O auto-interesse e a preocupação com os outros

Por em 09/09/2012

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“Nas multidões das cidades, os seres humanos tornaram-se aparências um ao outro pela simples razão de que essa é a única coisa, que uma pessoa pode observar no espaço urbano de grande quantidade de estranhos. Os outros convertem-se em aparências para os olhos das pessoas, e a própria pessoa uma aparência para os daquelas que a pessoa não pode escapar de perceber. Assim, a aparência torna-se o objeto da forma de avaliação que pode ser realizada pelo olhar, ou seja, uma avaliação estética, segundo critérios tais como belo ou fastidioso, maçante ou fascinante”. (Henning Bech, “Living together in the (post) modern world) (conferência feita na sessão sobre “Changing famaly structures and new forms of living togetgher” na conferência Européia de Sociologia, Viena, 26 – 28 de agosto de 1992. – citado do texto fotocopiado).

Sempre foi assim, por milênios e milênios, agarrados a materialidade, ao egoísmo, a competição, ao consumo exacerbado que continuam ditando as regras de vida, mas nosso pauperismo emocional necessita ser restabelecido, sanado e curado. Viramos estátuas estagnadas de onipotência, estamos em estado de profunda neurose, achando que vamos encontrar a felicidade nas satisfações materiais apenas… A avaliação essencialmente estética, a competição desenfreada pelo culto a aparência nos escravizam, deixando-nos frustrados e neuróticos.

A maior dádiva que recebemos de Deus são as motivações para conquistarmos a vida plena, que é a abertura sensível ao autoconhecimento. Acreditar na confiança da própria capacidade para desvendar novas relações e vivências criativas, que obrigatoriamente exigem uma cultura interior não conformista. Em qualquer tempo e em qualquer lugar, deveríamos viver de maneira saudavelmente responsável, que nos impulsionariam para descobrirmos novos caminhos de relação e realização equilibrada em nosso meio cultural.

”Os filósofos da ética fizeram o possível para estabelecer uma ponte entre as duas margens do rio da vida: o auto-interesse e a preocupação com os outros. Tentaram demonstrar que a obediência aos mandamentos morais é do próprio interesse de quem obedece; que os custos de ser moral serão recompensados com lucros; que outros lhes pagarão a gentileza com a mesma moeda; que cuidar de outras pessoas e ser bom para elas é, em suma, uma parte valiosa, talvez até indispensável, dos cuidados da pessoa consigo mesma. Alguns argumentos eram mais engenhosos que outros, alguns sustentados com maior autoridade, e portanto mais persuasivos, mas todos giravam em torno do pressuposto aparentemente empírico, embora não testado empiricamente, de que “se você for bom com os outros, os outros serão bons com você”. (Zygmunt Bauman – A Arte da Vida – Ed. Jorge Zahar – Rio de Janeiro – 2009)..

A Ética possibilita a compreensão das mudanças e transformações interiores, para que saibamos mais sobre nós mesmos, para que aprendamos a lidar com nossos dons, que pedem para serem vivenciados. A natureza profunda do ser humano é construtiva e digna de confiança. Todos nós somos conscientes da nossa necessidade mais profunda, que é de se associar e de se comunicar com os outros. Não resta a menor dúvida de que todos nós teremos derrotas existenciais imensas, quando deixarmos de defender a nossa vida e a dos outros.

Não adianta segurança e conforto, presenciando o sofrimento das pessoas. É preciso mudar o rumo humanístico dos nossos tempos. Diante dos grandes desafios colocados pela comunidade: – as violações de Direitos Humanos, as barbáries das guerras étnicas, a indiferença social produzida pela globalização e pelo neoliberalismo, nos levam a debater e dar vida a fraternidade.

