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O amor e o abismo

A sensação que tomava conta de Paulo era: “Por que ele havia demorado tanto para encontrar Henrique?”. Paulo tinha chegado tarde demais, mas por um breve tempo, ele foi feliz ao lado do seu lindo amor. Tudo com Henrique foi intenso e sublime, naquelas noites frias, eles se deram as mãos e prometeram um para o outro que nunca mais iam se sentir sozinhos.

Os dois se completavam, se acariciavam suavemente e se enchiam de alegria simplesmente por estarem juntos, seus olhos brilhavam quando um olhava para o outro. Os sorrisos eram espontâneos e o desejo dos dois estava por todo o lugar.

Paulo que por anos não acreditava mais no amor, voltou novamente a sentir o gosto saboroso da paixão. Por algumas semanas ele voltou a sonhar ao lado do seu mais bonito namorado. Henrique estava ali, com ele, em seus braços.

Ambos se comunicavam pelo olhar, tinham a impressão que já se conheciam por muito tempo, eram íntimos, se entendiam e aprendiam um com o outro. Nas viagens que fizeram entre as suas respectivas cidades faziam planos, um deles é que iriam juntos conhecer o mundo. Sim, foi naquele lugar: distante e perto que Paulo e Henrique se conheceram pessoalmente como duas almas gêmeas que se reencontram.

Na casa de Henrique foi que Paulo sentiu paz, conheceu sua mãe, que o recebeu com delicadeza apesar de carregar as marcas no corpo e no coração de uma vida sofrida. A família era simples e linda, sua irmã amável e entusiasmada em perceber que Henrique estava seguro ao lado de Paulo, em um gesto fraterno logo se apressou em falar para o seu pequeno filho: “O tio está aqui hoje.”. Henrique logo notou que o seu companheiro tinha sido acolhido delicadamente por sua família.

Tudo estava perfeito, mas de repente o chão se abriu com um grande terremoto, e entre os dois formou-se rapidamente um enorme abismo, o tremor foi tão intenso que arremessou ambos: um para cada lado, suas mãos se soltaram e parte de seus corações caiu no abismo. O infinito também engoliu um pedaço de suas almas.

Na queda eles se machucaram muito, Paulo e Henrique ficaram atordoados e inúmeros sentimentos vieram à tona. A felicidade logo foi substituída pela imensa tristeza. O choro desconsolado amedrontava Paulo. Henrique, na sua inocência, levou mais tempo para compreender o fato que estava acontecendo em suas vidas.

Os dois fizeram várias tentativas para transpor o precipício que os separava de maneira avassaladora, ao longe um gritava o nome do outro, relembrando incansavelmente dos momentos que estavam tão próximos e sussurravam um no ouvido do outro. Por dias, semanas e anos eles ficaram ali em lados opostos buscando formas de aproximarem novamente, porém, houve um momento diante do pesadelo vivido, em que através dos seus sonhos puderam se abraçar e se beijar outra vez, pela última vez os seus olhos brilharam e se tocaram profundamente.

Após a exaustão e diante do obstáculo intransponível, os dois recolheram os seus fragmentos e foram obrigados a prosseguir da maneira que fosse possível prosseguir… Henrique procurou recomeçar outra vida em um mundo longínquo e desconhecido. Paulo, decepcionado por não encontrar a parte do seu coração que se perdeu na tragédia, voltou a caminhar solitariamente pelas ruas vazias de sua cidade, na esperança de que um dia consiga ter por completo o seu coração.

*Ricardo Hirata Ferreira é doutor em Geografia Humana, FFLCH, USP.

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