O caminho das pausas

Por em 04/02/2010


Bíblia“Os poetas são os que menos sabem, mas são os primeiros a saber”. Essa frase de Lacan, que li há pouco, vem confirmar a que intitula um livro que li há muito, na pequena biblioteca de uma tia: “E a Bíblia tinha razão…”. Nesse livro Werner Keller busca analisar inúmeras informações provenientes das descobertas arqueológicas, comparando-as com as narrativas da Bíblia. A razão da Bíblia, bem como a de mitos da antiguidade e dos povos ditos primitivos, é a mesma razão intuitiva, iluminada, que faz com que os poetas sejam os primeiros a saber. Assim, os dias bíblicos da criação podem ser lidos como metáfora das eras geológicas; assim também, através do mito de Ícaro, a antiguidade clássica antecipou, simbolicamente, a possibilidade da conquista do espaço pelo Homem; da mesma forma, os índios Caiapó, no mito do Buraco do Céu, podem ter figurado a teoria dos universos paralelos.

E assim também é que uma antítese recorrente nas narrativas do Novo Testamento antecipa o moderno conflito entre ação e descanso, entre trabalho e recreação, entre utilidade e prazer.

Entre a afirmação capitalista de que “Tempo é dinheiro” e a ponderação da sabedoria popular de que “Mais vale um gosto que dois vinténs”, os evangelhos parecem preferir a segunda.

Essa preferência é explicitada no juízo de valor expresso por Jesus, em sua visita às irmãs de Lázaro. Marta, atarefada e preocupada com as coisas práticas, recrimina Maria que estava sentada a conversar com o Mestre – que sai em sua defesa, dizendo: “Maria escolheu a melhor parte”.

De forma implícita, o repouso é simbolicamente valorizado em muitas passagens dos Evangelhos. Assim, ao interromper sua caminhada pela estrada de Jericó, Jesus restitui a visão aos cegos: sua parada possibilita que eles caminhem. Ao pousar numa casa em Cafarnaum, Jesus cura um paralítico: seu repouso desencadeia o movimento do outro. O descanso de Jesus na casa de Zaqueu enseja a caminhada deste em direção a uma vida nova. A parada de Jesus no túmulo de Lázaro permite que este caminhe da morte para a ressurreição. E a fixidez de Cristo na cruz é que permite aos homens se mobilizarem numa trilha de vida.

Vivendo sob o signo da ação, numa sociedade regida pelo movimento, precisamos nos deter em atenção a essa voz silenciosa que, antecipando-se aos nossos psicólogos, nos fala nas entrelinhas de um jogo de antíteses: parar é condição para caminhar, o pouso é requisito para novos voos.

*Afonso Guerra-Baião é professor, vive no município de Curvelo, no estado de Minas Gerais desde 1976 e desenvolve um projeto de tradução de poetas de língua inglesa.




Por Afonso Guerra-Baião, em 04/02/2010 - 00:03. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.

9 respostas to “O caminho das pausas”

  1. Marisa Bueloni

    Parabéns, Afonso, pelo belo texto! Sim, os poetas são mesmo “as antenas da raça”. E a pausa, a parada, é extremamente necessária no mundo de hoje!

    #349
  2. délcio teobaldo

    Parabéns, Afonso. Bela reflexão, num tempo em que o excesso de informação tem impedido as pausas. O rito precisa de silêncios. “…o pouso é requisito para novos voos”.

    #351
  3. andre campos

    O texto joga uma luz atual sob um tema clássico e ajuda muito irromper horizontes em um universo muito mais dominado pela lógica da produção em série, no “mundo-do-cartão-de-ponto” do que pela reflexão e a busca do sentido para as ações. Parabéns.

    #352
  4. Realmente você está certo Afonso!
    É na nossa parada e adesão com quem tem a Vida que nos joga para frente… Bela reflexão, parabéns primo! MMaris.

    #353
  5. marlene

    Belo texto!

    #478
  6. Marcus Francisquini

    Concordo Afonso, numa era em que impera o “American way of life” , com lemas capitalistas como ” Time is money” , as nossas necessidades básicas ficam em segundo plano, até na alimentação predominam os “fast foods” , não há tempo pra nada , principalmente para reflexão, questionamentos, filosofia… precisamos valorizar as pausas, o descanso, o repouso não apenas físico , mas também da mente e da alma (alguns pensam que a alma só descansa em paz quando morre o corpo). Mas já ouvi falar de um movimento que existe na Europa chamado “slow life” que questiona essa correria capitalista e prega uma menor jornada de trabalho, um tempo maior para cuidar de si mesmo , contemplar a natureza e reequilibrar as energias vitais. Um abraço.

    #501
  7. lucilia

    “para o mundo que eu quero descer” já dizia aquele compositor, e o mundo está mesmo um caos, e o que mais precisamos é de uma parada, pois o “pouso é requisito para novos vôos”. E você mostrou isso de uma maneira clara e simples;muito bom mesmo Afonso.

    #507
  8. Rina Bogliolo Sirihal

    Compartilho a ideia que você desenvolve, Afonso,de que o excesso de bulício e açodamento pode deixar-nos descentralizados.

    Do meu livro ‘Sabor de curry pimenta’, final do cap. 8:”Então eu tive a impressão de que as pessoas vão e vêm sem muito destino: correm para lá e para cá, mais é para se perderem na multidão e no movimento,por não conseguirem suportar a si próprias e ao seu vazio.”

    Vê como concordamos?

    Obrigada por oferecer-nos a oportunidade de te ler e de pensar acerca dos assuntos que você tão maduramente desenvolve.

    Rina.

    #1073
  9. Concordo com voce Baião, pois realmente precisamos desperdiçar menos o nosso tempo, aproveitando-o para uma reflexão em pról da solidariedade humana. Eu disse humana, porque hoje tratamos animais de estimação investindo neles amor e dinheiro, muito mais do que damos a uma criança de rua. Somos capazes de sair de pijama pro meio da rua e jogar agua numa arvore e se passar uma criança de rua, corremos dela. Defendemos o verde, os animais e não somos capazes de nos preservarmos na dignidade. Quanto à biblia, concordo, mas nada mais óbvio, afinal esse livro carrega a mesma quantidade de pó que o tempo sombrio sugere. Todos nós somos Deuses de alguma maneira, em relação ao outrem. O meu conterrâneo Délcio Teobaldo que o diga, nas entrelinhas do que escreve e compõe.

    #1262

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