“Modernamente precisaria ser uma sociedade com justiça social e com boa distribuição de renda. Eu diria igualdade de oportunidades para as pessoas, sem levar em conta raça, sexo ou origem étnica. Eu quero ver todos tendo oportunidades de acordo com as próprias habilidades e aspirações, que seriam diferentes para pessoas diferentes. As pessoas teriam motivações diferentes para ganhar dinheiro. Algumas fariam muito mais do que outras. Não defendo a possibilidade de igualdade de renda. Quero que se reconheça que a nossa economia distribui a renda de um modo muito desigual nos EUA e no Brasil”. (John Kenneth Galbraith – A Sociedade Justa – em entrevista concedida a Paulo Francis e exibida em 20/10/1996 – “Grandes Entrevistas do Milênio”O olhar de grandes pensadores sobre o Mundo Atual e Suas Perspectivas).

É urgente pensar na solidariedade, responsabilidade social, gestão honesta dos recursos públicos, respeito à diversidade, alteridade, multiculturalidade e meio ambiente como ícones de união entre os seres humanos. Não há povo alfabetizado, educado e culto que seja pobre, e não há populações analfabetas e incultas, que não sejam miseravelmente pobres. É muito importante criar serviços para os pobres como saúde, bibliotecas, casas populares.

O caminho é a rediscussão permanente da inclusão social, porque só teremos paz, resolvendo a violência urbana, quando aceitarmos os valores que nos tornam todos membros da comunidade de seres humanos. A empatia social construtiva que propõem o desenvolvimento autenticamente humano em nosso país, sem massacrar na incerteza do futuro, gerações e gerações dos segmentos mais fracos, e sem criar novas pobrezas. Os Direitos Humanos inalienáveis, os Direitos da Cidadania abrem uma grande janela iluminada de esperança a todos que lutam pela dignidade de ser pessoa humana.

“Uma vez que o critério da pureza é a aptidão de participar do jogo consumista, os deixados fora como um “problema”, como a “sujeira” que precisa ser removida”, são consumidores falhos – pessoas incapazes de responder aos atrativos do mercado consumidor porque lhes faltam os recursos requeridos, pessoas incapazes de ser “indivíduos livres” conforme o sendo de “liberdade” definido em função do poder de escolha do consumidor. São eles os novos “impuros”, que não se ajustam ao novo esquema de pureza. Encarados a partir da nova perspectiva do mercado consumidor, eles são redundantes – verdadeiramente “objetos fora do lugar”. (Zigmunt Bauman – O Mal-Estar da Pós-Modernidade – Ed. Zahar – Rio de Janeiro – 1998).

A modernidade desde o início produziu “gente supérflua”. A indústria moderna que representa o chamado “progresso econômico” sempre produziu “consumidores falhos”, que sempre foram excluídos. Este acontecimento histórico não é novo. A população supérflua da Europa que se modernizava, no século XIX era descarregada em terras desertas: América do Norte, sul da África, Austrália, Nova Zelândia, que dispunham de territórios inabitados, pois as pessoas que ali viviam eram consideradas fracas e selvagens. O moderno estilo de vida venceu: livre mercado, economia e consumo livres e McDonald’s para todos.

Com o passar do tempo, a História demonstra com clareza esta segregação, esse sadismo social. Assumir a formação de cidadãos comprometidos com as virtudes éticas e morais capazes de constituir a autêntica humanidade e assim reconstituir a consideração do outro, resgatando o respeito pela vida e seus inerentes e intrínsecos atributos e valores. “O maior objetivo de sobrevivência pessoal e social é a de devolver a confiança às cidades e aos subúrbios, estudando-se a fundo sua realidade e potencialidades (…) criar uma verdadeira democracia urbana, pesquisar novas maneiras de os cidadãos tornarem-se cidadãos de fato, de responsabilizarem-se por sua cidade, por seu subúrbio, de criarem novos projetos para si”. (Jean Sic François – Livro: Dinâmica de Mediação, pagina.171 – 2001).

*Lúcia Regina Diniz Trindade é palestrante, graduada em Literatura e Filosofia e mora em Porto Alegre, Rio Grande do Sul.






Por Regina Diniz, em 09/09/2012.

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