O choro pelo Grande Líder

Por em 27/12/2011


É claro que se deve respeitar o lamento dos norte-coreanos pela morte de seu líder, King Jong-Il. Mas não deixam de causar certa repulsa cenas como a daquelas senhoras caindo ao chão, histéricas, em função do ocorrido, entre outras imagens de choro compulsivo coletivo – um êxtase geral que beira o ridículo por seu ar teatral e bizarra organização.

As cenas lembram, inclusive, as imagens dos torcedores da Coreia do Norte durante a Copa do Mundo de 2010, na Alemanha, cantando e fazendo coreografias como verdadeiros robôs, praticamente sem expressão pessoal e, consequentemente, sem nenhuma emoção correspondente ao que se passava em campo. Não importava se a seleção de seu país fizesse um gol ou sofresse cinco, as caras e bocas dos torcedores eram as mesmas.

Ou seja, o que parece é que tudo se trata de uma encenação, cuja direção é operada à rédea curta pelo sistema totalitário desse país, cujo único feito reconhecido pelo mundo, infelizmente, foi ter desenvolvido sua própria bomba atômica – enquanto milhares de habitantes não têm sequer o que comer.

Por outro lado, também não se pode descartar a possibilidade de que o choro da população reflita efetivamente a dor pela morte de King Jong-Il, o que é ainda pior, pois denota como o poder de lavagem cerebral de um regime totalitário é eficiente.

Afinal, quem choraria a perda de um homem que representa a opressão e a repressão à liberdade individual; que, apesar de possuir uma das maiores coleções de bebidas alcoólicas do mundo, comanda um país miserável, onde todos devem compartilhar irmamente cada grão de arroz colhido? Não que isso esteja errado, mas é aquilo: façam o que eu digo, mas não façam o que faço. Enfim, não há razões culturais que possam justificar isso…

Para sustentar tanta hipocrisia (ou cara-de-pau mesmo), só mesmo com certas artimanhas políticas, de modo a manter o rebanho bem quietinho. Num país como a Coreia do Norte, onde o que vale são as regras do jogo impostas por uma família e seu grupo de colaboradores a fim de manter o status quo, nada melhor do que demonstrações de poderio militar para manter o apoio da já narcotizada população.

Isso não difere em tanto do que se passa em outros países, e mesmo no Brasil – vide o imenso apoio popular que o insustentável e espetaculoso programa das UPPs vem rendendo ao governo do estado, o qual, é bom lembrar, se reelegeu em cima disso. Mas, no caso dessa pequena nação asiática, isso deve ter como reflexo um novo período de provocações e até embates militares com sua vizinha, a desenvolvida Coreia do Sul.

É muito fácil, portanto, antipatizar com a Coreia do Norte, até por sua condição de país não-alinhado aos interesses dos EUA, o que provoca, de modo geral, repercussão negativa na mídia global. Porém, nada supera como quesito gerador de asco a sensação de que os norte-coreanos se comportam como marionetes, remetendo às mais distópicas obras literárias e cinematográficas, tais qual “1984”, de George Orwell.

Com toda sinceridade, em pleno século 21, chamar seu governante de “Grande Líder”, cultuando-o como um Deus, é tão risível quanto trágico. Simplesmente não tem cabimento.

Texto publicado em 22/12/2011 às 14:47 na(s) seção(ões) Mundo, Opinião da revista Consciencia.net.




Por João Montenegro, em 27/12/2011 - 00:01. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.

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