O blábláblá nas salas de aula!

Por em 06/09/2009


Zumbido2Sempre que me lembro ou me deparo com o currículo escolar, acabo me irritando. Quantas informações inúteis são impostas aos nossos alunos! Impõem-se o estudo de várias cadeiras, sendo que na maioria das vezes os próprios professores não sabem justificar para que servirá aquela informação na vida futura do aluno. Por exemplo, em Matemática, aprendemos a tão famosa fórmula de Báskara, e para quê? Confesso que em meus tempos de escola eu decorei esta tal fórmula e, passadas as provas, esqueci-me por completo dela e, pior ainda, nunca senti falta desse conhecimento. Ou seja, eu nunca aprendi, nunca fui ensinado. Eu fui adestrado. O mesmo aconteceu com Química, Física, Biologia e mesmo com matérias da área de humanas, como Geografia e Português, ou será que alguém deixa de dormir por não se lembrar do que é uma catacrese?

Em meus tempos de escola tínhamos aulas de leitura, cujo objetivo maior deveria ser proporcionar aos alunos o hábito de ler. No entanto, no lugar de indicar livros que despertassem de fato o interesse dos alunos pela leitura, lá vinham os livros de Machado de Assis e José de Alencar, com termos já fora de uso e, às vezes, com uma escrita por demais rebuscada para os padrões da época e que acabava se tornando o tormento dos alunos. Inclusive, conheço professores que na frente dos alunos diziam que Machado de Assis era o maior escritor brasileiro de todos os tempos, mas que entre outros professores admitiam que detestavam os livros de tal autor. Felizmente, num determinado ano, a escola em que eu estudava teve o bom senso de indicar o livro de Jorge Amado, “Capitães da Areia”. Eu li, gostei e, em seguida, li por minha conta quase toda a obra de Jorge Amado, partindo de “Jubiabá”.

Outro aspecto absurdo é a cola nas provas. Ainda hoje encontramos professores que dizem, alguns até com orgulho, “comigo nenhum aluno consegue colar!”. Que besteira! Se pensarmos que a dita “cola” é uma consulta, que mal há em colar? Duvido que algum professor de bom senso e criterioso, não se utilize de seus apontamentos na hora de preparar uma prova. Isto não seria uma cola? Ao longo de nossas vidas, quando temos um trabalho acadêmico ou profissional, não consultamos textos de referência ou outros profissionais ou colegas? Então, por que na escola não podemos consultar nossas referências? Não seria bem mais inteligente e realista os professores ensinarem seus alunos a pesquisar e consultar corretamente suas anotações?

Acredito que as verdadeiras informações, aquelas que nos dão sapiência para nossas trajetórias, não nos são apresentadas na escola. Poucas são as escolas que transmitem noções de Sociologia, Antropologia e Filosofia, por exemplo. E o que é pior, não é mostrado aos alunos as relações existentes entre as matérias ensinadas, o que facilitaria muitíssimo a aprendizagem e justificaria o porquê de certas matérias. Por exemplo, poderiam ser mostradas, em forma de seminários, questões a partir do problema do saneamento urbano. Neste caso, conhecimentos de Geografia, História, Química e Biologia estariam envolvidos, da seguinte forma: pela Geografia o meio ambiente, urbano ou rural, seria explicado; pela História, seriam mostradas alguns exemplos de mazelas que assolaram as populações de diversos lugares, como várias epidemias que tiveram suas origens em ambientes não saneados; pela Química que mostraria como são realizados os processos de saneamento e purificação de águas e detritos: e pela Biologia que ensinaria a atuação dos micro-organismos que geram as doenças e ainda elucidaria sobre questões de ecologia e meio ambiente, voltando para a Geografia. Assim, todas estas matérias estariam intercaladas e os alunos saberiam para que estavam estudando.

Além disso, muitas são as escolas que inibem ou simplesmente, não permitem, que seus alunos se organizem e formem grêmios estudantis. Em algumas escolas, o máximo tolerado é que sejam eleitos representantes de turma. Por que não incentivar, como uma primeira forma de cidadania, que seus alunos se organizem e comecem a exercer e a perceber a democracia como atividade política? Não estou falando de política partidária, mas sim de política de relacionamento, de política de convivência e de entendimento de seu meio.

Faço todas estas observações por perceber o quanto nossos alunos estão desinteressados do blábláblá nas salas de aula, onde na prática nada aprendem. Já está mais do que na hora de nossos alunos serem ensinados para a vida e não adestrados para uma prova!




Por Alessandro Lyra Braga, em 06/09/2009 - 00:02. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.

4 respostas to “O blábláblá nas salas de aula!”

  1. Bruno Carvalho

    Alessandro,

    Parabens pelo texto. Por ser estudante, entendo tudo o que disse e – inclusive – concordo.

    Forte abraco!

    #84
  2. Eliete S. Menezes

    Olá Alessandro,
    Trabalho numa escola de Ensino Fundamental e essa semana a professora de português pediu aos alunos de 9º ano que eles lessem… adivinhe… Machado de Assis!!!

    Eu concordo que não dá pra deixar os clássicos de lado, mas não dá pra ignorar o que a garotada de hoje está interessada em ler.

    Gostei muito do seu texto.
    Um grande abraço!

    #91
  3. Elias da Mota Ferreira

    Também gostei muito do texto. São muito pertinentes os seus questionamentos.

    Abraço!

    Elias da Mota Ferreira

    #98
  4. Interessante a ideia de aplicar mais de uma matéria em um ponto específico.
    Algo que eu considero fundamental é o aluno a partir do primeiro ano escolher sua carga horária. Do que adianta, afinal, um futuro jornalista ter, durante a semana, cinco tempos de matemática, quatro de biologia, física e química, quando história, geografia e socilogia atingem, juntas, sete tempos.

    #170

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