muito rasas, mas eu acredito que se as pessoas, católicas ou não, fossem mais capazes de compartilhar a mesma mesa, respeitando as diferenças, partindo o mesmo pão, bebendo do mesmo vinho, por certo seriam capazes de entender o milagre, a dádiva que surge sempre que se divide o que se possui, quando se dá ao outro mesmo o que não se tem. Sangue que se torna vinho e carne que se torna pão são milagres que se repetem simbolicamente sempre que alguém se dedica ao próximo, verdadeiramente.

O mundo, a propósito, está carente de tolerância para que se divida a mesma mesa, as mesmas ideias, para que partilhe o mesmo pão. Vivemos tempos nos quais o Corpo e o Sangue de Cristo quase não encontram morada terrena. Pouco ou nada fazemos ou mesmo propagamos que seja capaz de multiplicar o pão, de saciar a sede de quem vive na linha da miséria física e moral.

Se não tivermos a sensibilidade para ver que aos poucos, pela nossas ações e omissões, nossas mesas e corações se esvaziam, em breve seremos incapazes até mesmo de entendermos quais os erros cometidos e qual o vinho que devemos saborear para conhecemos o genuíno sangue de Cristo.

Fico no desejo de que não deixemos morrer em nós a certeza de que Deus se fez e se faz presente entre seus filhos, provendo-os de amor, do pão da vida e do sangue que nos redime de todos os pecados. Amém!

Fonte: http://solpaz.blogs.sapo.pt/

*Cinthya Nunes Vieira da Silva é advogada, mestra em Direito, professora universitária e escritora – São Paulo.

Comentários

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Comentários

  1. Doroti Aparecida Honório disse:

    Corpo e Sangue de Cristo, na mesa da unidade.Esse amor que se perpetua na celebração do amor que aqui veio pra se repartir em cada um que busca no próximo, motivo para ser fraterno, ser irmão.
    Que um dia nesta mesa toda a humanidade se conscientize e se abrace na certeza de ser todos irmãos.

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