O “Velho Oeste” na Região Norte

Por em 30/11/2009


Cano do revólverO brasileiro (principalmente do Sudeste e Sul) vê como mais atrasada, desigual e arcaica a Região Nordeste. Para a maioria da população, as elites agrárias e o coronelismo lá reinam, sem a mínima presença do Estado. Porém, uma nova pesquisa do IBGE indica que o maior número de mortes violentas está na região Norte. É na Amazônia, portanto, que temos nosso “velho oeste”.

Esse novo indicador revela o tão instável quadro da região. Fixados nos anos 70 e 80, os pequenos agricultores, índios e populações ribeirinhas se vêem hoje isolados e ameaçados pelas grandes empresas de diversos ramos, entre eles o agronegócio, da pecuária e da produção de carvão vegetal para a siderurgia do Pará. Temos, então, nossos produtores de alimentos perdendo suas terras e migrando para as cidades.

Kátia Abreu (DEM-TO), líder dos ruralistas no Senado, afirmou em um debate sobre o desmatamento que o Brasil era visto como “a grande fazenda do Mundo” e, por isso, a expansão agrícola não poderia se interromper. Embora nosso país seja um grande produtor de alimentos, essa visão pode ser contestada pelo fato de o Brasil importar grande parte dos alimentos presentes no cotidiano de sua população, entre eles o arroz, o feijão e diversas frutas. Isso ocorre porque grande parte dos grãos produzidos pelo país é destinado à exportação.

O Agronegócio, cuja maior defensora é justamente Kátia Abreu, pode ser, então, considerado um dos responsáveis pela fome, desnutrição e insegurança alimentar do país, uma vez que a importação dos alimentos os deixam mais caros e acessíveis a apenas uma parte da população. O fato é notado na Região Norte, onde os latifundiários de diversos produtos destinados à exportação expandem ilegalmente suas fronteiras, grilando e roubando terrenos de posseiros e pequenos agricultores. Essas terras, porém, geralmente terminam ociosas, uma vez que os produtos nelas gerados são destruídos por pragas oriundas do clima úmido amazônico, devastando qualquer plantação homogênea.

A Região Norte, porém, tem um potencial enorme para a produção de alimentos. Os índios há muito se alimentam pela extração e produção agrícola em pequena escala. Novos estudos indicam que a exuberância da biodiversidade na Amazônia também é fruto da intervenção humana no espaço florestal, principalmente com a policultura em minifúndios.

Esse potencial, porém, esbarra nos interesses da pecuária, do agronegócio e de outros setores da economia. Infelizmente, o Estado tem tradição na defesa das elites da terra, construindo rodovias, regularizando grandes propriedades e mesmo financiando grandes produções agrícolas. Esse quadro contribui para a fagocitose rural e a migração para a cidade crescentes na Região Norte.

A própria população brasileira não vê a Amazônia como nada além de uma grande e bela floresta. Poucos setores da sociedade se mobilizam a favor dos grupos marginalizados na região, embora a organização seja uma característica presente nos mesmos. Da mesma forma, a mídia quase não se interessa pelos constantes conflitos que ocorrem na floresta. Por fim, temos poucos políticos interessados no real desenvolvimento dos estados da Amazônia.

Nunca se conhecerá ou se aproveitará o verdadeiro potencial da Região Norte enquanto 7% das pesquisas nacionais se destinarem ao local (na região Sudeste, esse número pula para 50%). A pequena produção de alimentos voltada para o mercado interno extinguirão, uma vez que hoje a venda desses produtos não passe do valor de R$ 3 bilhões (visto que a venda isolada de carne excede os doze bilhões). Teremos uma grande floresta desmatada e controlada por elites agrárias que darão continuidade ao “velho oeste” que tem sido a Região Norte. Por fim, “a grande fazenda do Mundo” permanecerá com uma parte da sua população na desnutrição, fome e insegurança alimentar.

*Daniel Vasconcellos Archer Duque é estudante secundarista, editor chefe do Jornal do Grêmio do Colégio Santo Inácio, no Rio de Janeiro. Filiado ao Partido Verde, também colabora com outros sites e jornais.




Por Daniel Archer Duque, em 30/11/2009 - 00:03. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.

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